Poucos sociólogos e cientistas políticos trataram, com tanta contundência e clareza - como Munhoz da Rocha - de uma das mais terríveis deformações nacionais: nossa compulsão, que tantas vezes se repete, e mais como tragédia que como farsa, pelo culto ao homem providencial. E se havia alguém, até pela condição de intelectual operativo, de quem não se deveria esperar uma incidência dessa patologia, seria justamente o sociólogo Fernando Henrique Cardoso.
É, no entanto, muito difícil esperar lucidez de quem está empolgado e, mais do que isso, mesmerizado pelo poder e pelo cerco sufocante dos áulicos. Aliás, a vaidade intelectual do presidente já o pôs a perder uma vez, quando afirmou numa entrevista a Bóris Casoy, na véspera da eleição a prefeito de São Paulo, que não acreditava em Deus, o que certamente não faria hoje, quando se mostra com mais senso de contenção. Dizer-se ateu ou agnóstico para quem disputa votos no Brasil é um suicídio. Se estava, porém, dizendo a verdade, esta seria mutante em relação ao mesmo tema nos dias de hoje.
O homem providencial é algo que não se ajusta a uma democracia que se respeite, porque acaba consagrando uma de nossas deformações, alienada e bem alienante, do messianismo. Algo que está entranhado no inconsciente coletivo de nossa gente e é visível em episódios dramáticos, como os da guerrilha de Antonio Conselheiro (de certa forma alimentando o imaginário voluntarista do Movimento Sem-Terra) e aquela bem nossa paranaense do Monge da Lapa na saga do Contestado.
Pagamos um tributo imenso a isso com Getúlio Vargas, este por mais tempo, o que facilitou a sua volta, não mais como ditador e sim como estadista, e Jânio Quadros, cuja carreira meteórica (e que se travestia de caspas, de homem comum e pobre, de empregado da CMTC) se assenta nessa convicção. O pior é que FHC tem hoje um trunfo que nenhum deles deteve: a estabilização da moeda num País quase convulsivo com a força da inflação. Foi em cima desse fundamento que se elegeu presidente e que pretende a reeleição, e o brasileiro, condicionado por esse bem-estar que lhe devolveu referências na moeda e nos preços, tende a apoiá-lo com entusiasmo, ainda mais com a prensa dos institucionais na TV.
Ao lado do homem providencial, outra praga onipresente - a do salvacionismo. Que já foi chamado de reformas básicas com Jango, de golpe militar de 64, de milagre brasileiro (‘‘Ame-o ou deixe-o’’, a calhordice patrioteira), depois de ‘‘diretas-jᒒ, de ida ao Colégio Eleitoral com Tancredo Neves, de Plano Cruzado (um estelionato eleitoral), da Constituinte (cuja obra prima é a Carta que tornou o Brasil ingovernável) e agora essa da reeleição condimentada de outras fuleragens como a privatização a outrance.
Como se diz que a profissão do brasileiro é a esperança, percebe-se também que por causa disso não se traumatiza ao se perceber iludido, tapeado.
BIZARRICE - Mário Pereira sai de uma reunião na Assembléia com o presidente da Casa. Advertido de que haveria, à noite, reunião na casa do Pessuti e que poderia alterar o quadro, respondeu em catarinês ‘‘que precisa repousar’’. No dia seguinte, o Anibelli foi escolhido e o jornalista que o havia alertado ouviu a explicação sem resentimento e ainda em catarinês: ‘‘Passaram por mim batido’’.
SPRAY - Sustentação de incremento demográfico superior a 5% ao ano, na Região Metropolitana, é fator de perturbação e que vai se agravar com o surto das montadoras e satélites. Com Curitiba esgotada em suas lindes territoriais e sem áreas de expansão, o planejamento urbano só pode daqui em diante ter enfoque metropolitano. Taniguchi sabe disso. - Vários sistemas da Sanepar, de Andirá em diante, no norte pioneiro, deixaram de operar por causa das chuvas. O transbordamento é de tal ordem que até motores estão submersos e a captação é impossível. - Banestado e Bamerindus agiram rapidamente para oferecer condições à clientela de atendimento automático, para suavizar os efeitos da CPMF. Outros bancos também buscaram fazê-lo. Com isso suavizam a imagem, nem sempre positiva, decorrente da variação superior a 1.000% nas tarifas. - Se há empresa que precisava ser submetida à privatização é a Celepar. Aluga computadores (que poderia comprar com o gasto de dois meses) e ainda dá um nome a esse programa de ‘‘pulmão’’. Esse, na certa e no mínimo, padece de enfisema. - Outro desperdício é o da frota de aviões do governo, quase todos sem manutenção e obrigando o Estado pródigo (e prodígio) a fazer arrendamento ou negociar passagens. É tortuosidade por método. - Governo deve encaminhar à Assembléia a mensagem dos 80% a prestações ao pessoal de nível universitário. O que necessariamente vai levar os demais barnabés a declararem que também são filhos de Deus. Problema é que pertencem a categoria numerosa e isso é fatal. - Sindicalistas do transporte de Curitiba de olho na greve paulista em cima da participação nos lucros (e resultados). Patrão alega sempre que deu prejuízo.
FOLCLORE - Anos quarenta, o jornalista e humorista Alceu Chichorro é homenageado em Paranaguá. As donzelas, pudicas em excesso, o cercam e uma delas tenta sugerir ao Chichorro que a maioria é ‘‘acanhada’’. O Fumaça replica: ‘‘Só se for acanhada com cê cedilha.’’ Do Chichorro tem outra: está na esquina da rua XV e diz um galanteio a uma dama que, rapidamente, reage:
- ‘‘Seo cachorro’’ - ao que ele corrige:
- ‘‘Cachorro, não. Chichorro’’.

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