Luiz Geraldo Mazza
Paraná por cima
No situacionismo ou na oposição é importante que os paranaenses, rompendo com a timidez, apareçam em espaços nacionais. É o que se dá com a convocação, pelo presidente da República, de Euclides Scalco para o comando da campanha da reeleição. Embora afastado do PSDB, desde o momento em que se buscou o caminho do ‘‘inchaço’’ e do fisiologismo, já que se postava como um defensor da tese do ‘‘partido de quadros’’ e não de massas, Scalco é e sempre foi um conselheiro de FHC, razão pela qual acabou na Binacional de Itaipu, ainda que uma ala regional proclamasse que para lá iria o ex-governador Álvaro Dias.
Que vai ter consequências na sucessão estadual nem se discute: tanto Euclides Scalco quanto José Richa, do colégio de cardeais dos tucanos, sempre foram pelo alinhamento de Lerner ao partido e por uma razão simples, a de que detinha uma inquestionada primazia pelos apoios que vinha dando à agremiação na sucessão estadual e nacional e nesta com o sacrifício aberto do candidato do seu então PDT, Leonel Brizola. A resistência local ao ingresso de Lerner foi doentia, centrada em ressentimento e nunca em fundamentos estratégicos.
O relevante, porém, é o fato de um paranaense (e espera-se que seja substituído por um outro na Itaipu para não se repetir o episódio do Ministério da Previdência) estar nessa posição. Da mesma forma é de celebrar-se o destaque conferido ao senador Roberto Requião nas hostes oposicionistas, ainda que se trate de uma atuação de risco, porque o PMDB pode perfeitamente, em sua convenção, insistir na tese da reeleição de Fernando Henrique, o que o colocaria como um dissidente, questão que não se sabe como será regulada pela Justiça Eleitoral. Da mesma forma, a antecipação do seu apoio a Lula deve ser considerado como examinável no Judiciário. Mas esse é o seu ecossistema, uma vez que já exerceu um mandato governamental ‘‘sub-judice’’ e detém outro, o de senador, em situação assemelhada, embora a primeira decisão lhe tenha sido favorável amplamente, como se deu também na questão da incompatibilidade arguida pelo TRE em torno do exercício da presidência do partido.
Precisamos de mais presença. Essa é pré-condição para que o Paraná seja respeitado e recupere os espaços perdidos.


GLOSA
Quem seria o político que ao ser informado de um grampo no seu telefone teria, num ‘‘ato falho’’, observado que ficaria melhor em seu cabelo?



AXIOMA Gente da UPE e da UNE argumentou que os caminhoneiros, durante o bloqueio na BR-116, em Curitiba, mostravam simpatia pela causa dos estudantes, pelo fato de tocarem as buzinas. Desconsideraram a hipótese, plausível, de que se tratasse de uma forma alegórica de fazer um ‘‘top-top’’ para os manifestantes.
Unanimidade não vale porque aí já seria um caso claro de discriminação.
BIZARRICE A democracia, como é praticada, se transformou de tal forma em representação dos interesses que dentro em pouco um vereador, deputado ou senador andará com um uniforme igual ao de piloto de Fórmula-1, definindo as suas representações lobísticas com logomarcas e símbolos variadíssimos. Isso teria uma vantagem sobre o sistema atual porque ao menos definiria quais seriam os interesses que hoje, nós, eleitores, fingimos desconhecer.
SPRAY Todo o sistema policial está sob um fio. Ou melhor, uma fita. A que caiu nas mãos do Ricardo Chab tem oito horas e resulta de um trabalho da Promotoria de Investigações Criminais. Além dessas que pegam em cheio Almirante Tamandaré, há outras que pegam conversas comprometedoras das delegacias de Antitóxicos e de Furtos e Roubos de Veículos.- Há, também, nas mãos do Ministério Público, um vídeo sobre o Instituto Médico Legal.- O nível de comprometimento de áreas policiais com o delito organizado assume características assustadoras: os envolvidos na denúncia das fraudes na Ciretran de Barracão foram todos soltos e o delegado Sebastião Gaspar, sem garantias e ameaçado de morte, tirou o time de campo.- Prefeitos do Sudoeste são acusados de darem cobertura aos envolvidos no chuncho da emissão de carteiras de habilitação e há envolvimento, segundo o delegado, de oito vereadores.- Se já existe excesso de influência política na área, imaginem num município pequeno, e em ano de campanha eleitoral, o que não fazem.- Se há problemas como os de Colombo e Almirante Tamandaré com o crime organizado, que conta com uma cabeça de ponte em instituições policiais, dá para perceber as dimensões do problema.- Os novos comandos das áreas Civil e Militar estão mostrando serviço e esse encontro com os diretores de escolas que vivem sob o cerco da delinquência infanto-juvenil, através de gangues, é um sinal importante.- Conflito pesado numa reunião do Conselho de Polícia Civil mostra que a falta de pulso anima disputas pelo poder interno.- Um setor que a Prefeitura de Curitiba precisa olhar com atenção é o Urbanismo: a área do Meio Ambiente e a polícia pedem o fechamento de um estabelecimento por excesso de ruídos (‘‘El Rancho’’ é um deles) e o organismo encarregado da execução nada faz. ONGs do silêncio estão chiando seriamente e com sobras de razão. Obrigam-se a fazer barulho.-
SENTENÇA Quem viu o Brasil suar, ontem, para vencer a Escócia e assistiu, em seguida, ao jogo entre a Noruega e Marrocos, mais elegante e técnico, passou a apostar na sorte, aquela mesma de 94, no pênalti de Roberto Baggio e naquele gol espírita que o defensor escocês fez contra, pressionado na jogada de Cafu. Em padrão de jogo, foi uma ‘‘lavada’’, bem superior à preliminar.
FOLCLORE Conselho Estadual de Educação, no mundo da lua, condenou a retirada de alunos da sala de aula e a transferência por mau comportamento. Ontem, nesta ‘‘Folha’’, uma diretora de colégio mostrou o arsenal apanhado com alunos. Os conselheiros, ao invés de facas e estoques, devem enxergar bola de gude, pião, ícones dos folguedos apropriados a bons meninos.
CROMO Todos de olho na bola, a rolar no estádio, e só um viu a passagem de um disco voador prateado: no seu interior, o marciano agitava a bandeira do Brasil. Para ele, concretamente, um time de outro planeta.
AFORÍSTICO O Brizola, vestido de cavaleiro do Apocalipse, anunciando a entrega da Telebrás para a Rede Globo, é bem a medida da mediocridade do fazer político no Brasil. Parece incrível que um dia os europeus o tenham levado a sério na Internacional Socialista.

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