Luiz Geraldo Mazza
As chuvas podem, como no divisor bíblico, gerar uma realidade nova, como se viu na saga de Noé e sua arca, que se diz estar presente no monte Ararat. Mas podem, também, lavar, com impetuosidade, a fantasia que tenta obscurescer ou cromatizar o dado real. Aquilo que está escondido aflora como se impelido pela força das águas: é a Capital Ecológica buscando prevenir-se contra o risco de um surto de leptospirose ou a descoberta do drama dos bolsões de miséria como se viu, ontem, na reportagem de Simone Mattos sobre o povo sofrido de Adrianópolis, isolado pela pedra que rolou da montanha durante 36 horas. Só faltava um dos publicitários do governo lembrar, em hora imprópria, o poema de Drummond, no meio do caminho tinha uma pedra; tinha uma pedra no meio do caminho.
A chuva, mais do que o sol, é desmistificadora. Em 1983, no governo Richa, havia uma campanha em outdoor com um sol imenso quando o Paraná naufragava numa enxurrada muitas vezes pior, pela intensidade, do que a atual. O isolamento do povo do Vale do Ribeira, como se viu em Adrianópolis (hoje mais esvaziada ainda com o fim da mineração da Plumbum, que explorava chumbo e prata), é, a rigor, um caso de redundância porque desconectada do resto do Paraná. Não é o único, mas um dos nossos muitos isolados, como o núcleo de Ararapira, no litoral norte, cujo povo, no desespero, desejou que seu território fosse desmembrado para São Paulo como se tentasse reagir à fatalidade geopolítica.
Nos anos 50 houve em Curitiba uma tragédia: um caminhão em ponto morto na ladeira da Rua Xavier da Silva, desgovernado, desceu o plano inclinado e atravessou a avenida Cândido de Abreu, atingindo uma casa de cômodos e matando vários dos seus ocupantes, que se distribuíam em famílias num cortiço próximo ao fulgor do Centro Cívico. O mimetismo encobria a realidade social: às vezes uma cortina separava o limite de uma família no mesmo cômodo.
Uma década depois, tivemos um incêndio na Rua Emiliano Perneta, ao lado da Escola de Música e Belas Artes, que também mostrou outro fato encoberto pela força da tragédia: minúsculos cômodos, cada um com o seu indispensável fogão a gás, deram efeito multiplicador ao drama, mas igualmente revelador, com várias mortes.
Por essas razões é que venho insistindo para que o governo busque sintonia mais fina quanto aos vários impactos que advirão com a chegada das montadoras na Grande Curitiba. Não há avaliação dos efeitos sociais e dos urbanos (e no caso metropolitanos) porque há muito os setores encarregados desses estudos e senso de antecipação estiolaram, perderam representatividade, embora grupos de militância cívica, tal qual os ambientalistas, tentem substituí-los quando lhes falta visão mais abrangente de processo.
Da mesma forma que a chuva, a marcha dos acontecimentos também desmistifica a oratória monocórdia e anestesiante, alienante e anticívica, da propaganda.
BIZARRICE - O machismo, hoje em baixa, era a regra também no Ginásio Paranaense. As moças, em minoria, eram separadas da rapaziada, mas quando subiam as escadas grande número de marmanjos se punha junto à escadaria para ver as pernas das garotas. Não era fácil, portanto, encarar a batalha. A professora Maria Vítola, de Espanhol, ao perceber as gracinhas dos alunos, enquanto estava de costas no quadro negro, deu a todos um lição de sutileza e muito bem arquitetada com a frase las chanzas de los chicos non me chocan.
SPRAY - O vereador Jorge Samek, de Curitiba, aposta num sindicalismo forte em função da chegada das montadoras e que favoreceria, segundo ele, o PT. No ABC, isso aconteceu, mas refluiu na sequência. Nacionalmente, o PT perdeu do PSB. - De qualquer modo, a ele se deve a filiação do Sérgio Butka, que comandou as greves recentes na Volvo e que renderam alguns ganhos. Hoje, com a moeda estabilizada, o sindicalismo tem que brigar por tostões: a greve paulista dos motoristas e cobradores em torno da participação nos lucros deu um ganho pequeno, de R$ 150. - Instituto Pedroso Horta, do PMDB, hoje dirigido por Maurício Fruet, pretende fazer um estudo da ação dos governos do partido (Richa, Álvaro e Requião) para mostrar a obviedade de que muito desse cenário que Lerner explora se deve à organização. Dentre as razões suscitadas para a localização das montadoras está a infra-estrutura, a que se deve, em parte, a essas gestões peemedebistas. - Neste meio de semana vi que nem tudo está perdido: em poucas horas, agentes da Delegacia de Furtos de Veículos localizaram e protegeram o carro de um dos meus genros, que havia sido roubado. Fizeram mais: como um dos pneus, mais o estepe, foram levados, cederam um disponível para deslocar o veículo até a casa do proprietário. - Secretaria de Educação está conseguindo avanços no que chama de maximização com menos professores e muito maior rendimento. Em 95 havia perto de 90 mil professores com quase a metade de contratados temporários, em 96 o número caiu para 65 mil e os temporários mal se aproximaram de 30%. - Cloaca em technicolor os anúncios dos feitos dos cursinhos nos vestibulares. Falta de ética afrontosa que mostra o quanto se degradam os valores com a mercantilização. O Ministério Público poderia dar uma olhada para enquadramento na propaganda enganosa.
FOLCLORE - O publicitário Jamil Snege é autor das propagandas mais atípicas e bem-humoradas. Fez uma da Casa Féres em que a Patrícia Pilar, a Luana de O Rei do Gado, dominava com sua beleza o cenário da loja e ofertas. Aí aparecia o próprio Féres, dono do estabelecimento, que esclarecia: Se não achar a patrícia, pode falar com o patrício. Que era ele mesmo.





