Luiz Geraldo Mazza

Os capitães da areia
no asfalto (II)
Estive recentemente nas capitais de Alagoas - Estado pobre, com funcionalismo sem receber há meses - e Rio Grande do Norte, e não tive essa impressão penosa que Curitiba oferece, no cotidiano, com as legiões de menores abandonados, de delinquentes mirins e de pobreza visível, ostensiva, que se capta no paraíso ecológico da propaganda mal intencionada e que só serve para tornar a massa conformista e condicionada, incapaz do exercício sério da cidadania. Vi os pobres, sim, mas ligados em algum trabalho, entre os quais o de carregar uma latinha com brasas para preparar o espetinho de queijo na praia.
Dir-se-á que tanto Maceió como Natal são cidades turísticas e que isso leva autoridades e comunidade ao empenho comum de evitar essa ‘‘visualização’’ dos desajustes. Em Buenos Aires, também, percebe-se o que seria impossível nesta cidade ecológica (muito eco e pouca lógica, como tenho definido) de Curitiba: não há na vida noturna, que é o forte da capital portenha, o exército de ‘‘xaropes’’ que temos por aqui e que em certos aspectos oferecem mais riscos do que um assaltante. Deste você espera até a morte, mas do ‘‘xarope’’, as surpresas podem ser as mais desalentadoras que podem ir de um beijo na boca, um olho furado, também um assalto, enfim o inesperado absoluto, radical.
Curitiba engatinha no turismo e por isso mesmo devia criar um novo tipo de cultura em cima dessa área. Arrastões como o que a polícia fez no meio da semana podem ser um sinal de resistência para cortar o embalo dos marginais, esboçando-se por aqui algo parecido com o ‘‘tolerância zero’’ que safou Nova York das estatísticas dos crimes pesados. Começa-se com a identificação das pessoas, o que já garante um bom número de descobertas, e a devolução a quem paga imposto do sentimento perdido de segurança. Vagabundagem também é delito e aí, como no caso da gurizada à beira da delinquência ou já envolvida nela, as providências preventivas são de uma eficiência inquestionável.
O que não podemos é manter a cultura do vitimalismo, a já desmoralizada simetria entre pobreza e crime e outros clichês de sociologia de bolso. Se você é assaltado por um menor na rua, não pode ‘‘congelar’’ a imagem da cena, como num filme, para ouvir o sociólogo de plantão repetindo os arquétipos de que aquele jovem, com a arma na mão, é uma vítima, produto da sociedade injusta, etc, diante do qual seu papel é de render-se como Rondon aconselhava em relação aos índios: morrer sempre, matar nunca. Vamos cortar essa, que é caretíssima e incompatível com os tempos pragmáticos que vivemos.
A pasteurização de Maceió, de Natal e Buenos Aires deve centrar-se em educação, cultura, e também um pouquinho de ação preventivo-repressiva.APELIDO
O portador de uma patologia que o levava a dormir em pé ganhou, em Paranaguá, o apelido de ‘‘cavalo de padeiro’’.
MEMÓRIA As discussões sobre o ano de 68 levaram a uma constatação em torno do caso específico do Paraná onde houve congressos clandestinos de estudantes, o cerco à Reitoria, a invasão do Centro Politécnico da Federal: sob o ponto de vista policial-militar não teve a força da guerra do pente, um incidente banal, que sitiou Curitiba por três dias e exigiu o ingresso do Exército com carros blindados, porque a PM perdera inteiramente o controle da situação. A foto de Edison Jansen, premiada pelo ‘‘Esso’’ de jornalismo, do doutor Zequinha apontando o estilingue para o cavalariano, está para esse evento como o daquele flagrante do estudante segurando o tanque de guerra, na Praça da Paz Celestial, em Pequim. Nos dois episódios, a epopéia dos perdedores que deixaram a marca de um desejo forte de transformação, no Brasil com a especificidade das amarras do regime militar e sua truculência.
BIZARRICE O governo está usando pequenos escolares - isso foi acusado na cidade de Laranjeiras do Sul, numa palestra de Lerner, em que as pessoas só entravam de crachá em recinto fechado - para formar barreiras dissuasórias contra ações dos professores. Na criança, professor, mesmo irado, não bate. Mas em professor, a polícia bate e Lerner não quer saber de um repeteco daquele de Álvaro Dias.
VERDADE Vejamos o que Mencken, de quem estamos nos ocupando nos últimos dias, diz do ‘‘dono da verdade’’, texto de 1922. ‘‘O homem que se gaba de só dizer a verdade é simplesmente um homem sem nenhum respeito por ela. A verdade não é uma coisa que rola por aí, como dinheiro trocado; é algo para ser acalentada, acumulada e desembolsada apenas quando absolutamente necessário. O menor átomo da verdade representa a amarga labuta e agonia de algum homem; para cada pilha dela, há o túmulo de um bravo ‘dono da verdade’ sobre algumas cinzas solitárias e uma alma fritando no inferno.’
EPIGRAMA A hipocrisia, já definida como a ‘‘homenagem que o vício presta à virtude’’, permeia toda a ação política. Raros são os gestos que dela se distanciam e isso a torna um regramento obrigatório com o que, pela frequência, se faz praxe e jurisprudência.
CAVAS O explorador de jazidas de areia, Osmar Sansonowski, propôs à Comec a construção de canal extravasor ou parte dele a custo marginal com aproveitamento do material para construção: doa terrenos dos jardins Judas Tadeu e Centenário, em troca da areia existente no respectivo canal; desassoreamento dos rios que compõem a bacia do Iguaçu com custo zero ou aproximado. Esse tipo de concessão e outorga está sendo analisado em seus aspectos jurídico, o mais importante, e técnico.
FOLCLORE Passei poucas e boas no governo Munhoz da Rocha: no Palácio São Francisco tentei subir as escadas e o ‘‘anjo negro’’ de Getúlio Vargas me empurrou escada abaixo. Num dia fui cobrir como repórter chapa branca um encontro entre o governador e o senador Ivo de Aquino. Havia no Palácio o Francisco de Castro, Chico Gato, que era segurança e vivia de olho nos meus agitos de rua como estudante. Quando entrei na sala, ele ficou inquieto, meio desesperado. O Miló Fogiatto foi bater a fotografia e a lâmpada estourou ecoando nos salões. Chico Gato chegou na porta ofegante, possivelmente imaginando não sei o que. Eu e o fotógrafo estávamos assustados, Bento e o senador riam muito por causa do incidente.
CROMO João Cabral de Melo Neto faria aquela ode admirável à aspirina, que chamou de sol e lápide sucinta, se não sofresse tanto de dor de cabeça?
AFORÍSTICO A democracia no Brasil e no Paraná também é revogada todo dia.

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