Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Liberalismo totalitário
O gosto pelo paradoxo é uma constante. Ralf Daendorf, grande liberal, escreveu um livro com o título O Cidadão Total. Essa cidadania utópica, a única que torna possível conter os excessos do capitalismo, é algo que se move no campo da epistemologia (doutrina do conhecimento) e da especulação pura, no entanto incabível no mundo concreto. É que o homem, antes de tudo, é egoísta e quando age o faz por interesse imediato, ainda que seu gesto acabe tendo ressonância social e, portanto, solidária.
Essa observação vem a propósito do confessionalismo da moda, o neoliberalismo inscrito com a força de uma teocracia (a da mercadoria e do mercado, o bezerro de ouro de agora), em marcha acelerada, numa sociedade hegemônica (antes havia o contraste do socialismo real). Na origem havia o liberalismo, comprometido, antes de tudo, com a liberdade em sua permanente batalha com o conservadorismo e a sua deturpação, o despotismo.
Deu-se por vias transversas a mesma deturpação ocorrida com o socialismo: a visão economicista dominante, nem amainada com a contribuição existencialista, gerou uma ordem inquestionada em que a maioria passa a ser necessariamente serva obrigatória de uma minoria, representada quer pela nomenklatura, quer agora por esse reduzido número de corporações que domina o mundo. A dialética de Marx, que colocou de ponta cabeça quem primeiro a ideara, Hegel, fazia do dado econômico o modelador da história, sobrepujando os de ordem culturalista. E o que o neoliberalismo, com essa submissão ao mercado e a suas pulsões como o regulador do destino da humanidade, pretende se não a mesma coisa?
Tenho insistido em discutir o mito da exatidão. Nem a Igreja, que já foi também hegemônica, o sustenta: quando o Papa João Paulo II pede perdão às vítimas da Inquisição, mostra claramente que a infalibilidade papal dançou. Não há sofisma que a sustente, embora teológos estejam prontos para esse papel. O mito do exato, do realizado, pois há quem fale idiotamente em fim da história, não é lógico, conquanto seja um velho recurso da ideologia. Há muito disso nesse fatalismo com que se olha a globalização e uma ordem neoliberal, como se de repente as diferenças entre nações e pessoas tivesse desaparecido e sumissem os fatores reais e potenciais de contestação de tudo o que aí está, incluindo uma daquelas crises cíclicas do capitalismo como a de 1929.
Como o socialismo (luta pela igualdade) foi deturpado ao longo de tempo e depois de Marx com Lênin, por exemplo, e os que lhe seguiram, com mais forte pretensão de verdade revelada, o neoliberalismo se faz totalitário.AXIOMA
Antes se dizia quem não deve não teme. Com esse caso do Banestado se dá o inverso, pelo visto, já que quem deve não teme.
SILOGISMO Felizmente no Paraná não há clima para casos como esse do PTB de São Paulo, que deseja R$ 3 milhões para compor com o Maluf. Aqui ninguém vende e ninguém compra. Melhor isso do que aquele que vende e não entrega.
BIZARRICE Quando Emília Belinati foi aplaudida no Moringão, em Londrina, no jogo das estrelas entre brasileiros e estrangeiros do basquete, a maioria não percebeu que era uma homenagem à ex-integrante da seleção paranaense. Se ela fosse populista como o marido, iria lá na quadra e encestava uma de três pontos do meio da cancha. Já ele, se tivesse condições, enterraria uma bola, mesmo que apoiado nas costas do assessor mais solícito.
SPRAY Duas figuras, um homem e uma mulher, do sistema palaciano, gastando a rodo na decoração do apartamento na loja Sig Bergamini. Se alguém disser, diante disso, que o rei está nu, pode-se até discordar, mas que está decorado, ah, isso está. - O Paraná, graças ao Neco Garcia, tem a chance de uma depuração em regra: basta que complete a obra, contando as patologias atuais, entre elas a da Leasing (R$ 100 milhões de inadimplência). Cocemos a garganta com penas de pavão e vomitemos, como faziam os sibaritas. - Chega a ser comovente a luta do sindicato dos bancários para manter agências deficitárias do Banestado com o alerta de que em 113 municípios seriam fechadas. Se estiverem no vermelho, não escapam, porque o Estado-albergue acabou e para o bem de todos, inclusive daqueles que têm a ilusão de segurança num banco pilhado e onde a maioria (que o sustenta entre correntistas, aplicadores, acionistas) se obriga a pagar a conta, o que não é justo. - Vamos às listas, nem que sejam só para uma sessão secreta, o que o regimento interno ampara. Hora da verdade é mais do que psicanálise de grupo e será ótima como prévia do saneamento do Banestado. - Governo é vivo: aproveitou-se da bronca dos que sofreram com o bloqueio das estradas para reafirmar que vai cobrar o pedágio no parâmetro imposto. E diz que não é populista e nem cortejador para fugir ao contrato por causa da eleição. A eleição precisa do pedágio ou é o contrário? Austeridade política feita com a grana do povo, essa é boa, como se não houvesse linguiça por baixo desse angu.
- Pesquisa do vereador pastor Oliveira Filho no Bairro Novo em Curitiba (460 moradores, 1% da população) mostra a Cohab com 76% de grau de satisfação, 60% acham que falta segurança, 75% usaram o posto de saúde, 26% se queixam da falta de asfalto. - Lerner diz ter concluído 15.627 casas do programa Casa da Família iniciadas no governo passado e abandonadas, havendo ainda mais 298 para terminar. Mais casas para terminar do que cabelos para cair, hein Romanelli! Responda!
FOLCLORE Depois do pau pedagógico do Neco Garcia, vem a ação dos vaselinas do governo, certamente com medo de que o bumerangue o atinja. Eta governicho: de madrugada pegaram o coordenador de projetos do Detran, Renato Gama, dirigindo bêbado. Enfim, um porre de material para a oposição. E quem liberou o carro tem o nome de Salvador Porres. O governo dispensa inimigos.CROMO
Se um galo cantar na cidade deve ser aquele de lata no teto das casas.





