Como Aníbal Khury é mais do que o Legislativo, que efetivamente encarna, para transpor os umbrais dos demais poderes, o Executivo e o Judiciário, e neles intervir com a tranquilidade de praxe, não espanta o fato de expressar as dores da corporação pela incontinência verbal do Manoel Garcia Cid ao dizer a verdade, de que parlamentares estão entre os inadimplentes do Banestado.
Como o governo é frouxo - haja vista a demora para reagir ao bloqueio dos empréstimos do Paraná e até na tomada elementar de decisões políticas como a de entrar num partido sem licença, sair de outro constrangido e mais ainda ajustar-se num terceiro, do qual rigorosamente jamais se afastou - não espanta que tenhamos mais esgarçamento da autoridade no episódio. É verdade que Garcia Cid falou demais e generalizou. Assim mesmo não disse tudo: não clareou exatamente o que é a prática dos juros zerados ou muito abaixo do mercado para clientelas especiais. E aí se descortina toda a barbárie praticada ao longo do tempo: dá para imaginar, no furor da inflação, o quanto ganharam os privilegiados que contavam com essa vantagem. Muitos desses débitos ficaram inscritos, já que incobráveis, na lista dos ‘‘créditos em liquidação’’.
A mensagem a Garcia não é aquela da lenda porque nesta há incubada a velha tática da chantagem: ou tira o presidente do Banco ou a mensagem de sua salvação ficará brecada. Quem o afirmou foi Aníbal Khury, com o mesmo calor, em cima de uma emoção (uma das sessões melancólicas de ‘‘defesa’’ do banco), com que declarara que sob sua presidência não haveria privatização, posição que em seguida mudou ao saber da ‘‘sangria’’ de R$ 50 milhões que o Banestado vinha sofrendo para fingir vitalidade no mercado.
Com o barulho indignado dos deputados - e por sua expressão externa, ninguém deve nada e muito menos pode ser chamado de inadimplente - fica a sociedade sem saber também essa perda específica, já que além do sigilo que os protege, há ainda o poder de fogo das ameaças. Essa postura, não apenas dos deputados, mas de todos os moralistas públicos, lembra a fábula do elevador com dez passageiros e no qual alguém solta um ‘‘pum’’ e em meio aos miasmas o próprio autor da façanha mefistofélica aparece com o ar mais indignado lançando um olhar udenista e de anátema à generalidade dos presentes.EFABULAÇÃO
Depois da tempestade vem ‘‘El Ni¤o’’ em lugar da bonança.
BIZARRICE João Saldanha, técnico da seleção brasileira, passa mal (problemas respiratórios) na casa de Anfrísio Siqueira, em Curitiba. O anfitrião tinha ouvido falar que José Domingos Scarpelini dominava uma simpatia infalível: sangue fresco de carpa. Scarpa alegou que não sabia onde encontrar as carpas que Anfrísio providenciou bem pertinho: no tanque do Passeio Público. E o João Sem Medo, que era agnóstico e do partidão, teve a experiência vampiresca porque isso era mais suportável do que a falta de ar.
CLONAGEM Uma das pessoas que segurou a imagem do Banestado foi o ator global, paranaense, Toni Ramos. No Bamerindus era o Toni Lopes e que agora veste a camisa do Banco do Brasil: de tudo, afinal, algo foi nacionalizado. Caco (Antonio Carlos) Lacerda, que anda por Nova York, fez a analogia dos dois na ‘‘Gazeta’’ e dá para concluir que há o risco de uma inversão: o Toni Ramos virar garoto propaganda de um banco internacional.
MEMÓRIA Episódio de ontem da ida de Garcia Cid na Assembléia já aconteceu antes: no governo Munhoz da Rocha, quando havia mais QI, tanto no governo quanto na oposição, a bancada do contra (tinha o Acioly Filho na cabeça) convocou o secretário da Fazenda, o guarda-livros José Eugênio de Souza, o Genico, um simplório litorâneo que deu um banho nos deputados. Ontem tudo se repetiu: Neco moeu com a destreza, posto que sem a elegância, do Ronaldo da seleção. Arrogância e prepotência, hipocrisia e dissimulação dão nisso.
SPRAY Deputados não querem pagar o vale e exigem a lista dos inadimplentes do Banestado.- Na polícia também querem a lista dos 33 que estariam envolvidos no tráfico, segundo o delegado Adauto Oliveira.- Para uma época que não tem listas de vestibas e resultados de concursos, está pra lá de bom: um mistério na linguagem cifrada do Garcia, quanto ao número de devedores entre parlamentares, que ficaria em mais de dois e menos de vinte. Menor, e isso cheira a panos quentes, do que a lista dos 53. Desconfiança aberta.- Depois de Rouen, o pó vermelho: Lerner vai amanhã para Maringá, inaugura vila rural, lança ampliação do suprimento de água, inaugura laboratório e asfalto em encontros, assina convênios e ordens de serviços, e no sábado vai a Londrina e assina convênios de vilas rurais em Guairacá, Guaravera, Irerê, Lerrovile e para compra de áreas e implantação em Paiquerê e São Luis.- Sperafico, cuja operação foi detalhada em público por Neco Garcia, ameaça processo de quebra de sigilo. Quem processa alguém por quebra de banco, mesmo que seja de praça?-
SLOGAN Chega de nheco-nheco, o homem é o Neco.
FOLCLORE No Diário Oficial um edital da Cohapar do resultado de licitação para serviços de auditoria: ‘‘não compareceram nenhum dos convidados’’. Vamos clarear: ‘‘ninguém foram e nenhum reclamaram.’ Se as casas forem construídas como as frases, Sérgio Naya vira santo. Pode-se até concordar com esse governo, menos com a sua concordância.
CROMO De repente um corte epistemológico: um colibri minúsculo adeja em minha janela e é um bisturi que me retira a carga de mau humor.
AFORÍSTICO Sinceridade e franqueza, às vezes dosadas com rusticidade, batem de longe a dissimulação e a hipocrisia dos políticos. Dá-lhe, Garcia, mas complete a obra e entregue os podres da ‘‘Leasing’’ e o autor principal.

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