Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
O público e o privado (II)
Amanhã, no restaurante Madalosso, pretende-se debulhar o Anel de Integração e o expediente do pedágio espoliativo com a mesma facilidade com que se trinchará galinhas e se devorará risotos e polentas. As atenções, em tal clima, ficarão mais voltadas para o vinho de Santa Felicidade, que é produzido no Rio Grande do Sul, do que para reflexões.
Aliás esses políticos (não todos, mas a maior parte) estão mais preocupados em ganhar espaços, mostrando força ao governo e à oposição para ver quem dá mais vantagens, do que em avaliar tecnicamente o problema, o que deixarão para os transportadores e agricultores, dentre eles alguns inadimplentes clássicos dos bancos públicos e que apesar disso botam banca de Catão.
Um banquete não é incompatível com o pensamento. Vide a obra de Platão em que se faz reflexões justamente num deles. E não há risco de repetir a ceia que precedeu a traição de Cristo porque aí não há clima, já que não se trata de pequeno comitê, mas um encontro abrangente, que se não abater o governo, certamente o fará com centenas de galinhas. A traição aí será esperada, tanto a do vinho vinagrado quanto a da presença de agentes duplos.
O fato é que o governo está perdendo a linha diante das críticas: a falta de elegância do secretário Herwig quando o interpelam sobre o assunto não é diferente da do próprio governador que tem uma especial predileção pelas caixas pretas, seja as que protegem a barbárie do seu apadrinhado que detonou a Leasing Banestado, a dos protocolos das montadoras e agora essa, cabeludíssima e livre de qualquer exame, das rodovias. Lerner não está acostumado à transparência. Já na Prefeitura a relação com o transporte coletivo mostrou a que nível pode chegar uma parceria sem qualquer controle. Não se contesta que ali ao menos houve a compensação da competência, o que dificilmente se dará com empreiteiras pelo menos conforme a cultura do setor sabidamente viciada, até pela condição de financiadoras das campanhas eleitorais, o que também se dava e se dá com o transporte urbano, e no poder de pressão junto à burocracia e na obtenção de aditivos contratuais ou na procrastinação de obras, o que no caso seria intolerável e faria de cada um dos usuários um idiota completo com direito a odiar o governo eternamente.
O privado prevalecia na situação anterior quando o Estado parecia dominante e agora passa a mandar com máxima desenvoltura e não se vê um estudioso da área do Direito Público avaliar em profundidade os efeitos jurídicos e éticos desse processo, o que tem de bom (que é pouco) e de mal (que é muito). Se não era justo o público ser privado também não é coerente o privado chapa branca. Um tema desses não dá para avaliar empanturrado de polenta e raditi.
HIPÓTESE
Imaginaram um faquir no meio de um restaurante
de Santa Felicidade?
ÔNIBUS O Brasil só terá jeito quando sua população não continuar acreditando que o Estado-Albergue, aquele que tudo prevê e provê, é a solução. Estudantes dizem que têm o direito de pular a catraca porque não contam com o passe escolar, demagogia assistencialista adotada em outras cidades. Só que todas têm sistema pior do que o de Curitiba, mais caro e, ainda, subsidiado.
O vereador Jair Cézar não quer catracas porque tiram emprego de cobradores, mas pleiteia que presidentes de associações de moradores tenham direito à doação de vales-transporte. Quer reduzir a renda do sistema e ainda gerar outras franquias. E no bondinho não vai nada?
AXIOMA FHC era parlamentarista e está sendo o mais presidencialista dos nossos presidentes. Assumindo os papéis de Sérgio Motta e Luís Eduardo Magalhães está em marcha batida para lembrar Luis XIV.
BIZARRICE Discussão de mulheres sobre como viam os políticos: Álvaro Dias é um pão, envelhecido, mas ainda pão; Jaime Lerner é uma broa e Rafael Greca um brioche, enorme, mas ainda brioche.
A metáfora pode ser válida, mas por aqui o pão sovado é o povo.
GLOSA Neco Garcia foi ao lago de Yparacaí no Paraguai e provocou uma tormenta nas águas num cenário impossível de usar a guarânia famosa.
SPRAY Banco Central teria detectado problemas recentes, pós-Leasing, no Banestado.- Isso não é bom, como não é também a briga de babuínos da política (deputados versus Neco, ameaça de CPI) que desvaloriza a casa.- Isso, aliás, é tradição: Álvaro Dias meteu o pau no Del Paraná (lembram das demissões e da denúncia com presentes dos cisnes negros?) e queria vendê-lo, o que daria em depreciação.- Outra idiotice, essa do tempo do Richa, foi a de sugerirem a venda da agência de Nova York, sob a alegação de que não havia sentido em operar com dólares. Na sequência tivemos o caso das comissões em dólares que derrubou o secretário da Fazenda, Erasmo Garanhão, e arrastou o do Planejamento, Belmiro Valverde.- O calote dos empreiteiros no fim dos anos 80 virou dívida mobiliária: estradas construídas dez anos atrás continuam com débito em aberto. E o total de R$ 519,9 milhões vai ser agora refinanciado por 30 anos a juros baixos de 6% ao ano. Quebraram o banco e ainda querem posar de serem os seus protetores. É de lascar.- Denúncias recentes sobre operação com títulos estaduais oculta o fato de que o mesmo executivo, que já fizera esse tipo de operação no governo Requião, é o que tratou o assunto agora.- Amauri Fernandes, presidente da Associação dos Oficiais de Justiça do Paraná, faz a via crucis dos meios de comunicação para corrigir distorções em torno das denúncias de Foz do Iguaçu. A categoria briga pelo TIDE (Tempo Integral e Dedicação Exclusiva), o que com as vacas magras está difícil de obter.-
AFORÍSTICO
Às vezes estar mal acompanhado é melhor do que ficar só. Quem está só, o mais das vezes, está mal acompanhado.
FOLCLORE Dá para entender o sentido daquele PP da agremiação do Maluf: Precatório (aquele que envolveu o chefe e o Pitta) e agora também o do Pedágio (o do Lerner). Se conseguir irritar o governo estadual, será mandado à P.P. na base da emissão gutural, tudo fraternalmente, no mesmo código.
CROMO Diante da pinha me curvo em contemplação: diante do pinhão nem tanto.





