Luiz Geraldo Mazza

O valor trabalho

O determinismo do mercado e da globalização está aí para mostrar o quanto variou o valor trabalho na última década. Doutrinas foram eregidas em nome justamente da exploração do trabalho (do conceito de ‘‘mais valia’’ a tantos outros que afinal questionavam aspectos políticos, culturais e morais do problema), do socialismo utópico e do anarquismo, que sempre pareceram mais generosos, ao marxismo-leninismo passando por formas de solidarismo até o trabalhismo do padrão inglês. Os fatos modernos, especialmente a morte atestada do socialismo real, queimaram etapas para o totalitarismo da moda, o neoliberalismo ungido como verdade revelada.
Hoje o digitar num computador desloca no espaço de um ambiente para outro a fortuna e a desgraça com uma rapidez jamais obtida por uma linha de montagem que avaliasse a capacitação do trabalho como fator produtivo. Tanto a especulação desenfreada como as inversões de capital à distância mantêm toda a estrutura da economia sob estado de choque tal qual se viu com o furacão sobre o México, e o mais recente da Ásia, cujos efeitos pelo Brasil envolvem operação imunizadora, se é que assim foi, da ordem de R$ 50 bilhões para evitar que o Plano Real se tornasse volátil.
O 1º de Maio é tempo de recordar um dos fundamentos da luta obreira e a ação dos mártires de Chicago. Briga chave pela jornada de oito horas e que está nos fundamentos do socialismo. Aliás, o Paul Lafarge, genro de Marx, menos formal que o sogro, com o traço existencial do cubano francês, fez uma monografia de lascar, ‘‘O direito à preguiça’’, em que racha o cronograma de todos nós em oito horas de trabalho, oito de sono e oito de lazer, aspiração que nenhum médico ou jornalista pode acalentar. Lafarge é um revolucionário na colocação feita por introduzir, profeticamente, já que se adiantou bastante, ao prever - claro que de uma forma intuitiva - o sentido do ‘‘prazer’’ que marcaria o futuro e também lastro da psicanálise. Se Gide e tantos outros se detiveram nos aspectos específicos da teoria do valor, retomando o que Epicuro lançara na área da filosofia, o hedonismo, a cultura dessa curtição é marca do nosso compulsivo consumismo, a última ideologia como sugeria Paulo Francis.
Como o mundo está carecendo de uma ruptura que vá além do que se fez no 1º de Maio, ainda mais agora quando a desumanização atinge o máximo requinte, com os cínicos tomando conta da ribalta ao afirmar as benesses da ordem globalizada, espera-se que inspire no grupo cultural do trabalho a visão de que o sistema, que aí está sob o comando empresarial do G-7, precisa ser contestado e, mais do que isso, superado por ser ética e funcionalmente intolerável.AXIOMA
O pior não foi perder da Argentina, mas da seleção que não conseguiu sequer vencer Israel. Mas se os platinos perdessem, eles poderiam também lamentar que foram derrotados por quem apanhou do Japão.
ARQUIVO O governo Lerner vai para a história como o da queima de arquivo: a mais recente, essa das mortes, duas, dentro do DER, Divisão dos Serviços de Transporte Comercial, velha fonte de ‘‘olho gordo’’ dos políticos em busca da grana dos empresários da área. Além dessa, outras como o rombo da Leasing. A propósito, como vão as investigações do comprometimento com a gangue do ICMS?
GLOSA Esse rigor com a corrupção, normalmente mais discurso do que prática, parece ignorar o lado utilitário da questão: não fosse ela boa parte do mercado alternativo, que supre o problema do desemprego, deixaria de existir.
BIZARRICE O pior é numa discussão sobre o significado de 68 (o ano do agito na França e no resto do mundo) alguém, meio por fora do foco da conversa, dizer com a maior convicção: ‘‘Sou mais de 69!’
SPRAY Artex, a que fechou em São José dos Pinhais, como a Malas Ika e a Refripar hoje absorvida pela Electrolux, recebeu forte suprimento da poupança pública, via Badep-Banestado-BRDE.- Mais um alertamento: Lerner vai ser o que mais multinacionalizou e o que mais desbrasileirou e desparanizou. Electrolux transferiu, por questões externas, o seu plano de ampliação em Curitiba com a paralisia das obras em Fazenda Rio Grande.- Mesmo os paranaenses ricos vão poder aspirar na ‘‘nova ordem’’, no máximo, a capatazia das múltis e farão aquele ar ‘‘alienado’’, como dizíamos nos anos 60, de colonizador. Todos vão falar igual ao Rischbieter, dando a impressão que chegaram ontem da Europa.
- A dependência externa se torna mais contundente com a globalização e a abertura, e o ocorrido com a Artex é didático: os têxteis importados são, a um só tempo, melhores e mais baratos do que os nossos.- Faz bem por isso mesmo o governador Jaime Lerner, em campanha reeleitoral, em voltar-se ao interior, como fez anteontem e ontem em Londrina, Rolândia, Cascavel, Foz do Iguaçu, embora assinando mais ordens de serviço e convênios do que obras efetivas. Não dá para subestimar as contingências adversas para os governos de um modo geral.- E para complicar ainda, tem o problema do pedágio que vai irritar meio mundo. Por sinal que hoje na altura de São Luís do Purunã vai ter pepino por causa das filas que se formarão tentando entrar na Estância Três Estrelas, onde tem lugar o Rodeio Crioulo.
FOLCLORE Há uma esquerda no Brasil que acredita em absurdos como o trauma de uma desclassificação na Copa do Mundo ser capaz de devolver a lucidez às massas e levá-las à rebelião, como os estudantes fizeram em 68. Aliás, a Copa de 70, vitória em pleno regime de Medici, do terror e da tortura, ajudou a fazer esmaecer os sedimentos da revolta. Em 70, um esquerdista preso poderia até dizer da boca para fora que desejava a derrota do Brasil, mas a festejou porque essa sedução dos símbolos nacionais é quase uma religião. Exceção, é claro, aquele tipo de comunista ‘‘com dor de dente’’ a que se refere Lerner.
CÉTICO Outra de Henry Louis Mencken: ‘‘Nenhuma mulher casada põe a mão no fogo por seu marido, nem age como se ‘confiasse’ nele. Sua principal certeza assemelha-se à de um batedor de carteiras: a de que o guarda que o flagrou poderá ser subornado.
CROMO O frio afinou a atmosfera num cenário de cristal: voltei a ouvir os sinos da igreja, menos o canto do galo que hiberna em minha memória.
AFORÍSTICO Essa derrota no futebol para a Argentina pode ser um bem, como as artes do rei Mitrídates, que tomava doses homeopáticas de veneno para criar defesas contra os ardís da corte.

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