Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
De Petraglia a Lerner
Já se sabe que o tesoureiro das campanhas de Lerner está fora do processo: ou por ter percebido que não vale a pena, por estar desencantado com as lealdades da política, ou ainda por ter descoberto um derivativo melhor do que a tensão das disputas eleitorais: a transformação do Atlético Paranaense em S.A., a começar do ousado projeto da arena para megaespetáculos e uso múltiplo. Mário Celso Petraglia, mesmo à distância, dá no entanto recados substanciais para o governo não só pelo que faz na Inepar, mas igualmente pelo Atlético.
No lançamento do empreendimento deu uma lição no governo: cadeiras serão cobradas antecipadamente como o pedágio com uma diferença substancial no amplo esclarecimento do assunto, não sonegando informações aos usuários e mostrando, por exemplo, que a posse será temporária e por cinco anos. Já no caso da taxa de pedagiamento (eta variação verbal tão suspeita quanto o substantivo!), ela foi imposta sem qualquer clareamento do assunto e tanto que as interessadas, que vão ganhar muito dinheiro, e durante bom tempo na moleza, decidiram fazer propaganda do assunto em lugar do governo, que não tem dinheiro também para isso porque está de tal forma falido como os megaempresários do Paraná que estão no ranking dos devedores fiscais da União e do Estado. E que, quando são acionados, alegam que vão deixar um tremendo problema social com o exército de desempregados, a herança maior dos incompetentes.
Outra lição é a da eficiência da empresa Inepar que, sem preconceito contra estatais, nacionais e estrangeiras, a elas se associa, mostrando plena capacidade de competição. O que não se dá com o governo, que tenta se tornar leigo nas suas responsabilidades, transformado em capataz da globalização.MIRAGEM
Prestem atenção no Toni Garcia na televisão como candidato ao Senado pelo Partido dos Precatórios: dá a impressão nítida que acabou de conceder um autógrafo para um aliens e parece soletrar, uma a uma, as palavras. Também não é para menos. O aliens, em compensação, é voto certo: um charme daqueles não há ET que resista.
AXIOMA Exemplo de inserção no mundo: Tarzan quando viu Jane pela primeira vez grunhiu guturalmente You, Jane. Me, Tarzan. Como se vê, um repeteco da visão de Adão diante de Eva. Jota Ruy, humorista do passado, sugere que Adão se assanhou tanto ao saber de Jeová que ela fôra feita de uma costela e que ele ainda possuía outras tantas, que queria todas transformadas em mulher. Jeová colocou a mão na testa de Adão e aconselhou: Calma, isso passa!
BIZARRICE Um professor do Colégio Estadual, falando sobre o hábito de alguns estudantes pularem a catraca para não pagar passagem de ônibus, fez uma comparação: Isso é tão moral quanto dar zero a um de vocês antes de fazer a prova. E acrescentou: embora alguns até o mereçam.
SPRAY Exercício de lógica: se o Banestado vai ser privatizado, a troco de que manter 49% das ações como minoritário? Explicação urgente, mas que não seja como as do pedágio e as da Leasing.- Governos anteriores quiseram tapear o Banco Central e o atual corrigiu a malícia. No meio delas a estranhíssima liquidação do Badep quando a União se dispusera a fortalecer o banco, se o governo desse mais lastro ao FDE (Fundo de Desenvolvimento Econômico).- Quanto mais se tenta explicar o problema das vias pedagiadas, mais bronca: a maior de todas, no entanto, superando a dos que exploram politicamente o tema, foi a do Ratinho anteontem com mil vezes mais repercussão do que a retórica dos partidos.- Outra foi do deputado Péricles de Mello: em dois meses os consórcios pagam os R$ 90 milhões do BNDES. Detalhe: BNDES é privatizante e não aceitaria dar esse dinheiro para o governo. Este abandonou a vida pública e recolheu-se à privada.- Segundo Péricles, que reconhece ter feito cálculos superficiais, só o trecho Curitiba-Ponta Grossa vai render R$ 2,23 bi em 24 anos, quando o investimento geral no sistema rodoviário será de R$ 3,3 bi.- Vamos convocar já econometristas, cientistas atuariais e avaliar tudo, pois se trata de imposição da democracia.- Citei ontem aqui o caso de Laurita Costa Rosa, portadora de moléstia rara (polimiosite). A Secretaria de Saúde informa que tem atendido o problema, mas é impedida de fazê-lo quando o paciente tem plano de saúde e pretende simultaneamente o atendimento pelo SUS.- Valfrido Piloto, o mais antigo membro da Academia Paranaense de Letras, 95 anos, 50 livros, 30 inéditos, foi homenageado ontem no Centro de Letras. Polemista, teve disputas históricas com Leonor Castelano e David Carneiro. Enfim alguém que age no campo da ruptura e da tradição, como é da essência dialética.- Agências de propaganda chegaram à óbvia conclusão que é preciso anunciar mais. Dá a impressão que o conselheiro Acácio esteve presente ao encontro. Para o público, no entanto, o ideal seria que o governo fizesse acontecer bem mais do que aparecer.- Por sinal que um documento sobre verbas oficiais e como são distribuídas pelas estatais está deixando os veículos mais importantes do Paraná estarrecidos por receberem menos do que os de menor tiragem ou audiência. Bem feito: quem pariu Mateus que o embale. Globalização pode ocorrer em todos os campos, menos no nosso. Dez jornais em Curitiba quando em Porto Alegre há três. É a aldeia se impondo sobre o globo e contestando o saque de McLuhan. Viva eu, viva tu, viva o rabo do tatu.-
FOLCLORE O advogado e anarquista Elísio Marques previa, com antecedência, que o júri de Guaratuba absolveria por 5 a 2, mas estranha o anti-clímax criado pela acusação (oito promotores, quatro advogados assistentes ao longo de todo processo) ao abrir mão do tempo de réplica. E conclui parafraseando o catalão anônimo No lo creo em Budas, pero que los hay, los hay.
CROMO Dom Jerônimo Mazzarotto consertando a calha de sua casa ao lado da igreja de Santa Terezinha e depois, já com mais de 90 anos, subindo no abacateiro para apanhar lá no alto uma fruta luminosa; Valfrido Piloto, 95 anos, escritor ainda em ação, testemunhos de quase intemporalidade.
AFORÍSTICO Imaginem aquele filósofo grego que contemplava o rio, para concluir que a água de hoje não é a mesma de ontem e não o será a de amanhã, diante agora das cheias do Paraná, do Iguaçu, do Yang-Tse-Kiang.





