Luiz Geraldo Mazza
68 e 98, distância
e proximidade
Interessante essa promoção em torno do sentido dos movimentos ocorridos no mundo inteiro e também no Brasil e Curitiba em 1968. Uma diferença com o quadro atual é essencial: estávamos àquele tempo sob a guerra fria e ela acionava os cordéis geopolíticos, operando-se em todos os blocos (e o caso dos mártires da Tchecoslováquia é paradigmático) e ganhando especificidades como se dava nos Estados Unidos com os hippies e o seu tribalismo, resistente pela pregação do amor e rejeição à guerra, opondo-se à luta no Vietnã.
Hoje não há a guerra fria, mas o afloramento das contradições internas se dá de uma forma clara: Movimento dos Sem Terra, imediatamente catalogável nos critérios da Lei de Segurança como uma evidência de guerrilha, a teoria focal, bem mais relevante por sua dispersão no território do que o caso de Chiapas, apesar do caráter militar; os saques no Nordeste e o debate aberto sobre a sua legitimidade o que apenas acentua a anomia do País, cada vez mais aberto à informalidade, seja a do povo nas ocupações de terrenos ou do crime organizado como o narcotráfico e o assistencialismo que substitui o Estado nas favelas; a violência urbana generalizada ao lado do esgarçamento da economia com o cenário pré-recessivo e de desemprego; retomada das greves como essa da Universidade, que leva ao niilismo porque, mesmo num tempo eleitoral, tem escassas perspectivas de emplacar.
O pior dado negativo é o de que a despeito do vigor da utopia da contestação e a crença na força das barricadas, velha ilusão francesa volta e meia repetida para a manutenção do ‘‘Welfare State’’, hoje sob ameaça concreta com o avanço neoliberal, estamos agora diante de uma ordem confessional e portanto totalitária. A contestação epistemológica, seja no campo acadêmico, seja nos partidos políticos, é de uma espantosa fragilidade, dando a impressão de que nos encontramos sob o império da verdade revelada. Pior do que os tempos do socialismo real porque pelo menos existia a diferença do outro bloco e do que a convicção nos mitos americanos do capitalismo, a força do individualismo, o ‘‘self made man’’, o ‘‘american way of life’’ embutidos na indústria cultural do cinema, da televisão e dos jornais.
Nesse sentido há uma espécie de nostalgia em torno daquele ‘‘frisson’’, em que a direita levou a melhor, pois a acomodação foi mais consequente do que a ruptura. Que valeria, como força moral, para questionar a ordem que aí está desde os seus fundamentos filosóficos aos de natureza concreta. Tanto quanto o ‘‘revival’’ da série global ‘‘Anos Rebeldes’’, que levou os caras pintadas às ruas para derrubar Collor, embora a UNE acredite que foi ela quem mobilizou, embora não tenha a força mínima para contestar algo singelo como o ‘‘provão’’, o que os franceses pelo menos fariam com a maior facilidade.AXIOMA
Na análise lógica da política, aqui no Paraná pelo menos, Aníbal Khury é o sujeito oculto da oração. Dá impressão que pauta a reportagem. A saída breve do ‘‘bruxo’’, com a entressafra do noticiário (e das empulhações por espaços de partidos sem conteúdo e com muita cupidez), deixou o nosso meio quase como os portugueses, depois da revolução dos cravos, quando sofriam nas redações com a falta do censor, uma ausência pesadíssima.
BIZARRICE O prefeito de Cambará, Mohamad Ali Hanze, para driblar o pedágio, está disposto a reativar uma estrada antiga paralela para que haja uma opção aos usuários. Aqui na Região Metropolitana, o hoje deputado Geraldo Cartário, quando prefeito de Mandirituba, tocou uma estrada para contornar a balança do DNER perto do Parque Verde e facilitar a vida dos caminhoneiros. Por essas e por outras do populismo, Cartário, que inventou transporte de graça e fez um bom hospital, ficou posando mais à esquerda do que o governador da época. E por isso Mandirituba chegou a ser chamada Mandiricuba. Fidel misto de Salazar.
SPRAY Um ato público, hoje à noite, no Centro de Convenções em Defesa do Banestado. Mais assembleísmo, desinformador e corporativista. Políticos acesos com a hipótese de faturar o episódio.- O jornal da CUT, Contracheque, voltado aos trabalhadores do Banestado, toma porém a cautela de mostrar na contracapa que amanhã na FETEC, das 9 às 18 horas, entram em debate mudanças na Previdência e os destinos da Fundação (Funbep), pós-privatização. Inevitável, razão pela qual urge saber o que se deu com experiências do Banerj e Banespa.- Se o corpo de correntistas e acionistas opinar, a maioria é pela privatização, pois até este governo, o de Lerner, mostra que não dá para confiar numa operação entregue a políticos. Vide casos dos títulos estaduais deste e de outros governos e mais o específico da Leasing, que ao invés de punição deu prêmio ao seu gestor temerário.- Número de inscritos para o concurso de juiz substituto já bateu nos 500. São 40 vagas apenas e inscrições terminam amanhã. Inicial de R$ 3 mil. Daí a grande afluência.- Governo oficializa a agiotagem autorizando bancos e organizações a fazerem empréstimos a funcionários sob consignação em folha e nega o desconto para sindicatos. Capitalismo demais.-
APELIDO Na Stuart, um dos bastiões (pelo nível deveria ser sebastiões) da boemia curitibana, havia um cidadão que por haver casado com a viúva de um magistrado era chamado de ‘‘juiz substituto’’.
GLOSA Com a aliança, só na área do esporte, de Lerner com Osvaldo Santos e Onaireves Moura, esse varão de Plutarco do futebol, dispensa-se inimigos.
FOLCLORE PSDB quer punir o uso da propaganda subliminar pelo governo, mas foi beneficiário anteontem, em favor de Álvaro Dias, do mesmo fator com a pane geral no telefone celular. É que no tempo dele tudo funcionava bem. Ele está também por um fio e isso tem um certo jeito de subliminar.
CROMO ‘‘Música em surdina// abismos de Paganini// as rosas sem fim// secreto teu olho cigano// passeia os cílios em mim’’: Wilson Bueno, em ‘‘Violinos’’.
AFORÍSTICO O pretexto nem sempre é um pré-texto: Lerner diz que vai ter apoio do PPB sem nada oferecer, o que não é verdade, e a agremiação se diz séria e doutrinária, o que também mal serve como anedota. Não só ela, esclareça-se.

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