Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Capitães da areia
no asfalto (I)
Quando, no início de sua carreira de escritor, Jorge Amado falou dos meninos de praia, mais do que de rua, em Capitães da Areia, descrevia num Brasil ainda ruralizado e com manchas de urbanização, um fenômeno que se alastraria em função das migrações e, é claro, dos processos de exclusão social. Na porta do bar do Maneco, pertinho da praça Osório de Curitiba, dá para ver um grupo de adolescentes marginais fazendo o racha do botim do cavalo louco que aplicaram num idoso, tomando-lhe, possivelmente, o dinheiro da aposentadoria.
Cem pra você, 50 pra quem ficou vigiando, mais cem pra mim. As pessoas acompanhavam a cena e, embora tivessem vontade de cortar o enlevo criminal dos piás, tinham medo de acabar levando uma facada e ainda por cima sofrer uma ação do Ministério Público, zeloso nessa área, mas nem tanto na questão de tirar da rua os cheiradores de cola. Transformados em vaca sagrada por causa de um discurso da impotência e de uma visão caolha do Estatuto do Menor, os meninos agem livremente e fazem nas ruas o curso de pós-graduação para o crime que desde cedo aprendem que só funciona organizado.
Se as histórias dos capitães da areia comoveram, essas do nosso cotidiano também provocam um sentimento de compreensão (afinal eles são vítimas e nós cultores por tradição de uma visão melodramática, quase piegas, dos valores), que não raro nos levam à passividade e até cumplicidade. Não há uma só pessoa que não tenha compreensão sobre a especificidade do problema. Todavia é de saber-se que hoje a estatística dos delitos aponta para uma questão nuclear: essa massa de excluídos é uma das alavancas da criminalidade, como se já não fosse um caldo de cultura.
A autoridade teme perder a condição de politicamente correta ao recusar-se a agir naquilo que é impositivo sob o ponto de vista legal: guri fora da escola e cheirando cola de sapateiro na rua é infração penal. Há aí os delitos claros do abandono escolar e familiar. Como, no entanto, se teme que o governo se obrigue a albergar todas essas crianças - desajustados e infratores -, argumenta-se que não haveria espaços para tanto e que de pouco valeria cassar o pátrio poder dos pais. Aí, então, o argumento é de que se trata de problema social e faz-se um ar magisterial em torno do assunto como se, com essa explicação, tudo estivesse superado.
Não se pode negar os esforços que polícia, Ministério Público e Justiça têm desenvolvido na questão do menor e do adolescente. A demanda, porém, é forte demais para a estrutura instalada, havendo perda de monitoramento. E o pior: nada se faz de permanente em dois campos - o das migrações e da assistência a essas áreas longe de qualquer controle da paternidade, contra o qual a Igreja se insurge como se fosse uma heresia e não uma necessidade humana de levar aos destituídos um mínimo de orientação em termos de familiaridade responsável.
Os garotos, endurecidos pela batalha da rua, fazendo a partilha do afano do aposentado é um quadro que convoca à reflexão.ROMÂNTICO
Definição de Henry Louis Mencken sobre o romântico: É o tipo do sujeito que, se fosse um bacteriologista, diria que uma mísera pulga é do tamanho de um cachorro São Bernardo, tão bela quanto a catedral de Beauvais e tão respeitável quanto um professor de Yale.
AXIOMA Movimentos como esse da greve universitária não conseguem interessar a população, engajada no seu imediato. É lamentável a constatação mas cada vez mais esses agitos condenam seus participantes à mais dura das solidões. Pior, mil vezes pior, do que a melancolia das barraquinhas e oradores frenéticos que desejavam preservar estatal, a Vale do Rio Doce.
GLOSA O governo Lerner não está repassando dinheiro, há quatro meses, ao IPE, Instituto de Previdência do Estado. Em compensação, para picaretagem sobra, seja dos meios de comunicação, seja para o arranjo dos Jogos da Natureza. É o senso de prioridade de quem considera o espetáculo uma questão vital.
BIZARRICE Ninguém conseguia decorar os pronomes latinos. Aí o professor João Mazzarotto, apelando para a pedagogia de mestre-escola, argumentou: No meu tempo de estudante aprendia-se os pronomes em forma de verso. Qui, quae, quod, cujus, cui, quem, quam, quod, hic, hoc, huic. Tudo parecia onomatopaico, terrivelmente duro, mas aprendemos. Que saudades do Ginásio Paranaense: lá jamais vi um professor querer comover alunos com seu baixo salário, era um tempo de sacerdócio (vários deles com as calças remendadas, dando aulas em vários lugares, incluindo a universidade ainda não ocupada pelo baixo clero), uma sociedade sem lugar para o consumismo, até porque não havia nada para consumir. Nossos tênis, pior do que os chinezinhos do Paraguai, eram recuperados com alvaiade para as passeatas. Éramos infelizes e não sabíamos.
Mas vivíamos e tínhamos esperança, insumo hoje inexistente na praça.
SPRAY Lerner não esperava o impacto das manifestações estudantís em Londrina e agora já sabe que isso vai repetir-se em cada lugar.- Constrangimento não mata ninguém. Pior é ser refém de secretários, deputados e empresários e de casos negros como os do Banestado.- Estudante querer refeição barata não espanta: em Curitiba há alguns restaurantes da prefeitura que fornecem jabá de primeira a R$ 1 e a sopa, no inverno, a R$ 0,50. É claro que essa mágica estoura no de alguém. O assistencialismo é um dos nossos tiques clássicos. Por trás desse angu haverá explicação: a firma fornecedora ganha na venda de marmitex.- As associações comerciais do litoral (Paranaguá, Morretes, Guaratuba, Antonina, Matinhos, etc) condenam em manifesto o abandono da região pelo governo. Alusão ao atendimento à Costa Oeste e Costa Norte no lago de Itaipu, que ganhou com os equipamentos e a promoção dos Jogos da Natureza.- Curitiba está virando um mosaico em matéria comportamental. Na mesma semana, um congresso de ufólogos, provavelmente com um ET imitando Frank Sinatra e alguém do governo tentando provar que teremos em breve duas montadoras de discos voadores, fora três campos de pouso, um na futura arena do Atlético Paranaense, um seminário sobre a família gay (no Norte, em Jacarezinho, três deles disputam o título de Miss Paraná) e ainda, para sofisticar de leve, um seminário de terapeutas da linha de Reich.





