Luiz Geraldo Mazza
Cega, surda e muda
Diz-se que a justiça é cega. O símbolo tem o significado óbvio de que a vedação dos olhos corresponderia ao ‘‘distanciamento’’ das pendências para a busca da equidade e do bem que, como diziam os escolásticos - e o repetia mestre Ernani Guarita Cartaxo, professor de Direito Romano - ,‘‘o direito é a arte do bem e do equitativo’’. No Paraná, por culpa do governo que não paga contas, a justiça de repente se viu, além de cega, surda e muda porque a Telepar cortou linhas telefônicas por falta de pagamento.
Enalteça-se a elegância de esgrimista do presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Henrique Lenz César, não alimentando agravos ao governador, como chefe do Poder responsável pelo não repasse dos recursos, o que poderia fazer sem que merecesse por isso qualquer reparo. Se a verba para as coisas básicas no funcionamento de um poder autônomo, como impõe o diagrama de Montesquieu, não é suprida, dá para perceber a que nível chegou a desordem administrativa.
O calote é a marca deste governo: atrasa quatro, cinco meses, os alugueres, os prestadores de serviço, os empreiteiros. Num regime de arrocho salarial, quando a assistência médica e previdenciária funcionaria como um ganho indireto para os servidores, isso é suprimido e não pode sequer ser cogitado porque há calote igualmente na rede hospitalar, o que impede que essa atenda a demanda dos segurados do IPE, Instituto de Previdência do Estado. A propósito, o governo jamais pagou a parte que lhe cabia nessa questão, quanto a sua cota de contribuição, excetuando-se o caso único de Paulo Pimentel, que o fez de forma indireta na construção das sedes da instituição em Curitiba e Londrina.
Outra elegância do Tribunal: a de não resistir à providência reclamada pela Telepar, o que a colocaria como inadimplente rebelde e lhe retiraria moral quando tivesse de intervir em questões semelhantes no atendimento do interesse das partes em litígio. A mediocridade da situação é de tal ordem que dispensa outras argumentações, ainda mais quando sobra grana para irresponsabilidades como o oba-oba da área dos esportes entregue aos cuidados daquele que detonou a Leasing Banestado e cujos miasmas, como já disse, tentarão encobrir com o perfume Rexona, pelas artes da nossa valente equipe de voleibol.AXIOMA
No Vaticano, a pergunta comum: quem é o senhor de branco, tão altivo, ao lado do Aníbal Khury?
CODINOME Onaireves, Severiano ao avesso, é um dos grandes aliados de Lerner; outro é o Severino, mais à esquerda, do PSB. Este pode até contaminar com idéia, o que pode ser bom, já o outro traz outras formas de contágio.
BIZARRICE Na palestra do Sirkis, do PV, anteontem, nos debates sobre 68, houve a intervenção de um punk. Educadíssimo, poderia servir de mestre para orientar o secretário Heinz Herwig nas suas preleções em defesa do pedágio.
SPRAY A última idiotice da praça, obra de alguns desses gênios de araque, consultados pelo governo, é a afirmação de que Lerner tem tal credibilidade que ele deveria assumir pessoalmente a campanha do pedágio. Nem com FHC essa gente aprende: vejam o ocorrido com a previdência.- Rubens Ferreira lembrava que Requião, como Collor em relação à abertura do mercado, é o pioneiro da privatização, ao dar à Andrey a metade do transporte dos ferry-boats na baia de Guaratuba. Hoje o sistema é todo da concessionária e com aplausos gerais.- Prefeitura já se viu obrigada às primeiras correções no sistema viário em função do hipermercado Extra. É o que dá submeter a cidade e suas funções a um empreendimento econômico, tal qual se deu com o Shopping Mueller e os demais e se reproduz no caso do ensino mercantilizado, com as concessões absurdas e sem respeito à circulação.- Marcha dos prefeitos a Brasília dia 18: se em fevereiro tivemos mais de R$ 8 bilhões de dispêndios acima do que deveriam fazer Estados, União, municípios e estatais dá para imaginar a resposta de FHC.- E nessa lista entra essa greve de mestres universitários, a enésima sem qualquer resultado prático: o País quebrou, senhores, convençam-se dessa realidade singela, visível nos salários mumificados e no predomínio do baixo clero na docência e na cátedra.- O Tribunal de Justiça deu uma lição de alto nível, de luva de pelica, no governador: ele cumpriu a sua obrigação ao aceitar a inevitabilidade do corte dos telefones, quem não o fez foi Lerner com a sua desídia e irresponsabilidade. O caso é grave pra tentar ocultar.-
O curioso, porém, é o seguinte: alguns credores são atendidos, outros não. Essa linha de critério (ou falta de) compromete ainda mais.- Quem vê na TV o desfile do PDT tem uma desconfiança: o Lerner ainda manda por ali. Dos 64 prefeitos (dá para por aí alguns do PSDB também), 50 são pela reeleição, um pela candidatura própria e 13 indefinidos. Era o que uma raposa de rabo felpudo narrava ontem para uns cabos eleitorais, com jeito de frango e de pintinhos.- Se Lerner fizer as concessões que consta do acordo, vai sair dessa parada mais desfigurado ainda do que está.- Cronograma da Chrysler no Paraná atrasado. E isso nada tem a ver com o acordo com a Daimler-Benz.-
APELIDO Muita bexiga no rosto, em Paranaguá, das duas uma: ou é cara de areia mijada ou reboco de igreja velha.
MENCKEN Mais algumas dele: ‘‘Incrível como meu ódio aos protestantes desaparece quase por completo quando sou apresentado a suas mulheres’’. E outra: ‘‘Finalmente passou a ser legal que uma mulher católica recorra à matemática para evitar a gravidez, mas continua sendo-lhe proibido recorrer à física ou à química.’
MISTÉRIO Logo depois de aparecer numa foto com Lerner, Onaireves Moura acerta contas antigas da Federação de Futebol. Só falta, na sequência, o governo comprar o mausoléu chamado Pinheirão.
FOLCLORE O simplório cidadão de Ventania, ao saber da agenda de viagem do governo a Ponta Grossa, Teixeira Soares, Piraí do Sul, Carambeí, Guarapuava, espantou-se e tascou: ‘‘Como está obrando o governador!’
CROMO Coroa de Cristo: que planta é essa que te agride com espinhos para evitar que toquem no seu caule e faça derramar leite, seiva corrosiva?
AFORÍSTICO E depois de perdermos os dedos na construção dos anéis de integração, qual será a próxima surpresa deste governo criativo?

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