Luiz Geraldo Mazza
A perda mais contundente
Volta e meia o governador Jaime Lerner fala em respeito como uma condição fundamental à dignidade humana. Nunca houve, na história paranaense, alguém que fosse tão desrespeitado e de forma quase sistemática - e esse episódio das estradas pedagiadas é exemplo marcante - quanto ele. O respeito é uma condição de reciprocidade: se o governo perde o controle como se deu no Banestado e se dá agora na Segurança, embora a razoável recuperação dos últimos dias, acaba não sendo levado a sério.
A demora em encaminhar, de forma adequada, o Anel de Integração pelo sistema de pedágio leva organismos financeiros a olharem com desconfiança tudo o que aqui se faz. Tal situação se repete com o saneamento do Banestado e o silvo da panela de pressão, lá do Banco Central, não pareceu suficiente para alertar o governador. Insiste na postura de esperar que as coisas se autometabolizem para não correr riscos. É assim no campo partidário, assim também no caso dos despejos judiciais, em número de 80, já concedidos na Justiça e não cumpridos. Graças a isso, o Paraná, especialmente, no Noroeste, está sob o signo da anomia com o desaparecimento dos referenciais institucionais para prevalecer o clima, já definido, do confronto.
A idéia de pedagiar é salvacionista, não há outra alternativa porque o Estado brasileiro faliu, tanto em nível nacional, como estadual. Todavia era possível maior critério com uma planilha transparente e que não gerasse custos tão elevados e frequência tão abusiva de postos de cobrança. Tentando manobrar politicamente a questão do pedágio, ao criar uma classe de privilegiados, ainda que em razão de uma discutível maior frequência como usuário, junto aos transportadores de safras, perdeu todos os controles e já não sabe como remendar o ‘‘rolo’’ que aprontou. O princípio da isonomia, o da imposição da igualdade, está rompido. Mas a concessão animou transportadores à fúria demagógica e agora querem mais e mais, não admitem a cobrança no retorno do porto, enfim, um casuísmo assustador, alimentado pela perplexidade de um homem que não tem determinação e não sabe impor a sua autoridade.
Não dá para imaginar isso com um Munhoz da Rocha, que enfrentou a quase guerrilha de Porecatu e derrubou (quando ministro) o paulista Withaker na Reforma Cambial; de Ney Braga, que revolucionou o Paraná com minoria no Poder Legislativo e também de um Álvaro Dias, que teve o peito de denunciar a formação de cartel na usina de Segredo. Lerner, em qualquer dessas situações, com o seu estilo, não enfrentaria nenhuma dessas paradas porque isso não é agradável como contemplar Faxinal do Céu ou acompanhar os feitos do Rexona no vôlei ou ainda extasiar-se diante do bucolismo das vilas rurais com seu ‘‘décor’’ de gravura de calendário. Lastimável, para dizer o mínimo, que o homem que mais condições tem, por seus talentos e também pela mitologia eregida a seu respeito, de ser a grande expressão nacional do Paraná, decepcione tanto, mostre uma fragilidade que apenas anima os adversários e os demagogos, como fazem agora os transportadores, cada vez mais arrogantes. Pelo jeito, coloca-se em risco o Anel de Integração, mas se isso acontecer, fica o dedo acusatório na direção do culpado maior, o governador Jaime Lerner.AXIOMA
Vão-se os anéis, inclusive o da Integração, e salvam-se os dedos.
GLOSA O Ratinho mostrou, na semana, um pobre coitado de Três Barras, SC, que transava com abóboras. É um símbolo imediato, grosseiro, e nem de longe lembra a abóbora da Cinderela que se transformava em carruagem. Por sinal que um ratinho, que não é o animador, era um dos cavalos.
BIZARRICE A cafajestice é a marca da novela ‘‘Torre de Babel’’ com personagens cuspindo no chão e coçando o traseiro, a garçonete que masca chiclete de boca aberta e vive ajeitando a calcinha para todo o mundo ver, empresário que apalpa bumbum das funcionárias. Dá a impressão que tentam responder no horário nobre os saques do Ratinho pela suposta persuasão do seu público. Conseguem, por incrível que pareça, ser mais grosseiros.
POLÍTICA ‘‘Se Roosevelt achar que converter-se ao canibalismo pode lhe render votos, mandará engordar um missionário no quintal da Casa Branca’’. Mencken.
SPRAY Projeto de Educação Ambiental da Floresta Nacional de Irati não anda porque o autor, engenheiro florestal Trajano Gracia, foi, juntamente com o agente administrativo José Alves de Amorim, afastado.- Essa comunicação, que não é a primeira ‘‘bronca’’ no local, levou recentemente a Superintendência Regional do Ibama a pleitear a reconsideração das punições.- Além do mais, funções de profissionais de nível superior estão sendo exercidas por pessoal de formação técnica, cedidos pelas prefeituras.- Ainda sobre florestas: cresce o apoio de parlamentares à abertura definitiva da Estrada do Colono. Políticos da região, independentemente de partidos, querem uma ofensiva mais forte no parlamento (Flávio Arns, deputado federal, foi um dos últimos a discursar contra o fechamento da ecovia).- De outro lado, os ecologistas se valeram das comemorações da data do meio ambiente para reforçar a carga pela interdição.-
Sérgio Malucelli, o denunciador da tentativa de suborno do Viale, do Coritiba, é o mesmo que aparece com destaque na novelesca fraude do Clube dos 60 em cima do ICMS. Agora o caso futebolístico já começa a reverter e é bem possível que no fundo disso, aí pintem reincidentes. Mas e na questão do ICMS sobrou apenas para os bagrinhos?-
FOLCLORE - Governador: O senhor quer o BigMac com maionese ou mostarda?
- Puxa, mas em tudo eu tenho que decidir?
CROMO No caramujo nenhum sinal de quem ali se hospedava, mas havia o som insistente do movimento do mar. Alma e transcendência mineralizadas.
AFORÍSTICO Sob pressão do conjunto da sociedade, o governo melhorou e muito o desempenho da área de segurança. Em seguida a fraqueza inaceitável revelada na regulação do pedágio, criando a cidadania de segunda e terceira classes.

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