Luiz Geraldo Mazza

De parceria em parceria
Há uma informação constante nos meios políticos no sentido de que o governo estaria tentando dividir com as concessionárias das rodovias (o que afinal não é novidade porque de forma direta ou indireta isso sempre aconteceu) o ônus de uma campanha de esclarecimento já que a reação não é pequena. Se isso acontecer, estaremos diante de mais um avanço na privatização e nessa decantada magia das parcerias entre poder político e econômico. Vide o ocorrido na área dos transportes coletivos urbanos de Curitiba, onde sempre se afirmou a existência de ‘‘caixinha’’ institucionalizada, com fortes ramificações na Câmara Municipal, o que foi denunciado documentalmente e não apurado.
Se houver o ‘‘racha’’ das despesas, o que não ofenderia a praxe, que papel se dá num caso deste ao Tribunal de Contas e como se impedir o desdobramento natural dessa comandita no andamento da campanha eleitoral? Afinal, todos estão abraçados na mesma causa e devidamente comprometidos em termos de cronograma. Por sinal que o suposto incendiário Roberto Requião disse que, ganhando o governo, o que parece cada vez mais difícil, ainda que não impossível, já que trapalhões do Palácio Iguaçu são suficientes para decidir qualquer parada, um dos seus primeiros atos seria a anulação dos protocolos das montadoras e também o da cobrança de pedágio nas rodovias. Uma variável daquela bravata de Brizola de que, se eleito presidente, no primeiro dia iria acertar contas com a Rede Globo e seu império. Foi esmagado pela Venus Platinada que encheu a bola de Lula, escolhendo quem deveria enfrentar a parada com o capitão donatário do latifúndio eletrônico das Alagoas no segundo turno, pois se o caudilho ficasse, levaria fácil a melhor sobre o caçador de marajás fajutíssimo.
Se essas despesas, mais as possíveis contribuições de campanha eleitoral, forem efetivadas, de repente há uma justificativa ‘‘atuarial’’ para os custos do pedágio, sabidamente intolerável e, em certos aspectos, delinquente e espoliativo. O desdobramento natural das parcerias, tal qual aconteceu com os transportes em Curitiba, redunda num esquema institucionalizado para o qual escasseiam as formas de controle. Antes, numa economia inflacionada, não dava sequer para medir a manipulação, tanto que os ganhos financeiros com as aplicações escapavam a controles racionais. O produto das tarifas, por exemplo, permanecia muito tempo no banco oficial, o Banestado, rendendo juros e correção, e o vereador Horácio Rodrigues denunciou que a prefeitura tinha renda menor do que os valores de mercado, o que seria compensado com propaganda em rede estadual. Enfim uma parceria construtivíssima.
Que tal um efetivo esclarecimento de engenharia financeira sobre o assunto? É o mínimo que uma ordem democrática pode desejar. O resto é encenação, discurso para desinformar e desviar atenções e a permanente dissimulação.AXIOMA
Ao contrário do que a ficção indica, quem vence a parada nos dias de hoje é o Doutor Silvana e não o Capitão Marvel, o Pinguin e não Batman.
GLOSA Cada denúncia que envolve figuras do governo é volta e meia motivo para que se levante a questão do holocausto. Não se responde o que foi colocado e acentua-se o chamado dado ‘‘racista’’. Se alguém de confissão judaica cometer um crime ou um deslize, não há motivo para essa desfiguração, o que absolveria as pessoas antecipadamente, ‘‘ex-ante’’.
Isso nada tem a ver com a atitude idiota de um vereador peemedebista de Arapongas que, ao se referir ao pedágio, sugeriu que beneficiava ‘‘campanhas bilionárias desses judeus’’. Burrice inominável.
BIZARRICE Numa época em que dinossauro vira atração no cinema, nada mais natural do que a União da Juventude Comunista programar panfletagem alusiva aos 150 anos do Manifesto Comunista na Boca Maldita.
SPRAY Acuado com as críticas generalizadas de vários setores produtivos contra os abusos da tabela de pedágio, o governo contrataca e contrata uma agência, a ‘‘Z’’, cujos custos devem ser honrados pelas empreiteiras.- Tribunal de Contas, se continuar a onda de organizações sociais, terceirizações e mais as privatizações, perde a finalidade, daí estar de olho em despesas públicas transadas por uma via particular.- Se já há o problema da tabela imposta, sem debates e estudos, do pedágio, que pode ser contestado na Justiça, agora temos mais esse apêndice.- Vê-se por aí o quanto o governo se perde com a mínima ameaça, como a do almoço-debate do PPB de segunda-feira no Restaurante Madalosso, que vai esculachar o que o governo pretende.- Requião chama Murta Ramalho e Miguel Salomão de aniquiladores do Banestado, e os documentos a respeito começam a fervilhar, especialmente aqueles da passagem de Osvaldo Santos na Leasing.- Agora há nova manifestação assinada pelos senadores Requião e Osmar Dias e o deputado federal Maurício Requião, indicando saídas alternativas à privatização do Banestado. Se não privatizarem, o Banco Central intervém com a eficácia da cavalaria americana no faroeste.- Desde ontem Lerner está no interior: inaugurou escola (12 salas) em Cianorte, Vila Rural (Recanto Verde, 53 unidades familiares) em Terra Boa, novo prédio da Ciretran em Cidade Gaúcha, asfalto em ruas de Xambrê, baixa ordens de serviços e hoje inaugura escola em Mangueirinha e vila rural em Cantagalo. Claro que terá encontros políticos.- Morreu nesta semana Moacyr Reis Ferraz, comunista histórico, ex-presidente do PPS. Vivia em Garuva, mantinha um semanário ‘‘Gazeta Regional’’. Havia recebido indenização da lei Beto Richa.-
FOLCLORE O engenheiro Eurico Dacheux de Macedo, pai do Rafael Greca, tem uma aguda deficiência auditiva e seus alunos no curso de Engenharia falavam baixo propositadamente para obrigá-lo a mexer no aparelho, o que provocava sustos com sons externos muito fortes.
O cartorário José Nociti fez o mesmo com o escultor Lopes, que havia adquirido o aparelhamento no exterior. Nociti movia os lábios como se falasse e o artista ampliou a audição. A primeira busina de automóvel quase colocou o mestre em levitação na esquina da Oliveira Belo com a Rua XV, em Curitiba.AFORÍSTICO
Depois do ouro, mate, madeira, café, soja, chegamos ao ciclo do pedágio: quem viver ‘‘morrerᒒ nos postos de cobrança.

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