Luiz Geraldo Mazza

Especulações provinciais
Áulicos e profetas (normalmente analistas do fato consumado) apressaram-se em interpretar bem ao seu estilo e com marcado provincianismo o impacto das mortes de Sérgio Motta e Luis Eduardo Magalhães, sugerindo que beneficiavam especialmente o governador Jaime Lerner em sua trajetória política de curto e longo prazos, incluindo aí a aventura presidencial. Nada mais falso: o que há, no momento, é uma espécie de imobilismo e ausência de iniciativas no esquema federal, o que aponta para uma intervenção maior de FHC no processo de forma hegemônica, o que lhe acentuará o traço imperial, já denunciado por amigos como o filósofo José Arthur Gianotti.
A bobeira de imaginar que a posição de Lerner melhora com a morte de Sérgio Motta é absurda porque, a despeito da necessidade de manter a base aliada, o PSDB tem um plano de longo prazo no qual colidirá necessariamente com o PFL, tanto na questão dos governadores como no da eleição proporcional. Assim há de permanecer a ‘‘memória’’ das ações do primeiro amigo e que ele desenvolvia com o conhecimento, embora a discrição, do presidente. A idéia de que Álvaro Dias dependia do ministro é outra precipitação: é, de longe, como Requião, no PMDB, força eleitoral de primeira grandeza.
Quanto à segunda questão, a de que Lerner teria desobstruído os caminhos para a presidência em 2002 no PFL, há também açodamento e ‘‘adoçamento’’ da pílula dourada. Não se pode negar que do Paraná ele é disparadamente o nome de maior força nacional, o que as pesquisas o tem demonstrado, mas nada disso facilita o processo, até porque precisa passar no vestiba da reeleição e os acidentes de percurso vão muito além da cobrança do pedágio, que todos apóiam como solução mas não concordam quanto aos parâmetros e as vantagens às empreiteiras, bem maiores do que as oferecidas às montadoras.
Um pouco de continência nas especulações ficaria mais ajustado à perplexidade gerada pelos dois acontecimentos, que travam o governo, pondo em risco até mesmo as reformas.AXIOMA
A sociedade de consumo obrigou a uma revisão do princípio cartesiano do ‘‘Penso, logo existo’’. Consumo, logo apareço, logo ‘‘sou’’. É a subversão: o sentido do ‘‘ter’’ substituindo o do ‘‘ser’’.
EPIGRAMA Se o Toni Lopes era a imagem-ícone do Bamerindus e hoje é a do Banco do Brasil, o Toni Ramos era e é a do Banestado público. Que tal o Toni Garcia - e ele leva jeito com aquele ar de juventude - para o Banestado privado?
BIZARRICE Ontem o secretário dos Transportes perdeu a linha diante de uma comissão que pleiteava baixa nas tarifas do pedágio. Assustados, os dirigentes comentaram: ‘‘Perto dele, o Osmar Dias é um alfenim’’.
SPRAY Se os critérios que levaram o Tribunal Eleitoral de Brasília a proibir as propagandas institucionais do governo petista (Cristovam Buarque) fossem aqui aplicados ia faltar grana para jornais, rádios e tevês. - Quem viu o programa do PFL, pilotado por Lerner, teve a impressão que se tratava do primeiro dia da criação, como de resto isso parecia acontecer tanto na prefeitura quanto agora no governo estadual. E depois ainda dizem que o apelido de Deus se assenta no Mário Celso Petraglia. Talvez vice-deus, sim.
- Fila de deputados ontem no setor médico da Assembléia Legislativa para ver pressão, batimento cardíaco, enfim, precaver-se depois das ocorrências funestas dos últimos dias. Os mais gordos eram os mais ansiosos. - Suspender a cobrança da taxa de iluminação em Curitiba pode criar embaraços a Taniguchi. Tudo porque Greca deixou o orçamento em frangalhos por luzir demais e hoje qualquer cobrança é relevante. - Se a Justiça começa a cortar os exageros tributários, como esse da taxa de iluminação, há esperança de que ponha termo nesses abusos do pedágio, que vão enriquecer empreiteiras e onerar custos de exportação. - Prefeitos do litoral paranaense, irritados com a prioridade concedida à Costa Oeste, estão pulando fininho e levaram o seu inconformismo ao governador. É que no litoral as coisas são mais virtuais, embora nem sempre virtuosas, do que no Oeste. - Na verdade, a cabeça atrasada de administradores, políticos e empresários do litoral é de lascar. Mas os do Oeste não são assim tão prafrentex, haja vista a falta de capacidade em agredir o mercado, especialmente o externo. -
FOLCLORE E de repente o infarto, risco de todas as categorias, mas que provoca baixas na classe política, volta a preocupar. Se a preocupação com a gordura fosse, por exemplo, efetiva não teríamos tantos pesos-pesados como Jaime Lerner, Rafael Greca, Aníbal Khury e Orlando Pessuti. Aliás, é curioso atentar para a semântica parlamentar quando se diz que um determinado político é um ‘‘grande coração’’. Às vezes é uma forma oblíqua de afirmar que o sujeito é chagásico, isto é, tem a doença que dilata o coração.
GLOSA O presidente da UPE acha que não se deve tratar com repressão os estudantes que pulam catraca das estações-tubo para não pagar as tarifas, mas sim com a compreensão. Em atentados à lei e à ordem comum, que a todos obriga, urge a compressão e não compreensão. Um setor supostamente romântico se imagina ‘‘revolucionário’’ quando pratica essas molecagens. Isso também é deseducação, pois só um idiota completo ao quebrar um ‘‘orelhão’’ se imagina em ato heróico e generoso como se estivesse derrubando a Bastilha. Merece usar camisa de força e não a do Guevara, porque seria até herético.
CROMO O final da tarde de ontem na Capital era uma mistura da pintura impressionista de Miguel Bakun com um mini-poema de Helena Kolody: transpirava Curitiba.
AFORÍSTICO Viagra é o nome do remédio para a impotência que começa a ser questionado nos States. É quase a logomarca de uma dessas organizações que vão montar o Anel de Integração e que provocam no usuário o sentimento adverso, o da impotência absoluta.CLICHÊ
Há administradores públicos que quando lhes anunciam uma comissão, eles pedem rapidamente que a coloquem por baixo da porta, quando se trata apenas de um grupo de pessoas que deseja entrevistá-lo.

mockup