A traição em política é como o respirar, normalíssima, esperada e por isso mesmo metabolizável de forma tranquila. Mas há medidas de traição: a de FHC em relação a Itamar Franco não resiste a uma análise superficial, pois quem se alega traído conspirava ‘‘de leve’’ em cargo de confiança. Muitas, mesmo as mais graves, acabam esquecidas. Richa carregou Requião nas costas para elegê-lo prefeito e depois, em contrapartida, foi massacrado pelo beneficiário. Paulo Pimentel chamou Saul Raiz, que estava no Tribunal de Contas, para assumir uma secretaria em seu governo, obrigando-o a aposentar-se, o que depois foi alegado pelo primeiro como uma imoralidade e ainda por cima com uma certidão devastou sua candidatura à sucessão de Ney Braga.
Tudo assim faz parte da normalidade na política e de tal forma que não é sequer lembrado nas comemorações como as de hoje no justiçamento de Judas. O que vai ser lembrado, por exemplo, é que Lerner no Paraná e FHC no Brasil não dão aumento a funcionários há três anos e por isso ambos podem ser malhados no ritual divertido e alegórico em cima da traição secular.
São tantas e tão normais as traições em política que é ocioso cadastrá-las e enunciá-las. O sujeito traído recebe tudo como normal no código comum ao dos malandros: é como se tivesse a consciência de que ele poderia ter feito o mesmo com o outro. Tal qual o enunciado machista árabe que manda bater na mulher porque você, o agressor, pode não saber porque está batendo, mas ela, certamente, sabe porque está apanhando. Esse quadro hoje está invertido: vide aquela senhora de Alagoas, dona Denilma, que surrava o Geraldo (dá-lhe, xará!) com toalha molhada para não deixar vestígios como em tortura policial.
A mobilização da chantagem que os partidos fazem em cima de Lerner, valendo-se de sua falta de personalidade, é bem a mostra do relativismo ético da prática política. Chantagear é preciso, barganhar indispensável, da mesma forma que sugerir ter uma força maior do que a que de fato dispõe. Mas o cerco sedutor não se limita a Lerner, espraiando-se por outros dois possíveis candidatos, o Álvaro Dias e o Roberto Requião.
Em tal cenário é de fato incabível falar em ética e especialmente em traição. Se baterem nos políticos, caricaturando-os como Judas, eles serão os primeiros a permanecer calados porque, como na lenda machista, sabem por que estão sendo malhados e por que o merecem. Malho neles antes que nos malhem, mais ainda.
BIZARRICE Neste sábado, D. Jerônimo Mazzarotto faz cem anos. Há cinco anos fomos até a sua casa, ao lado da paróquia que instituiu, Santa Terezinha, para entrevistá-lo para o projeto ‘‘Memória Histórica’’ da Fundação Banerinduas. E a empregada pediu que esperássemos porque no momento D. Jerônimo estava arrumando a calha da casa. O padre voador lá estava mexendo com telhas e calhas. Consta que um dia subiu no enorme abacateiro do quintal. Vitalidade e espiritualidade para ninguém botar defeito.
SPRAY No Carrefour, Bigorrilho, há venda casada da gilete Sensor com um radinho acoplado. Um comprador não concordou e foi ao Procon e este em vez de ir até lá para flagrar o delito, apenas telefonou. Não dá para levar a sério nenhuma instituição pública.- Durante a quaresma, outro absurdo: venda de tubarão do nordeste como bacalhau. Antes se fazia isso com o cação ou com outros tipos de peixe, de segunda linha, expostos ao sol. Bacalhau não é xarque.- Vem aí uma representação oficial do Ministério Público para responsabilizar a prefeitura de Curitiba pelo abandono do bonde que foi doado pela família Slaviero. Antes, porém, sai a Comissão Especial da Câmara Municipal que examinará o assunto.- RBS já chegou ao Paraná com a Net: dentro em breve se utilizará do Canal 20 (a cabo) e 81 (antena) para emissões voltadas a Curitiba. É o primeiro passo.- Também Francisco Cunha Pereira, sócio da Globo Regional, vai explorar um canal de traço comunitário, enquanto processa reestruturação nos seus veículos (jornais, tvs, rádio).- À medida em que se consolida o hipermercado Extra, mais se percebe o quanto a administração municipal submete a cidade aos interesses econômicos, cuja linha paradigmática vem com o Shopping Mueller. Apesar do esforço para construir vias paralelas e tentar acertar a circulação, que vai ser complicadíssima, na avenida Nossa Senhora da Luz.-
AXIOMA Pelo padrão dos que desafiam Lerner se conhece a medida do governador: a fraqueza dos adversários apenas ressalta a sua própria fragilidade.
FOLCLORE Adão Plínio da Silva, ex-técnico de futebol e ex-jogador do Coritiba e do Botafogo do Rio, é um frasista e o faz sem qualquer pompa. Estava num automóvel em saída da cidade e ouvindo um jogo pelo rádio. De repente o som sumiu. Para referir-se ao campo de audiência sacou: ‘‘isso aí é que nem bandido fugindo no faroeste, que ao passar da ponte ninguém mais pega!’’
CROMO O professor Flávio Ropelatto, um dos primeiros assinantes da ‘‘Folha’’, faz um soneto para D. Jerônimo. ‘‘Ancoraste no porto centenário,// Engrandecendo a vida, branca messe!// No incenso a Deus se alteia ardente prece,// Em seletiva escala de um hinário.// Tantas são as lembranças! Relicário// De virtudes, que o tempo reverdece!// (Consagrada a vida, em tela, tece// Cromo em zelo em cruzada de templário). // Dom Jerônimo, Bispo Auxiliar,// Foste sempre fiel ao Santo Altar,// Na vida consagrada a Jesus!// De Lisieux, possa a Santa dos Rosais,// Espalhar os perfumes liriais// Nesta festa, em que um século reluz!//
AFORÍSTICO Se políticos, no dia de hoje, se arvorassem em juízes dos seus adversários e desafetos na hora de malhar Judas, daria para perceber que os que malham é como se estivessem sendo malhados. Com dizia Sócrates, ‘‘Nosce te ipsum’’ (Conhece-te a ti mesmo).

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