Luiz Geraldo Mazza

Lerner na ofensiva
O governador percorreu ontem algumas emissoras de rádio: da visita ao fato inevitável da entrevista foi um pulo. Disposto a falar sobre tudo, desde o problema crucial do pedágio, que defende com certo nível de paixão, à tão discutida aliança que o apóia e anda a barganhar espaços, passando, é claro, pelo novo perfil da economia paranaense. Ciente de que esses serão os pontos nodais da campanha, está em ‘‘aquecimento’’ para a batalha que só mostrará seu lado mais árduo no momento da cobrança, o que vai provocar choro e ranger de dentes com faturamento oposicionista inevitável.
Ainda ontem o seu secretário de Transportes, tido como um ‘‘panzer’’ para as obras e que parece ainda mais nos debates acentuar seu lado rústico e tenta ganhar a parada no grito, foi à Assembléia Legislativa. É claro que o clima de maioria estava montado para apoiá-lo e a oposição não se mostrava lá muito disposta a ‘‘queimar’’ cartuchos que terão maior eficácia tanto no momento da cobrança, o que se pretende para breve, como no desenvolvimento da campanha eleitoral. Politicamente, a combustão se tornará inevitável quando as taxas estiverem sendo cobradas e o usuário estrilando.
Lerner criticou o açodamento dos consórcios ao darem prioridade, no mínimo estranha, à construção dos postos de pedágio. A intenção malévola está na cara e não é apenas presumida: a queima de dinheiro nesses aparatos é insana, não se justifica de forma alguma e acentua a má vontade que o público tem com os empreiteiros, sabidamente quem mais financia campanhas eleitorais.
O governo saiu da inércia para evitar, como está acontecendo, que a oposição contabilize tudo para ela. Está lento, e quem o compara ao Ademir da Guia ou não entende de política ou de futebol ou mesmo das duas coisas, pois aquele meia-cancha era, antes de tudo, de um dinamismo extraordinário, enriquecido pela elegância de movimentos compassados com que saía do seu campo, em que acabara de evitar um gol, e ia a outro lado para marcar um tento. Nem como caricatura cabe a analogia. Ao revés, essa analogia se transforma em anedota.FOLCLORE
Um deputado oposicionista, diante do estilo duro do secretário Herwig nas explicações sobre o pedágio, resmungou: ‘‘Ele mais parece um tranca-rua do que um abre-estrada.’
AXIOMA No Brasil há notoriamente mais antropólogos do que índios e também mais Ongs de meninos de rua do que o número daqueles que se pretende proteger.
EPIGRAMA Morreu o ideal da revolução, o que é menos ruim do que a idiotice do ‘‘fim da história’’. Com esse debate em torno de 1968, teremos um ‘‘intermezzo’’ carregado de nostalgia das barricadas. Ironicamente estamos mais para barrigadas (vida sedentária, colesterol), pois os rebeldes de ontem, se não os reaças de hoje, agarram-se em variáveis utópicas, vendo nas ações do MST uma guerrilha, quando estão mais para gincana, tal o nível de tolerância oficial que as sustenta, e em Chiapas o último bastião da luta contra esse mundo parado, hegemônico, repetitivo, dessa coisa trágica chamada de ‘‘globalização’’. Chiapas não deixa de ser o diferencial do nivelamento globalizado, a expressão da identidade etnográfica dos índios.
Duas mudanças cromáticas significativas: o Cohn Bendit, de vermelho, virou verde como o Sirkis e ergue uma bandeira que está à esquerda do processo de acomodações do sistema capitalista. Bandeira mais forte em sociedades de capitalismo tardio como a nossa, onde escrúpulos ambientais são desprezados.
BIZARRICE Aníbal Khury está, mesmo afastado da terra, com a bola cheia: saiu no ‘‘Fantástico’’ a estória do seu parente que ganhou o Nobel de Medicina, o Medawar. Como tem outro sendo beatificado em Roma, está com crédito enorme em indulgências plenárias, incluindo as do plenário da Assembléia.
SPRAY Dentre as perguntas de ouvintes da rádio CBN ao governador Lerner, uma foi repetida várias vezes: quando o governo pagará o que deve ao IPE (Instituto de Previdência do Estado), para que este repasse aos hospitais? - Essa conta está atrasada, em média, quatro meses. Como se dá também com alugueres de prédios e casas. - O 1º Encontro de Juízes Federais do Paraná, iniciativa da associação dos juízes da área, luta pela instalação do Tribunal Regional em Curitiba e, a despeito dos complicadores, quem pegou o bastão da batalha da OAB foi a Associação Comercial do Paraná. - Como convidado a participar de um dos painéis ao lado do secretário de Justiça, Eduardo Virmond, do presidente da OAB estadual, Edgar Albuquerque, do coleguinha Ogier Buck (que prometeu fazer um programa nacional da CNT para enfocar a questão), mostrei alguns dos entraves culturais e psicossociais nessas batalhas, como a autofagia das nossas lideranças, timidez e desperdício de potencial em figuras como o nosso governador Jaime Lerner, ausência de determinação das corporações envolvidas. - O relato do deputado Paulo Cordeiro em torno das providências que a bancada vem tomando nessa direção junto ao Judiciário e ao poder político mostra que a luta está se desenvolvendo razoavelmente. - Citei que a presença de gente da terra no comando de entidades nacionais (casos do Mário Maranhão, agora alçado a uma posição internacional na cardiologia, e de tantos outros como o João Elísio no comando da Fenaseg) pode ser contribuição de primeira grandeza.
INTOLERÂNCIA Tenho citado aqui o Henry Louis Mencken, que foi considerado em seu tempo um dos homens mais poderosos dos States (entre 1904 e 1948). Para se ter uma idéia do radicalismo dos seus juízos (e foi um apreciado crítico de arte), vejam a lista dos dez escritores mais chatos de todos os tempos, segundo sua ótica: 1) Dostoievski, 2) George Eliot, 3) D.H. Lawrence, 4) James Fenimore Cooper, 5) Eden Philipotts, 6) Robert Browning, 7) Selma Lagerlof, 8) Gertrude Stein, 9) Bjornstjerne Bjorson, 10) Goethe. De arrepiar.
FOLCLORE Um deputado oposicionista, diante do estilo duro do secretário Herwig nas explicações sobre o pedágio, resmungou: ‘‘Ele mais parece um tranca-rua do que um abre-estrada.’
CROMO Um tucano de cores fortes, saltando de galho em galho na jaboticabeira, é amostra de que no litoral ele não perde do tié sangue e da saíra em brilho.
AFORÍSTICO Se o governo ceder demais, em secretarias e postos, para acomodar facções da tal aliança política, ficará ainda mais desfigurado. Imaginaram dar o Porto de Paranaguá a ambiciosos meramente políticos? Às vezes é melhor recusar do que aceitar certos apoios: eles são a deserção.

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