Luiz Geraldo Mazza
Enfim, o Paranaíso
A última idiotice publicitária do governo é a série de anúncios em que pessoas de outros Estados - gaúchos, cariocas, mineiros - decantam os nossos feitos e não se animam a vir até aqui (porque sabem que há gente demais e os espaços se tornam cada vez mais estreitos, como se vê nos 160 mil desempregados da Região Metropolitana), mas recomendam, entusiasmados, que se importe o cenário de nossa terra. A preocupação em não animar a migração é a consciência que Lerner e seus ágeis amestrados tomaram, de que foi delinquente a badalação em cima de Curitiba e agora fazem uma espécie de purgação de culpa, ainda que não tenham o menor direito à absolvição.
Os publicitários ganharam uma espécie de indulgência plenária permanente: suas basbaquices são pouco discutidas (dá para lembrar a barbárie da série sobre ICMS em que o carro de polícia parava por falta não de gasolina, mas do tributo, como se isso fosse apelo para o pagamento religioso e o mesmo se dava com a viatura dos bombeiros) e ficam de corpo fechado para novas e ciclópicas idiotices, como essa série atual, inclusive dos bêbados cariocas achando o máximo a chegada das montadoras e pedindo que se transfira para lá esse clima de progresso, quando o Rio superou Minas e está em segundo lugar nesse item de desenvolvimento. Portanto, mais uma tolice delirante que não serve sequer como utopia, isso é o horizonte do desejável.
Convenhamos, porém, que o ufanismo é marca antiga nossa e até nesse aspecto não há criatividade original e sim pura imitação, manutenção do triunfalismo oco e alienado que permeou vários governos desde o ‘‘Paraná, Segundo Estado do Brasil’’ (que ao menos tinha o mérito de projetar sentido de autosuperação, pois até hoje continuamos o terceiro no sul brasileiro), passando por aquele ‘‘Terra de Todas as Gentes’’ ou o do Requião ‘‘um estado de amor pelo Brasil’’ ou a outra calhordice ‘‘o Brasil que deu certo’’. O descompromisso com a realidade ou retornos práticos e palpáveis dessa pregação (à exceção à de Curitiba, que afinal se trata de refinada ‘‘ideologia’’, sacaníssima, porque impede o raciocínio e leva a quem critica à condição de quem não ama a cidade badalada) induz a um cenário fascista e que submete a cidadania ao exercício de uma obediência, aceitável em ordens confessionais, teocráticas, nunca, de forma alguma, num regime democrático e de livre exame.
No melhor estilo de Goebbels, aquele que sustentava que a mentira repetida se transforma em verdade, estão aí esses recados cromáticos, com uma frequência assustadora na televisão, a tentar convencer os paranaenses que a situação aqui é tão boa que muitos desejam importá-la. Na verdade nós é que estamos importando grupos internacionais, privilegiadíssimos em vantagens fiscais que não damos aos brasileiros e paranaenses, e empréstimos abusivos, sem falar em doação de área e outros favores; ou equipes inteiras de esporte, quando poderíamos transferir o ‘‘know how’’ em habilidades bancárias do secretário do setor, e decalcamos também, é claro, os padrões de criminalidade do Rio e de São Paulo, que proporcionalmente nos esforçamos para superar.FOLCLORE
Como o governo usou bebuns num anúncio promocional, já se imaginou um outro sobre o tema de importar o Paraná entre chapados, chibabeiros.
- Paraná é legal que a gente ‘‘viaja’’ só de pensar.
- Falô, meu.
AXIOMA Lerner provocou um drama quanto ao seu destino partidário, depois não sabia como reagir ao bloqueio aos empréstimos no Senado, não imagina como dar andamento ao problema do Banestado e agora toma uma decisão, unilateral, de desonerar caminhões que transportam safra sem ouvir os consórcios do pedágio. J.L. são também iniciais de Jerry Lewis, bem mais natural nas trapalhadas.
MISTÉRIO Quem é o Mário referido no anúncio ‘‘burro’’ dos gaúchos que se extasiam com o Paraná? O texto está mais ou menos assim:
- E o Mário ainda não veio?
- Que Mário?
Tem todo o jeito de uma sutileza ou chamando o Mário Celso Petraglia para cuidar de novo da campanha ou crítica atribuindo-lhe a condição de desertor.
Afinal, esse Mário veio do Sul mesmo.
BIZARRICE Para completar a confusão, só falta agora o deputado federal Affonso Camargo propor o Vale Pedágio. Tudo na linha do chefe que adota uma solução sem verificação aprofundada, atuarial e econométrica, da planilha e depois, para suas comodidades eleitorais, tenta criar isenções. Renato Aragão anda com terrível complexo de inferioridade e não há analista que conserte.
FILOSOFIA ‘‘Todo artista de alguma dignidade é contra seu próprio país. Pense em Dante, Tolstoi, Shakespeare, Rabelais, Cervantes, Swift e Mark Twain.’ É mais um pouco de Henry Louis Mencken, crítico severo de tudo.
SPRAY O governo paranaense é o campeão da hesitação: como não lhe convém atender os fazendeiros invadidos, procura agradar produtores na questão do pedágio.- Deve ‘‘dançar’’ também na questão do Banestado: mais um pouco de hesitação e perde o acesso aos recursos para o saneamento. A culpa é exclusivamente sua.- Há ainda os casos das alianças com PPB e PTB em que sua falta de iniciativa denota pretender que a solução venha com o tempo, o senhor da razão, como dizia o Collor.- Muita guerra no interior da Floresta Nacional de Irati e logo nas comemorações do Dia do Meio Ambiente: afastamento de servidores, não cumprimento de metas, agressão de funcionários, enfim, um relatório da pesada encaminhado ao Superintendente Estadual do IBAMA.- No PFL, pelo menos na bancada federal, Paulo Pimentel tem mais apoios do que Greca para a vaga do Senado. As atitudes festeiras, a que nós estamos habituados aqui no Sul, do ex-prefeito de Curitiba não são muito bem assimiladas no interior.- Goyá Campos, advogado, e os empresários Rubens Brustolin e Nelson Galvão estão, desde ontem, pescando na Amazônia. Saíram de Cuiabá em busca de um pesqueiro miraculoso do Rio Claro.- Jaime Lechinski, secretário de Comunicação, e Wianey Pinheiro, da campanha da reeleição, almoçando, ontem, no Devon’s e com um ar mais de preocupação do que de descontraimento.-
CROMO Abre as mãos em flor e a cigana lê a linha da vida: as mãos ficam pênseis como lírio em permanente queda.

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