Luiz Geraldo Mazza
Uma verdade não se pode contestar: a maioria do povo, esmagadora, é a favor não apenas da tese da reeleição, mas especialmente da permanência de Fernando Henrique na presidência. Essa é a razão-chave pela qual não se conseguiu, apesar dos esforços para sensibilizar o Congresso na resistência - ao que poderia chamar-se de casuísmo -, fazer proselitismo em escala razoável.
Peemedebistas como o Paes Andrade, o cacique de Mombaça, olhado por Lula como reencarnação do Ulysses Guimarães, o que é um piche nos dois se olharmos com rigor, estavam mais próximos de um Exército Brancaleone que de uma postura quixotesca, já que esta detém mais nobreza e romantismo.
O auto de fé, de impor a orientação de cima para baixo, não se sustentava pela circunstância elementar de que o PMDB, para garantir a vitória de FHC, deveria obrigatoriamente não aceitar a decisão de sua convenção, órgão maior do partido. É que esses votos garantiriam o arrastão, daí perder o sentido a cobrança de fidelidade em cima dos pefelistas, como Ricardo Barros, que foram rebeldes à maioria ou ainda o caso do peessedebista Almino Afonso.
Ocorre que não se decidiu pela questão fechada, o que torna a cobrança aleatória em termos de fidelidade. Para o PDT, partido que se desgasta pelo atraso do seu comando, mergulhado no arcaísmo nacionaleiro de Brizola, no entanto, a resistência às suas ordens dá cassação. Max Rosenmann que o diga. Agora estão de olho em Dante de Oliveira, o homem das Diretas-já, que foi elemento chave em operações de cooptação. É governador do Mato Grosso do Sul e tem um argumento para justificar-se: hoje na população há mais gente a favor da reeleição do que no tempo das diretas. O PDT, que secou a olhos vistos nas eleições municipais, especialmente no Rio e Rio Grande do Sul, prova do desgaste brizoleiro, com essa ortodoxia, impraticável em partidos brasileiros sabidamente despojados de doutrina (nem o PT se salva), cai ainda mais.
O rolo compressor voltou a operar ontem na votação dos destaques e tudo isso afetou, em que pese a vitória e sua simetria com o desejo da maioria, a imagem de FHC, cada vez mais perdendo aura de estadista e se tornando refém do fisiologismo rasteiro como se meios cínicos justificassem os fins.
BIZARRICE - No barreado do Lourenço Fregonese, alguém, ao ver o governador e antecessores (Lerner, Mário Pereira, Álvaro Dias, Richa) no local, lembrou das diferenças que havia entre os convivas. Um parnanguara arrematou: Se até na Santa Ceia se admitiu um traidor de carteirinha, imagine-se num barreado como este.
SPRAY - Caiu o nível de prestação de serviços das estatais paranaenses, como a Copel e a Sanepar, com a desvantagem adicional do aumento de preços. É a mania da terceirização a pretexto de agilizar, o que não acontece na prática. - A Celepar é a mais refinada, por alugar computadores que com a locação de dois meses daria para comprá-los. Se continuar terceirizando dessa forma - e isso se dá até na área de Comunicação e na de Educação -, Lerner acaba em terceiro na disputa com Álvaro e Requião. - A Telepar, que em passado recente, era uma empresa modelar e depois do abuso generalizado das terceirizações também piorou o seu desempenho e a qualidade dos serviços, além do aumento dos preços. - Margarita Sansone - quem foi rainha conserva a majestade - decidiu proibir o mulherio da Fundação Cultural de usar mini-saia. E se por acaso um escocês de saiote e de gaita de fole chegar por lá em missão cultural, será bloqueado? - Até 1991, segundo o IBGE, havia no Paraná 28.773 domicílios em favelas, com uma população de 124.686 pessoas. Hoje, só em Curitiba há mais do que isso. Em 91 eram 20.441 unidades, com 89.030 pessoas.- Londrina aparecia com menos favelas (13, com 2.714 unidades e 11.726 pessoas) que Ponta Grossa, que aparecia com 22 núcleos, 2.926 domicílios e 12.773 pessoas. Por que isso? Porque desde os anos 70 Ponta Grossa sedia o maior parque de oleaginosas da América Latina e com isso atrai gente que faz a romaria campo-cidade. - Com as montadoras no Paraná vai acontecer a mesma coisa, mas o governador só terá olhos para a computação gráfica que rejeita qualquer questão social, como ocorre com os delírios sobre o Litoral e a Costa Oeste.
FOLCLORE - O jornalista Carlos Alberto Marques, o Gauchinho, que fazia ponte entre Curitiba e Londrina, volta e meia era premiado com uma sinecura pelos políticos, sem que tivesse a obrigação de comparecer ao basquete. Pressionado por amigos, Álvaro Dias arrumou uma dessas bocas para o Gauchinho, mas este continuava, na rua, a fazer críticas ao governador. Um dia, Álvaro e o ex-deputado José Domingos Scarpellini viram o Gauchinho na frente de um hotel e o governador resolveu fazer a cobrança: afinal fora sensível e não tivera a menor correspondência da parte dele. O Carlos Alberto sacou uma genial: Governador, eu faço isso para preservá-lo e para que ninguém saiba ou imagine que o senhor acolhe funcionário que só recebe.
CROMO - A joaninha, o louva-a-deus e a formiga deslumbram o menino. Mas só ele enxerga o gnomo com quem conversa o tempo todo. O menino sem jardim é tão doloroso, poeticamente, quanto no mundo real o drama do sem-terra.
AFORÍSTICO - Pelo andar da carruagem - reeleição, derrubada dos destaques - dá para ver que a vocação oposicionista será repetir o fadário da antiga UDN: o retorno dos bacharéis para tentar segurar o poder com rabulices de toda a ordem. A primeira delas será sobre desincompatibilização e com audiência, até ser for preciso, do STF. O Brasil caminha para trás e a FHC só falta repetir depois de mim, o dilúvio, porque o Estado sou eu já está a dizer há muito tempo.





