Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Conduzo, não
sou conduzido
No meio da semana a equipe de voleibol feminino do Paraná, Rexona, ao vencer o Leites Nestlé em Jundiaí, São Paulo, sagrou-se campeã brasileira, impedindo que a equipe paulista chegasse ao tetra-campeonato. O feito é esportivo, mas contém inegável alegoria: somos um desdobramento de São Paulo que luta por maior raio de autonomia e a estamos obtendo com o novo perfil de nossa economia, já não mais assentado nas vocações tradicionais da agropecuária e a sua transformação industrial.
Nosso deslanche, no entanto, não é autárquico: ao mesmo tempo em que rompemos com a dependência e a complementaridade relativamente a São Paulo, num esforço sem precedente histórico, assistimos a inserção de empresas nossas naquela unidade federativa em campos de alta tecnologia. Amanhã, às 11 horas, Mário Covas, o governador, anuncia investimentos do grupo Inepar em São Paulo com o centro de excelência industrial em Araraquara, base para sua ordenada expansão ali e em todo o País em áreas de energia, mecânica pesada, montagens industriais e transporte.
O fato em si é significativo demais para não merecer registro e análise, ainda mais depois daquelas intermináveis discussões entre Emerson Kapaz, secretário de Ciência e Tecnologia, e que adotou uma posição tempestuosa em relação ao debate em torno da guerra fiscal, acusando o Paraná de fazer concessões excessivas, de ordem fiscal, quando ninguém supera São Paulo nesse particular. O próprio governador Mário Covas embarcou na algaravia passional quando estávamos diante de um fato inevitável: a desconcentração do parque industrial brasileiro capitaneado pelas montadoras.
Em passado recente pagamos um pesado ônus em nossas disputas: um erro de traço logístico mandou para Tremembé a unidade experimental de xisto que deveria situar-se em São Mateus do Sul; padecemos tremendamente para ganhar status de produtor cafeeiro numa hostilidade permanente; o cerceamento da produção de cítricos sob o fundamento de que éramos uma área sujeita ao cancro cítrico foi outra evidência de que os fatores ligados à expressão política nos colocavam em posição de inferioridade. A chegada das montadoras e satélites gerou um novo quadro que entusiasma e igualmente assusta.
O dístico bandeirantino, Ducco, non duccor (conduzo, não sou conduzido), não é uma gratuidade heráldica porque expressão de mais do que um desejo e de uma realidade. Só o sentimento autonomista é que o assegura e o Paraná, como a parte desmembrada há 136 anos de São Paulo, dá continuidade a essa pulsão missionária. Estar em disputa e ao mesmo tempo se integrando com aquela unidade federativa, como se denota nessa decisão estratégica da Inepar, é prova de um destino comum de integração, dialético, tenso, e não de afastamento conflitual. Uma relação mais horizontal do que vertical.AXIOMA
O secretário de Transportes, Heinz Herwig, no meio do debate com os parlamentares, sugeriu que as empreiteiras, no caso do Anel de Integração, poderiam ter prejuízos, operando seis anos sem lucros. Igual ao destino de Jacó que trabalhou sete anos no peito para Labão com o desejo de levar Raquel e ficou chupando o dedo. Bíblico. Mas para a oposição cai o maná na área dos consórcios rodoviários e sobra capilé já para a campanha eleitoral.
TEASER Na autoproclamada esquerda do Paraná, que tem todo jeito de direita, sugere-se a frase-chave: Requião e Lula, irmão. Rima forte com rejeição.
MISTÉRIO Se o governo chega ao cúmulo de não repassar verbas para pagar o telefone do Judiciário, pergunta-se: como é que já tem dinheiro para a campanha eleitoral e de onde veio o maçari? Vai ver vão trabalhar por amor, que nem as empreiteiras. Hipocrisia é a homenagem do vício à virtude.
BIZARRICE Domingo Laino morou muito tempo por aqui como exilado. Era tido, por muitos, como um chato pelo monotema. Agora os que já não o suportavam irão chateá-lo se levar a melhor nas eleições paraguaias. Se Rui Barbosa tivesse morado por aqui já imagino o comentário da Boca Maldita: Lá vem o chato cabeçudo e discurseiro. E assim seria com Einstein, imagine-se com os mais comuns.
SPRAY A morte de um oficial da PM na luta contra assaltos a bancos mostra que a batalha contra o crime organizado está sendo perdida.- Dá a impressão que o governo teve estalo profético ao convocar para amanhã, no Palácio Iguaçu, e muito antes do ocorrido, um encontro com os meios de comunicação para tratar do assunto.- Só falta algum gênio sugerir que não se divulgue a extensão verdadeira da delinquência em Curitiba para não animar gangues organizadas do Rio e de São Paulo. Curitiba já é a Baixada Fluminense: o torpor da propaganda, ainda residual, é que não permite enxergá-lo.- Uma pesquisa CBN mostrou que a esmagadora maioria da população defende o funcionamento em 24 horas do hipermercado Extra: ajuda a empregar, melhora as condições de segurança no bairro e moderniza nossos padrões. O preço é que está salgado.-
Por falar em preço, a cesta básica da terra continua a mais alta do Brasil, sem que a prefeitura, órgãos de abastecimento, economistas expliquem a razão.-
FOLCLORE Curiosidade: o nome do jornal da Associação dos Magistrados do Paraná, Novos Rumos é o mesmo título de antiga publicação do Partido Comunista Brasileiro. Novos Caminhos não daria porque a oposição diria que os juízes estão com Lerner. E aí sem falar em subliminar: estaria na cara.
FILOSOFIA A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na ocorrência do improvável. Henry Louis Mencken.
CROMO Antes você encostava o ouvido na grama lá na Lapa e a ouvia crescer. Agora não dá mais: o mugido do gado e o alto falante anunciando a provável industrialização, que ninguém sabe quando chegará, atrapalham.
AFORÍSTICO Uma forma desejada pelo governo para que os esfomeados se manifestem é a de que permaneçam disciplinados, quietos e deixem que os seus estômagos ronquem em praça pública. Não deixaria de ser um discurso.





