Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
O despiste da meia-sola
Se as mudanças na hierarquia das polícias Civil e Militar seguir no ritmo de novela, teremos uma dissimulação apenas e que continuará deixando exposta a fraqueza do governo e especialmente de Jaime Lerner em empurrar com a barriga a urgência de recuperar a prerrogativa que transferiu aos políticos no setor de segurança. Os remanejamentos podem até melhorar o desempenho das corporações, mas serão insuficientes e revelarão a preferência do governador por soluções de marketing, de pura aparência, como se deu com o totem já apelidado pelos gozadores de supositório sinistro.
Na hipótese de haver algum retorno imediato com as mudanças criar-se-á a noção falsa de que os problemas foram resolvidos. Aí pelo menos a população teria o que comemorar na melhora dos padrões de segurança e o afastamento gradativo da paranóia que se instalava na Grande Curitiba. O tema vai ser intensamente politizado na campanha eleitoral porque ocupa hoje um lugar de absoluta prioridade até mesmo sobre a bandeira do desemprego, na qual a oposição iria apostar todas as suas fichas.
Não bastasse a rotina dos assaltos a bancos, agora evidenciando a atuação do crime organizado, temos o risco de manifestações crescentes, no sentido claro de desgastar o governo, como as que poderão decolar no seio do funcionalismo estadual, três anos sem ver aumento e, especialmente, daquelas áreas de maior arregimentação como a dos professores, isso sem falar nas provocações que inevitavelmente advirão, nesta semana, com a cobrança do pedágio. Além disso tudo a ousadia, descambando para a selvageria, do Movimento Sem Terra com as invasões de fazendas e agências bancárias imporá a necessidade de pôr fim ao regime dos panos quentes, tão a gosto de políticos que temem que haja com Lerner junto aos camponeses aquilo que se deu com os professores sob o governo Álvaro Dias e cujos titubeios irritaram a PM, que virou boi de piranha de um ônus que o então governador não teve coragem de partilhar com os soldados, o que lhe valeu a justiça poética da derrota. Bem feito, aliás.
Na hora em que houver o clamor no Centro Cívico diante da violência fora de qualquer controle espera-se que os manifestantes se dirijam ao palácio certo de onde emanam as decisões sobre o assunto e que não é o Iguaçu.REDUNDÂNCIA
Essa novela dos sacoleiros na fronteira já está enchendo o saco.
AXIOMA A síndrome do sofá parece estar subjacente na mexida dos escalões policiais: aquela mesma solução da anedota do marido traído que em vez de cobrar a lealdade da esposa trocou o móvel em que se consumou a sedução.
BIZARRICE O governo e as forças a ele vinculadas, por causa do ganho de um minuto no horário gratuito na televisão, salvaram o Onaireves Moura dos seus pepinos junto à Prefeitura de Curitiba e lhe deram recursos quando o caixa estava vazio. Essa é, pelo menos, a presunção corrente em cima do assunto. Mais vale perder um minuto na vida do que sacrificar toda vergonha e a própria vida num minuto.
FILOSOFIA É difícil acreditar que um homem esteja dizendo a verdade quando você sabe muito bem que mentiria se estivesse no lugar dele. Mencken.
SPRAY Sopa de Viagra era anunciada ontem na Confeitaria Stuart. É a nova fórmula, pouco imaginosa, de vender testículos de touro, prato famoso da casa de Curitiba, como afrodisíaco.- A ansiedade em torno da pílula da potência é de tal ordem e sujeita a tantos exageros que se costuma dizer que uma delas caiu sobre um livro brochura que imediatamente se transformou em encadernado.- Outro saque bem malicioso é o que anuncia o Viagra sob a forma de supositório. Como de resto existe na fórmula sub-lingual.- Enfim, pelo que se vê, é indispensável que surja uma espécie de Viagra também para o espírito e a imaginação, que andam lá embaixo.- Assalto a banco agora também no futebol: pois não foi algo parecido que o dirigente do Coritiba tentou em cima do banco de reservas do Iraty? - Lá vai o Miguel Salomão para o sacrifício no debate de hoje sobre o Banestado, na Associação Comercial do Paraná, onde muitos empresários e políticos não querem perder a moleza de um banco que funciona como UTI de inadimplentes.- Como Miguel Salomão é oriundo do Banco Central tem uma doutrina da casa, que é pacífica, e contra bancos estaduais porque sabidamente produtores de moeda e alavancadores de uma tradição de negociatas da qual não escapa o nosso estabelecimento, em que pese a sua condição de melhor dentre todos os estaduais.- O que está impressionando e levantando dúvidas suspeitosas é a dificuldade em fechar números sobre o rombo real do nosso Titanic financeiro: ora uma milha e pouco, ora duas e, em seguida, nada menos de três bi.- Aliás no governo Requião o procurador geral de Justiça, Luís Carlos Delázari, deu o nome dos maiores devedores para o fisco estadual e por isso sofreu um massacre. Tais grupos continuam não pagando os débitos e, ainda por cima, fazendo o ar de indignados quando se suscita o problema que desejam preservado e escondido como o segredo da bomba atômica.- É quase certo que a politização do problema do pedágio vai render manifestações pesadas contra o governo. A demora havida na cobrança apenas serviu para reacumular energias dos setores inconformados.- No entanto, em meio a uma campanha institucional frágil e prenhe de equívocos e mais os erros oficiais há uma iniciativa interessante: a prova Anel de Integração com os trucks no autódromo, envolvendo os caminhoneiros. Isso é inteligente. Mas não é botar gente do sistema escrevendo artigos em jornal a favor do pedágio.-
FOLCLORE Engraçado: a propaganda oficial, com uma frequência abusiva, opera como lavagem cerebral. Um dos saques é o de gente de outras unidades federativas elogiarem as coisas do Paraná e esperando que elas cheguem até eles. Nada mais falso. Dentre os absurdos dois gaúchos, logo eles que têm uma auto-estima bem superior à nossa, desejando que o Paraná chegue até lá, já que não se dispõem a deixar a sua querência. É o caso de se dizer: e nas coxilhas não vai nada?
CROMO Fim de tarde: um disco de cobre, um tom de fogo se alastrando no horizonte, não retém a baixa dos termômetros. Curitiba se torna hibernal como há 30 anos. Na névoa da manhã, os cristais de gelo na grama.
AFORÍSTICO Quando inventarão o Viagra para o discurso político?





