Primeiro se disse que o desequilíbrio da prefeitura da capital era de apenas R$ 40 milhões, algo insignificante num orçamento de R$ 1,2 bilhão e que, enfim, sai na urina. Aos poucos, porém, Cássio Taniguchi vai percebendo que passará boa parte do seu tempo administrando as coisas boas, mas também os atos de prodigalidade do seu antecessor. Levantamentos ainda incompletos referem um comprometimento quatro vezes maior do que o alegado inicialmente, pois já se apurou um total de R$ 160 milhões.
Quando essas questões se dão em administrações sequenciais e da mesma origem partidária, tudo pode acontecer: Álvaro Dias não hesitou em usar armas contra o seu antecessor, José Richa, explorando casos como o de Omar Karam, da Claspar, para mostrar-se o fiel guardião do dinheiro público. Chegou ao extremo de mandar o ex-dirigente daquele organismo para a cadeia, como de resto fez com servidores da Promopar, o que no final redundou em nada, tal qual o seu êmulo, Fernando Collor, fizera com a demagogia da caça aos marajás.
O governante que encontra testamentos pesados ou irregulares tem a obrigação de estrilar e tomar providências para não envolver-se por omissão. Vale para todos os que assumiram as prefeituras recentemente. Belinati, de Londrina, por exemplo, encontrou um quadro difícil na gestão de Cheida. Teve até que fazer um empréstimo, a título de antecipação de receita, de R$ 8,5 milhões no Banestado para acertar os compromissos imediatos com o pagamento de atrasados do funcionalismo. Obriga-se também a ‘enxugar’ os quadros funcionais, o que para um populista visceral como ele é um constrangimento atroz.
Além das razões arguidas, há uma de caráter prático que obriga o dirigente a ‘entregar’ o antecessor: a dureza da quadra que vivemos e o rastreamento normal que o Tribunal de Contas faz dessas coisas. Percebeu-se, no caso de Curitiba, que aquele tom festivo, carnavalesco, que predominava na capital, se dava precisamente por falta de cidadania, democracia. A ausência de contraste na informação e de crítica, tal qual se dá relativamente ao governo estadual, sugeria que a cidade tinha uma saúde de vaca premiada, com seus gastos no supérfluo e no voluptuário, como se Curitiba fosse o centro do prazer e do hedonismo e um artista de traço dionisíaco a dirigisse. A descoberta dos ‘pepinos’ nos jardins do otimismo serve de alerta para que Taniguchi não insista no confessionalismo da moda e do qual Lerner não abdica.
BIZARRICE - O senador Sebastião Rocha, do PDT, sugere a indicação do Movimento Sem-Terra para receber o Prêmio Internacional Rei Balduíno. A primeira Carta Magna do mundo surgiu na Inglaterra, em 1215, por obra do rei João Sem Terra. Ela é não escrita e obviamente mais séria do que todas as que tivemos.
SPRAY - O presidente do Tribunal de Contas, Artagão de Mattos Leão, insiste em não cumprir decisão do STF que retira o redutor de funcionários daquela corte e é reincidente na negativa. - Outro que não cumpre decisões das cortes superiores é Aníbal Khury quanto a vantagens concedidas a servidores legislativos. Pelo jeito a moda pegou. O curioso é que uma simples questão de obediência que o TJ poderia fazer cumprir não é atendida. Está aí um assunto para a assembléia de hoje dos magistrados e que prepara o dia nacional de mobilização. - A anomia generalizada que ocorre no país, em razão dessa falta de referência do que é legal enquanto o informal ganha espaços (vide a questão da terra e num outro extremo a do crime organizado) gera o ceticismo nas instituições. - Positivo vai construir instalações no Curtume da Itupava, onde funcionou o QG das campanhas de Lerner e Cássio Taniguchi. A remoção dos entulhos já começou. O Positivo chegou a aparecer em merchandising na novela ‘‘O rei do gado’’, o que dá bem a medida da sua expansão, pois afinal estava se comunicando com todo o Brasil, o que faz através de franquias que monitora. - Deplorável a picaretagem dos anúncios de cursinhos e seus feitos no vestiba. Propaganda enganosa é delito, isso sem falar na absoluta falta de ética dos reclames. Se somarem os feitos teremos na universidade teremos classificados cobrindo o dobro das vagas disponíveis. - Que tal aproveitar a onda do momento e criar um novo tipo de monarquia no País com o Fernando Henrique como rei? Entre os bobos da corte, dando cambotes e fazendo facécias com seus guizos, teremos alguns paranaenses posudos. Não é preciso forçar a imaginação para captá-los com sua vacuidade explícita. Se os que cercam Lerner são ridículos, verdadeiros personagens de Moliere, os da corte federal se tornam ainda mais grotescos. E depois ainda dizem que o Carnaval não é a transfiguração da realidade brasileira. Dá para vê-lo no cotidiano.
FOLCLORE - Cândido Gomes Chagas, que está comemorando os 32 anos da revista ‘‘Paraná em Páginas’’, agora poupando o Lerner (na espera de que ele tape aquele buraco em Guaratuba), mas firme contra Greca, dizia que nas partes baixas da cidade o Farol do Saber poderia funcionar como mirante de observação nos efeitos das enchentes. ‘‘De lá de cima dá para ver as casas boiando, o sofá flutuando, a geladeira arrastada. É mais barato que observar tudo de helicóptero.’’
CROMO - O mestre escola ensina aritmética e apela ao sensorial: soma laranjas e multiplica peras e goiabas. Nem sempre os meninos entendem, mas persistem com água na boca e sentem o odor dos frutos. A máquina de somar matou o prazer de tudo o que não é abstrato no universo dos números.
AFORÍSTICO - Se os seguranças das fazendas, para espantar invasores sem-terra, continuarem dando disparos para o alto, vão acabar derrubando anjos e arcanjos e querubins e serafins e de, quando em quando, uma estrela cadente, em nada parecida com a do PT e da Texaco.

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