Luiz Geraldo Mazza

O júri e um raio xis
O julgamento das Abagge, além de levar a um resultado esperado diante da contaminação do processo por fatores políticos e emocionais, serviu para mostrar o esgarçamento institucional no choque entre Polícia Militar e Civil e também ao posicionamento do Ministério Público na fase instrutória. Choca, a qualquer um, a evidência de exploração política, de lado a lado, desde o início das ocorrências, onde se fez pesada vassalagem ao espetáculo.
De início a calamitosa intervenção de Moacir Favetti, secretário de Segurança, em que pese a sua condição de homem da alta hierarquia da Polícia Federal, ao declarar que se a Justiça concedesse habeas corpus aos acusados, ele os entregaria ao povo em praça pública. Instigação clara ao linchamento, mas em decorrência de uma tentativa de apropriação política e psicossocial dos eventos. No andamento das investigações os choques entre as corporações Civil e Militar, algo que é preciso encarar de uma vez por todas e deixar a política de ganhar moratória e empurrar com a barriga. Ficou nítido na sequência de depoimentos de delegados de polícia, todos beneficiando os réus, inclusive um testemunha de acusação, Ricardo Noronha.
Assim, pois, além das distorções políticas, no lado da defesa tivemos a atuação do deputado Aníbal Khury, que foi de uma generosa assistência às acusadas e que inspirou certamente a ação dissuasória no momento em que um grupo de pessoas se manifestava em protesto diante da casa em que se encontravam Celina e Beatriz, depois que a Justiça autorizou a prisão domiciliar. Mesmo que se tratasse de algo que aborrecia a vizinhança, o que se percebe é que a Segurança não é tão ciosa com bloqueios de estradas, invasão de repartições públicas e de terras no exercício do suposto direito e agiu de forma parcial. Essa omissão rotineira é também ‘‘política’’.
Pagou-se um pesado tributo ao espetáculo e agora as absolvidas podem processar o governo, a Casa de Mãe Joana que paga por tudo e não alcança especificamente a quem deu origem a prejuízos por ação temerária. Indispensável é que haja o quanto antes legislação que atente para esse detalhe. Há, por exemplo, uma ação indenizatória dos proprietários da Fazenda Can Can, que foi invadida e deu margem até a intervenção federal, por causa da destruição de instalações, queima de reflorestamento e de estábulos, que o governo vai ter que pagar sem que se individualize a responsabilidade daquele que ofereceu a máxima resistência a ordens judiciais, que foi Roberto Requião, e que se repete agora, certamente, com as omissões de Lerner no Noroeste.AXIOMA
Se o que um candidato gasta em campanha eleitoral é sabidamente maior do que ele ganhará de subsídios, dá para enquadrar a atividade na lei penal. Ou então circunscrevê-la ao picadeiro circense como prestidigitação.
GLOSA Um bispo que aconselha o saque de esfomeados a supermercados deveria ser impelido a nadar numa piscina de água benta para purgar-se dos excessos. O que propõe equivale à demagogia de um racha nos bens do Vaticano aos miseráveis.
BIZARRICE Discutia-se na Boca Maldita os idos de 68, quando o Zé Carlos Mendes fez a observação inesperada: enquanto os que perseguiam, uma vez mais, o mito das barricadas e se acreditavam o vetor da história, Bill Gates, menino ainda, estudava e ensaiava a revolução de agora, a da informática, que dava seus primeiros passos na década. Entre o berreiro da rua e os ‘‘bites’’, quem ganhou e ganha? Um dedo no computador pode mudar a história.
SPRAY No Paraná não há risco de o PT passar por um drama como o do Rio, onde os xiitas levaram a melhor com Vladmir Palmeira e contra a aliança com o PDT: a direita e o centro são dominantes, a esquerda não é levada a sério, se é que ela existe.- O PT paranaense é caudatário do requianismo, dele dependendo, como puxador de votos, para tentar manter a bancada atual, federal e estadual.
- O encontro do PPB no Madalosso não é sério, visa esgotar a exploração política do pedágio sem oferecer alternativa e tenta ganhar espaços no governo e na oposição. Uma lufada de oportunismo.- O que está aparecendo de candidato ao papel de João Simões, aquele que estruturou a fase moderna do sindicato dos transportes coletivos urbanos, não está em gibi algum: é claro que gente ligada a área das cargas já se viu deitando e rolando em cima do pedágio. Mais um motivo para deixar tudo bem claro.- Campo Mourão desperta para um problema que Paranaguá não consegue resolver: evitar a perda de representação por causa da pulverização dos votos. Em 94, os 25.824 votos de Campo Mourão foram sacados por 243 postulantes a deputado estadual de 20 partidos. Quando fui homenageado pela ‘‘Boca Maldita’’ da cidade, o tema já era dominante. Agora o prefeito Tauillo Tezelli tenta um amplo entendimento, pois naquele ano apenas um candidato da microrregião se elegeu. No litoral nem isso.-
S.O.S. Polimiosite é doença rara que afeta o desenvolvimento imunológico, inflama a musculatura e compromete os ossos (osteoporose). Nos States, o governo atende esses casos porque a medicação (imunoglobulina humana) é caríssima. Laurita Costa Rosa, ex-secretária da Junta Comercial, está há oito anos com a moléstia. Cada aplicação custa de R$ 6.900 a R$ 14.700, conforme a origem do medicamento. Obviamente não há como fazer esse tratamento por via privada, mesmo com convênio-saúde. Os médicos norteamericanos que a atenderam pediram ao Ministério da Saúde brasileiro para que o caso fosse tratado e a pasta federal passou para a estadual. Dá para imaginar o ocorrido: não há como atender a paciente. Quem tiver uma saída para o caso (como obter o remédio, por exemplo) deve telefonar para 233-0017.
FOLCLORE Polícia Militar anunciou que houve dez ônibus depredados depois do Atletiba. A polícia negou e a URBS também. Como se vê, a crença de que não dar notícia evita o acontecimento e que derrubou o regime militar ameaça este governo também. Vide Leasing, protocolos e agora o maná do pedágio.
CROMO Pena que governistas não foram ao Madalosso: haveria o primeiro pastelão de lasanhas, frango desossado, polenta. Nem o Mack Senet o imaginou.
AFORÍSTICO Em política é mais fácil achar o sujeito inculto do que o tido como oculto da oração. Mais vale a prática do que a gramática.

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