Segundo os mais ardentes defensores da reeleição, o Brasil, a partir da decisão histórica que esperavam, já não seria o mesmo. Esse tom forte de grandiloquência marcava todas as intervenções dos áulicos. Luiz Carlos Santos, que deixou o ministério para a mobilização de plenário, defendia essa tese no ‘‘Bom Dia, Brasil’’.
Mas o Brasil não mudou e nem mudará por causa disso, ou de qualquer dessas convocações salvacionistas como já tivemos com as diretas, a Constituinte, a privatização, o neoliberalismo e tantas coisas mais. Tenta-se sugerir que o lubrificante das reformas estruturais, que são o anverso das pretendidas nos anos 60 por João Goulart, seria a reeleição, ponto de vista apoiado, certo ou errado, pela maioria da população e com maior entusiasmo ainda por nossos credores e investidores externos.
O que dificultou uma defesa entusiasmada do status quo, isso é, da resistência à tese da reeleição, foi justamente essa sensação de estabilidade com a moeda e os preços, que tomou conta do público, embora este jamais tenha mostrado entusiasmo por essa mudança nas regras do jogo. Precipitam-se também os arautos do oficialismo em ver uma apoteose, onde há nevoeiro denso e muita obscuridade. Teme-se, inclusive, a médio prazo que passada a tese, ora transformada em prioridade absoluta, venha o sal amargo, tal qual se deu na Argentina com um breque no aquecimento da economia e maior rigor no controle dos gastos públicos, objeto de advertência recente de organismos mundiais e alvo também do Camdessus, o homem que fala pelo FMI.
No Brasil, nada muda. Como vai se ver. A não ser depois do Carnaval.
SURREAL - Eis algo que caberia num texto de Gabriel Garcia Marques, Icaza, Vargas Llosa: a mulher de um secretário de Estado funcionando como advogada e contra o Poder Público a que seu marido serve. Felizmente isso não se dá por aqui.
OPERETA - Lerner, dentro em pouco, parte para outra viagem, afinal ninguém é de ferro. Vai à França, terra da estatal Renault, e só volta bem depois do Carnaval. Como seu retorno está marcado para um dia antes da mobilização pé vermelha marcada para Londrina poderia perfeitamente a sua substituta, dona Emília, que o representasse naquele encontro. Seria uma forma sutil de lembrar que em briga de marido e mulher, se é que isso estaria acontecendo, não se deve meter a colher.
Há quem esteja considerando o fato não uma guerra da secessão, mas um choque necessário e até produtivo, sob o ponto de vista psicanalítico, entre ‘‘pés-vermelhos’’ e a turma do ‘‘leite quente’’.
BIZARRICE - Margarita Sansone, em sua coluna de ontem, conta que Oscar Niemeyer e João Amazonas teriam revelado a amigos disposição para romances, após corajosa implantação de prótese. Margarita sugere que João Amazonas tenha sido mentor do arquiteto no Partido Comunista. Ora, Niemeyer protegia Luís Carlos Prestes e não era afinizado com o PC do B do Amazonas. Quanto aos romances, é uma ‘‘hiprótese’’.
SPRAY - Só há um jeito de acabar com a depredação dos ônibus depois do futebol: exterminar as torcidas organizadas, como se fez em São Paulo. Ou então, já que a polícia perde previamente a batalha, que se providencie a retirada de todos os ônibus. - Falar diretamente com o ministro da Saúde foi o caminho do prefeito de Maringá, Jairo Gianotto, para pleitear UTI com 10 leitos no Hospital Universitário, prova de que não se confia na gestão estadual. - Há poucas estações-tubo em Curitiba operando normalmente: a maioria apresenta defeitos no mecanismo de abertura das portas. ‘‘Ligeirinhos’’ continuam com problemas graves de vedação e pelo jeito a ‘‘qualidade total’’ aí não prevaleceu. - Com a criação de municípios, segue-se o festival de cartórios. - Exemplo de Campina Grande do Sul, onde o prefeito e secretários baixam os próprios salários, é incomum. - Abílio Diniz, dirigente do Grupo Pão de Açúcar, ontem, aguardando Lerner do retorno à inspeção das áreas flageladas. - Reação boba do PDT paranaense ao combater a idéia de a seção de São Paulo lançar Lerner à Presidência da República. O pessoal daqui acha que isso deve caber ao diretório nacional. Aliás o PDT mostrou ontem no debate final sobre a reeleição que não é o mesmo. - Dentre as reivindicações apresentadas a Lerner pela Associação dos Nativos da Ilha do Mel reclama-se de tudo, o que prova o total abandono do mais importante cenário litorâneo em exploração no Paraná. A bronca vai do acúmulo de lixo à falta de condições de saúde e educação e também contra o turismo predatório que ameaça a integridade do ambiente.
FOLCLORE - O jogador Amaro, do Britânia, tinha o hábito de prender a bola entre as pernas. A técnica estava para ele em originalidade como a ‘‘folha-seca’’ para Didi e a ‘‘bicicleta’’ para Leônidas da Silva. Tinha, por isso mesmo, extremo orgulho de sua habilidade. Num jogo lançaram a bola em sua direção e ele não teve dúvidas: procurou reter, como sempre fazia, a bola entre as duas pernas. Mas, para seu espanto, a bola passou entre as canetas. Amaro não teve dúvidas e dirigiu-se ao juiz reclamando que a pelota não era número 5.
CROMO - No esqueleto da cigarra o desolador sinal da canção ausente.
AFORÍSTICO - Será que se fizessem uma mobilização como a de ontem pela reeleição do presidente FHC em favor da reforma agrária daria o mesmo resultado? Nem com o reforço do senador Roberto Caxias e da Luana.

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