Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Enfim a lacuna
Um velho clichê, quando alguma figura importante desaparece, é o da referência à lacuna que não será preenchida. Normalmente a frase é mera rotina e nem sempre se ajusta ao contexto, pois de insubstituíveis, como sugere outro clichê em sentido contrário, o cemitério está cheio.
A lacuna e o insubstituível configuram o falecido Sérgio Motta, cuja ausência vai pesar na estabilidade do sistema que governa o País e pleiteia a reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Era mais do que o alter ego do presidente, uma força telúrica que poderia ser olhada como quebra gelo e como trator, que brigava pela ampliação do raio de autonomia do PSDB na aliança oficial, e que era o fator de equilíbrio relativamente à agressividade do PFL em sua pulsão fisiológica e cupidez por espaços cada vez maiores no governo e na política do Brasil. Político operacional, não desvinculado da ideologia e da doutrina, era, a despeito da sua liberdade de movimentos, preocupado com o adernar à direita do governo FHC, em muitos aspectos refém dos aliados.
Uma das suas preocupações era a de fazer do PSDB um partido nacional, o que não acontece embora detenha a Presidência, e para tanto se tornava impositivo que ganhasse alguns governos e aumentasse sua representação parlamentar. Esse era um dos fatores que favorecia o PSDB regional na tese da candidatura própria e que se acentuou em dois episódios: a eleição municipal, em que o tucanato quis exibir força que não tinha e levou uma tunda, e a tentativa malograda de Lerner de ingressar no partido. Esse desiderato, o da candidatura própria, não era, pois, uma aspiração personalista de Álvaro Dias e sim algo que se inseria numa estratégia que Motta conduzia com mais determinação do que o presidente FHC, quase sempre impelido a acordos e composições que lhe desfiguravam a imagem.
O fato é que dos homens ligados a FHC nenhum detém condições para exercer o tipo de atuação de um figurante que chegou a tirar sarro do sociologismo, que é disciplina comum ao presidente e dona Ruth. Falou-se, por exemplo, em Pimenta da Veiga e Euclides Scalco, ambos sem o punch exigido pelo papel, e o triunvirato imaginado para substituí-lo é também insuficiente.
Assim, quando os provincianos começam a ver nisso a queda de Álvaro Dias, já que Serjão aparentava apadrinhá-lo, percebe-se que há equívoco: o conjunto perde a dinâmica interna, a autoridade contestatória e irreverente, e quem fica mais frágil é o governo e sua aliança e, especialmente, o PSDB.AFORÍSTICO
Políticos festejam, mas só a Londrina se deve o teleporto.
BIZARRICE Socialismo socialite era o do PDT lernerista: facções do Lions, do Rotary e de clubes granfos eram mais fortes do que linhas doutrinárias. Misture-se esse tipo de orientação com o populismo brizoleiro e teremos esquizofrenia. Ponha-se na comissão de frente dessa escola de samba o Rafael Greca e ter-se-á uma síntese de tudo.
GLOSA O que é pior: o bêbado de comício ou o puxa saco palaciano que no fundo parecem tão iguais? Ligue pro 0900 e perca seus reais, o que é menos ruim do que a perda da paciência com os personagens referidos.
NEPOTISMO Só é condenável quando se dá com os outros. Como dizia Stanislaw Ponte Preta: Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos. Já o Barão de Itararé completava : Negociata é negócio para o qual não fomos convidados.
SPRAY Três juristas do Paraná figuram nas comissões de regulação da Reforma Administrativa: Romeu Bacelar, que é presidente da entidade que congrega os especialistas em Direito Administrativo, Manoel Eduardo Alves Camargo Gomes e Marçal Justen Filho. - Bacelar coordena a Comissão I que trata do acesso de estrangeiros a cargos, empregos e funções públicas, e do elenco de requisitos e restrições ao ocupante de cargo ou emprego público que possibilite acesso a informações privilegiadas. Aí está um tema grave: o da quarentena que deve prevalecer para cargos como os do Banco Central, por exemplo, e cujos titulares depois passam a servir de executivos de organismos financeiros. - O Paraná estava também na comissão de revisão do Código Penal, mas os dois, Renê Dotti e Juarez Tavares, discordando de pressões e atropelos, renunciaram juntamente com Miguel Reale Júnior. - Essa presença, às vezes, é mais importante do que deter um Ministério porque comprova existência de massa cinzenta.-
COTIDIANO Sexta-feira passada foi a minha vez de ter um assaltado da família: meu neto, Diego (ora Maradona quando chuta com a canhota, ora Rivera quando segue os caminhos da arte) foi atacado por um menor armado de faca e revólver perto do Colégio Expoente da Boa Vista, em Curitiba. Domingo foi a vez do Sicupira, craque de bola e comentarista, cujo filho foi vítima de um arrastão de torcedores num terminal de transportes urbanos com a camisa do Paraná. Quem não conta com um mínimo de segurança não tem governo. Bom de pedágio e de ágio.
Mas se do governo quase sempre temos o lado ruim, aqui na Redação de Curitiba da Folha houve fato que restabelece a esperança nos homens: o jornalista José Fernando perdeu documentos, cheque e cartão de crédito com a senha junto e o taxista que os encontrou, Evandro Moraes (Rádio-Táxi 465), gastou o domingo todo atrás do proprietários para a devolução. Enquanto certo tipo de gente no poder público desmancha o País, o povo, trabalhador e honesto, o recompõe.
FOLCLORE Lição da Espanha: um time da 5ª divisão teve seu dia de glória quando seus craques fizeram strip tease num clube e obtiveram renda de R$ 10 mil, bem superior à de toda a temporada. Não fosse o friozinho, não poucas áreas sociais se atirariam na experiência. Deu um resultado que nem uma greve e muito menos uma rebelião conseguiriam.
CROMO Na caverna só se ouve o gotejar de cálcio formando mini-catedrais, uma rotina secular que o turista rompe ao tocar marimba na estalactite.PARADOXO
Serjão vivia em aparelhos na resistência à ditadura e morreu dependendo de outros, tão diversos daqueles, que lhe davam a respiração mecânica. Aparelhos, em certa medida, ajudaram o País a respirar.





