Luiz Geraldo Mazza


Matemágica oficial
Coloquei sempre em dúvida números oficiais. E ainda recentemente discuti se realmente foram retiradas 40 mil crianças da rua para a escola (na verdade os que não estavam matriculados foram caçados em casa com a vantagem do ganho da tal cesta básica), o que não acredito porque como os viajantes do deserto continuo vendo miragens nas ruas de Curitiba que se repetem nas de Londrina, Ponta Grossa, Maringá etc: a piasada cheirando cola, nadando em chafariz de praça, praticando pequenos furtos, pedindo esmolas. Dona Fani Lerner, pessoa que estimo e bastante por sua aguda sensibilidade e entusiasmo (o marido não projeta esse pique, essa determinação), me convocou em seu gabinete para dissipar dúvidas. E quis que eu levasse, depois de longa doutrinação, a lista dos 35 a 40 mil assistidos, entre os quais a Adébora, figura-símbolo, que é assistida lá em Amaporã e o governo não soube explicar no devido tempo.
Obviamente nem pensei nisso e nem faria tal deselegância para quem transforma sua ação cotidiana em tarefa missionária. Dias depois, Lerner vai à rádio CBN, onde faço comentários, e repete o número os 40 mil. Relatei o contacto com dona Fani, mas fiz a observação: ‘‘que esses quarenta mil não sejam como os quarenta pobres referidos por dona Margarita Sansone que conhecia pelo nome e endereço‘‘ ao que acrescentei RG, CPF e número do supercheque.
Como os governantes citam números para exaltar seus feitos, Lerner costuma dizer que criou 800 mil empregos, o que é bastante improvável. Como algum cético já o levou a rever essa referência, passa o governador a perguntar se 400 mil não seriam importantes. Claro, mas o relativismo aborrece. A Cidade Industrial foi apontada como gerando 400 mil empregos. Também não é verdadeiro e agora já corrigem o indicador para 350 mil, embora um levantamento recente apontasse, em ocupações diretas, menos de 40 mil, o que deve ter se reduzido, como se deu com empresas como a Volvo, em função da conjuntura pré-recessiva.
É melhor, no entanto, errar pelo exagero, mas evidenciar atuação. Esse dado não pode ser negado ao governo, ainda que a mentira repetida, como Goebels lecionava, seja pior do que transformá-la em verdade, mas colocá-la como um fator de conformismo, liofilizando a cidadania no passe de mágica.IDENTIDADE
O Paraná, eis um tema que permanentemente me perturba, não tem aquilo que se chama identidade. Somos pendulares entre duas influências fortes: a gaúcha, com quem temos a irmandade do tropeirismo, especialmente no hábito do mate e do chimarrão, e a paulista, de quem somos um desdobramento econômico, político e cultural. O governante nosso, de maior prestígio nacional, foi um bahiano, o conselheiro Zacarias de Góes e Vasconcellos, o primeiro, presidente do Conselho de Ministros, dirigente de três estados, ministro da Marinha e de atuação parlamentar vigorosa.
Fala-se muito em ‘‘civilização paranaense’’. Ninguém o doutrinou mais do que Munhoz da Rocha, cujos discursos do centenário (1953) estão em livro a ser lançado em breve. ‘‘Síntese do Brasil’’ era uma das suas definições para o Paraná, cabível, convenhamos, também para Brasília e São Paulo, estuário de migrações.
Em tempos recentes no oeste houve um episódio que nega a suposta facilidade de assimilação de migrantes de tantos pontos do território. Céu Azul, de influência dominante gaúcha, tinha um distrito Vera Cruz do Oeste, de nordestinos que de tanto crescer acabou superando a sede, elegendo maioria na Câmara e até o prefeito. Resultado: foi preciso o plebiscito para autonomia de Vera Cruz a fim de evitar um conflito entre sulistas e nordestinos. À época houve quem saudasse aquele contacto das correntes migratórias com uma frase típica de retórica: o encontro do chapéu de couro com a bombacha! Sociografia e boa intenção, formalismos visando a unidade, nem sempre resolvem.
BIZARRICE O PSDB descobriu propaganda subliminar (saberão o que é isso?) na folhinha da Prefeitura de Curitiba mais a oficial do Paraná e não viu, é claro, a apropriação da Telepar em tempo integral. Sou mais pela derrubada da folhinha da Eva no paraíso. É o outono da inteligência.
SPRAY De 15 a 17 deste mês teremos o XI Encontro Estadual de Magistrados e Promotores da Infância, Juventude e de Família.- Na conferência de abertura uma exposição de Cesare de Florio La Rocca do programa Axé (Salvador-Bahia). Há especialistas que dizem ser o programa paranaense ‘‘Da rua para escola’’, menos badalado, mas muito mais abrangente do Axé e mesmo o de Brasília. - Dona Fani deveria ir lá e dar o recado: timidez e recato, quando exagerados, não ajudam a nossa afirmação.- Espero que nesse encontro saiamos do discurso da imposição de certos setores que nada fazem para retirar meninos viciados em cheirar cola e infratores alegando sua raiz social, embora lei preconize tanto o abandono familiar como o escolar.- O juiz de direito de Santo Ângelo, RGS, João B. Saraiva fala sobre Medidas de Proteção à Criança e ao Adolescente, a mestra Irene Rizzini, RJ, trata da reintegração familiar à colocação da família substituta e o procurador de justiça Munir Curi, SP, orienta debates e oficinas em grupo. A promoção será no Tribunal do Júri.- O anarco-advogado e ex juiz Elísio Marques mostra que o Tribunal de Justiça acaba de patentear o aumento virtual ao atribuir um valor em folha, seguido da observação de que se trata de recurso financeiro ainda não liberado.- Por falar nisso, apesar da boa vontade do desembargador Henrique Lenz Cesar, até hoje os judiciários não viram a cor daquela reposição de mais de 60% que ganharam, há anos, no STF.-
FOLCLORE Aquele programa eleitoral do PMDB, de anteontem, parecia coisa de religião populista. Se o bispo Edir Macedo vê a cena coloca os personagens na madrugada, fora do expediente da Record no horário comercial, é claro, mas no campo do proselitismo e do alumbramento catequético. Por isso já se advinha o que virá com o PMDB paranaense: ao invés de votos ex-votos, cabeças, fêmures, joelhos, pés, em cera, de quem recebeu a graça desse período inesquecível de governo que vai da panela cheia à barriga vazia.
CROMO A medusa, flor ornamental no meio do mar, esconde sua agressividade na beleza magnética: deslumbra de longe e queima de perto.
AFORÍSTICO Nem só de pão vive o homem, explicava o padeiro ao filho, pois é preciso ampliar o ‘‘mix’’ de oferta em massas, bebibas, supermercado.

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