Luiz Geraldo Mazza
Agora, a anestesia
A partir de hoje o fato dominante é a Copa. E com ela há quem esqueça até da cozinha, isto é, da necessidade de se alimentar. Se o envolvimento é dessa ordem, dá para imaginar o quanto se transformarão em secundários os temas da política e da economia, as questões comportamentais e até mesmo as ligadas ao drama maior dos paranaenses, que importamos do Rio e São Paulo, enquanto o governo exporta propaganda - o da segurança.
Em 1970 era comum ouvir nas esquerdas, tanto a festiva quanto a armada, que o melhor para o País seria o Brasil perder para que o povo enxergasse a sua própria miséria e o terror de Médice, o presidente que tinha empatia por seu apego aos desportos. Dizia-se que a população estava alienada, quando quem estava era justamente o grupo que assim pensava, supostamente cerebral, sem dúvida. Ao revés, alienado é quem pensa em outra coisa nesse época. Obviamente ninguém vai se descurar dos seus dramas imediatos, todavia o campeonato mundial é dominante, mesmo que se o encare, conscientemente, como escapismo.
Tentar fechar acordos com o propósito de ganhar repercussão política nesses dias, sejam iniciativas federais ou municipais, é inútil. Até os sem-terra correm o risco de, ao invadirem uma fazenda, e com isso impedirem uma família de continuar vendo o jogo do Brasil, sofrerem um contra-ataque de pessoas fantasiadas, da cabeça aos pés, de verde e amarelo, com gravuras do Ronaldinho, em tal clima de absorção mais imediata do que a de Chê Guevara.
Que o campeonato pode ter influência no humor e na atitude do eleitor não se deve duvidar: qualquer escorregão, por menor que seja, afeta o governo que está notoriamente em maré baixa e, ao contrário, as vitórias o ajudarão a melhorar a auto-estima. Isso não significa que a oposição vá torcer contra. Em 70, mesmo nos presídios, apesar de toda a doutrinação da boca para fora, a maioria torceu, emocionada, pelo Brasil, mesmo os torturados.


AFORÍSTICO
Em negociação eleitoral mais vale um minuto no horário gratuito do que qualquer avaliação assentada em coisas abstratas como honra e caráter.



AXIOMAO comparecimento de 98% ao provão mostra que a UNE e congêneres estaduais não têm a menor sintonia com as áreas que dizem representar. Eles são - e isso não é primeira vez que acontece - os reprovados do provão.
GLOSASe Stanislaw Ponte Preta vivesse em nossos dias, teria no vereador Jorge Bernardi uma fonte de matéria prima para sarro superior a Ibrahim Sued. Agora ele quer obrigar centros de lazer a aceitar pessoas usando camisas de time de futebol. Sabe que isso virou motivação para gangues, mas pouco se importa se der alguma repercussão na mídia. Como se deu com aquela proposta de mudar o nome de gari para ‘‘operador ecológico’’.
BIZARRICEA preocupação dos consórcios com o pedágio em mostrar assistência que dão ao usuário nas estradas é tão refinada que de repente anunciam oferta de capelas para a extrema unção das vítimas.
SPRAYViolência, mais do que o pedágio, vai ser o tema eleitoral mais forte. No pedágio, a assimilação será mais rápida do que se imagina, ainda que traduza, de certa forma, uma violência.- Manifestações hostis ao pedágio foram de escassa expressão, mas as consorciadas querem negociar com o governo as perdas em função das exceções abertas.- Sexta passada, oito da noite, assalto ao supermercado Kusma no Pinheirinho, às nove outro, agora na Panificadora Central da Barreirinha. Nas imediações vai funcionar um dos QGs da campanha eleitoral de Lerner. Quem sabe se atacarem a tesouraria muda, de vez, esse clima de paranóia na Região Metropolitana.- Atitude ecologicamente correta a dos municípios balneários de Santa Catarina, como Bombinhas, que proíbem mergulhos, excursões de barcos, jet-ski, na orla e especialmente em regiões de abrigos como enseadas e baías, para proteger a passagem de cardumes de tainhas. Interdição vai até 15 de julho. A rigor deveria prolongar-se, ainda mais com as mudanças provocadas pelo ‘‘El Ni¤o’’. - Collor levou tapa em visita a uma câmara paulista, mas ontem deu um show no Serginho Groisman. A gurizada foi mais pesada em encontro recente com FHC. O vitimalismo é um mal que brasileiros de todas as idades padecem.- Juiz Fernando Cesar Zeni, de Guarapuava, tomou uma atitude insólita, mas de profundo sentido pedagógico, ao reclamar, pelo Diário da Justiça, a devolução de processos retidos com advogados, alguns com mais de quatro anos.- Um trecho pedagiado que vai dar pouca queixa é o da BR-277, de Guarapuava, via Relógio-Irati-Palmeira. Os que trafegam no trecho elogiam, mas a serra de São Luis do Purunã, já na BR-376, está com a pista ondulada, embora Lerner ache que está tudo certinho.- Ratinho entende que Zélia e as ações de Collor na agricultura detonaram a candidatura de Zé Carlos Martinez. Ele o disse na ‘‘Istoɒ’ da semana, subestimando a mentira dos diplomas que o candidato dizia possuir, o que não era verdadeiro. Também não deu a mínima para o ‘‘Ferreirinha’’, fantasma que continua por aí, na próxima eleição, na figura do Afrânio, o motorista que o encenou e que julgam ter sido alvo de queima de arquivo.- Lerner anistiou por interesse eleitoral Onaireves Rolim de Moura que, afora ações cíveis, tem oito inquéritos criminais e ainda bola absurdos como a Copa Mercosul.
FOLCLOREMoisés, o patriarca, e Jesus vão jogar golfe. Jesus leva um outro competidor, bem mais velhinho. Moisés lança a bola e ela cai no lago. Ele abre as águas, como fez no Mar Vermelho, bate na bolinha e a coloca no buraco. Jesus bate e a bolinha cai num lago: ele passeia por cima d’água e dá a tacada no objeto que estava sob um exemplar de Vitória Régia e a encaçapa. O velhinho dá a tacada, a bola pega efeito, entra na boca de um sapo, que é, em seguida, engolido por uma cobra, e, por sua vez, capturada por uma águia, que lá do alto do firmamento derruba a bolinha, que cai direto num buraco. Moisés se vira para Jesus como quem reclama: ‘‘Veja se na próxima vez não traz o teu pai, que desse jeito não dá para jogar.’’ É a mais recente anedota herética da praça.
EPIGRAMA Profético é o candidato que oferece urna funerária e certidão de óbito a eleitor que depende do SUS.
CROMO Parque Barigui é uma beleza, não fosse o odor. O Boticário poderia incluir um chafariz com produtos de sua linha para salvá-lo.

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