Luiz Geraldo Mazza

A tonalidade nacional
Com esse fatalismo da globalização, como o encara inclusive o nosso presidente FHC, um profissional da reflexão, qual a perspectiva que se pode apresentar ao chamado interesse nacional e, numa hierarquia menor, o regional? Tenho seguidamente levantado o assunto, mas os realistas da moda passam, com uma indiferença olímpica, diante do problema como se ele fosse menor, como diziam advogados da arcádia, uma questão de ‘‘lana caprina’’, superficial.
Não é bem assim: ainda estes dias tivemos um encontro entre empresários da propaganda e de veículos com executivos estrangeiros em que os nossos, e aí se incluía o pessoal da Globo (que atua internacionalmente, embora não tenha se dado bem com a TV Monte Carlo), brigaram pela preservação do modelo brasileiro com uma veemência parecida com a daqueles militares que querem de volta as privatizadas como a Vale do Rio Doce.
Dá para perceber que quando um setor nacional tem força, consistência, apoio num monopólio como a Globo, ele reage, embora no seu cotidiano defenda, às vezes de forma apaixonada, o cosmopolitismo e a fatalidade globalizante, expondo um curioso ar de curiosidade intelectual para os pobres diabos que se agarram ao passado, aos ‘‘escombros da ordem velha’’. É curioso, portanto, que quando a globalização, via ‘‘bureaux de mídia’’, megaatacadistas do setor, é colocada aí ela é contestada e de forma xiita. ‘‘Não podemos permitir que eles entrem para deprimir veículos e fechar agências brasileiras’’ - sentenciou o executivo comercial da Globo, Octávio Florisbal.
Se há um interesse brasileiro, com especificidade comprovada, por que nos demais fronts a pergunta passa a irrelevante, até infantil com os apóstolos da mundialização adotando aquele ar de sacerdotes do templo? Tínhamos uma boa doutrina do mercado interno, da substituição de importações, centrada naquilo que Raul Prebisch ensinava na Comissão Econômica para a América Latina e que encontrava, no caso brasileiro, em Celso Furtado a sua máxima expressão. Mas tudo aquilo servia para o clima da ‘‘guerra fria’’, não para uma época de hegemonia sem contraste sob o ponto de vista da geopolítica. Vemos, portanto, que os liberais radicais seriam uma espécie de ‘‘maximalistas’’, como se dizia de anarquistas e socialistas no passado, da direita e da ordem dominante.
Há uma crise grave no pensamento, na filosofia imediata. Está na contramão do pensamento crítico uma ordem confessional que normalmente é totalitária e acaba muito parecida, mesmo que se declare o contrário, à teocracia, supostamente justificada, imaginem o absurdo, pela ciência e a razão.CROMO
O olhar agudo do menino de rua segue a bolha de sabão em sua marcha curta para dissipar-se. Tão curta quanto a infância dele, adulto precoce.
EPIGRAMA ‘‘Atirei um pau no gato-tô-tô// mas o gato-tô-tô não morreu// Dona Chica-ca-ca admirou-se-se// do berrô, do berrô que o gato deu.’ A mestre- escola canta para os meninos e meninas do jardim e eles aprendem como anjos, quase uma cantiga de roda, uma forma suavizada de violência.
BIZARRICE Quando Lerner ao exibir o primeiro Mégane da Renault jogou o seu capacete para o ar como os estudantes fazem na formatura e o desmantelou no chão um observador, não eufórico diante das montadoras, sacou a frase e o trocadilho ‘‘diante do Mégane, me engane que eu gosto.’
Por falar em trocadilho, o gênero está sem cultores. De todos um dos maiores foi Emílio de Menezes, um dos raros da terra da Academia Brasileira de Letras. No auge do positivismo, alguém o viu na praça e acreditou que estivesse se encaminhando para o templo da religião da humanidade.
-Indo ao apostolado?
-Não. Vou para o lado oposto.
GLOSA São José dos Pinhais viveu sexta-feira o furor dos elementos com o vendaval, a continuidade do júri de Guaratuba e o lançamento do Mégane da Renault. Se o governador jogasse para o ar o capacete na hora do vento, ia provocar uma questão diplomática certamente com a Argentina ou derrubar algum avião que decolasse ou estivesse aterrissando no Afonso Pena.
SPRAY A reabertura do processo de Campo Bonito, solicitada pela Pastoral da Terra, em que se procura definir responsabilidades do Estado (PM) e dos sem-terra, vai ter efeitos políticos.- Realimentado pelas manifestações nacionais dos dois anos da tragédia de Eldorado de Carajás, o processo está tramitando na Comarca de Guaraniaçu, admitido pelo Ministério Público e o Judiciário.- Há várias ações no disparo, paralelamente, para cobrar reparação: a da viúva de Teixeirinha e das famílias dos três PMs mortos por sem-terra.- Entra, é claro, no horário eleitoral, posto que haja fitas a favor e contra as partes interessadas na exploração. Mais uma vez a PM se transforma em boi de piranha de campanha eleitoral: na anterior, que elegeu Lerner e prejudicou Álvaro Dias com o massacre dos professores, e nesta alcançando o governo Requião.- Há, em Curitiba, alguma família que não tenha tido, com pelo menos um dos seus integrantes, algum assalto ou violência? A resposta negativa a essa pergunta deve explicar o fato de que a violência é preocupação maior do que o batido desemprego na Região Metropolitana em todas as pesquisas mais recentes.-
FOLCLORE Os sem-terra se empenham em libertar o último dos presos que se encontra em Campina da Lagoa. Se estivéssemos nos tempos do regime militar, tal a facilidade com que estabeleciam as mais absurdas correlações, Nelson Bueno, o detido, seria ligado à queda das torres de Itaipu.
AFORÍSTICO Que preconceito é esse que nega aos gordos o direito de figurarem como heróis? Quem o cultiva é porque não viu o gesto atlético, olímpico, de Lerner lançando o capacete na Renault como se fosse um barrete acadêmico em fim de formatura. Um balé.

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