Luiz Geraldo Mazza
Embora seja difícil precisar a topografia ideológica, isso é o que são hoje a esquerda e a direita, a cada momento surge um fato novo para complicar o quadro e facilitar definição. O Tony Blair quer abrir clareiras para Clinton e FHC no que ele considera um esquema de forças de centro-esquerda para diferenciar-se do hegemônico receituário neoliberal. Sugere novo perfil para a Internacional Socialista, tão pragmático quanto a pregação que o levou a derrotar a frente liberal-conservadora da Inglaterra, aceitando, no entanto, a contaminação daquilo que para ser expungido da Inglaterra levará muito tempo: a ordem tatcherista. Jospin e outros líderes socialistas insistem em defender o receituário social-democrata de Willi Brandt, hoje minado pelos ventos que ameaçam os fundamentos do Welfare State, o Estado do Bem-Estar e têm maioria para barrar a composição proposta.
O nível de exclusão e selvageria darwiniana que estão por vir sem um mínimo de resistência (a impotência das forças sindicais e políticas para o discurso e para a ação ainda muito maior) exigiriam muito mais do que esse asséptico e educado encontro de socialistas pasteurizados. Especialmente os trabalhadores já deveriam ter cogitado, diante da fatalidade globalizante, de uma nova e reciclada Internacional, recuperando o seu sentido revolucionário de origem para valer e não apenas para civilizar e conter os hormônios do capitalismo. Claro que isso não é fácil diante de uma ordem militar de traço hegemônico e que tolera, para sua conveniência, guerrinhas focais.
Se isso em escala mundial é complicado, a despeito de obras que denunciam a falseta dessa correlação de forças, imagine-se como transpor para o nosso campanário quase pré-histórico, em se tratando da matéria, o que fazer como ensinavam os marxistas históricos. Aqui o populismo barato, getulista ou desenvolvimentista de JK, eram as formas visíveis e possíveis de esquerda que traduziam simulacros de frente popular, como as que permitiram Jango ser vice-presidente primeiro com o PSD e depois com Jânio, a UDN de porre.
Nossas esquerdas têm muito desses fundamentos e a sua incapacidade para propor variáveis ao ritmo das privatizações ou parâmetros que possam ser empregados para neutralizar efeitos danosos da globalização é manifesta. O PT, nosso mais denso partido de esquerda, é prova disso: Lula tenta se tornar palatável para atrair empresários e forças liberais (a vitória apertada do José Dirceu na disputa nacional mostra como é difícil esse ajuste, e o caso do Rio é um dos eixos dessa desagregação) e tende a isolar os radicais que acabarão ainda em outro partido por força da atomização interna.
Não se faz um partido ideológico sem mística. E o PT é um dos poucos que a detém, mas de concessão em concessão, de recuo em recuo, ele se descaracteriza e pode justificar um alertamento a Lula: de realismo em realismo se pode chegar rapidamente à realeza. A piada é minha e bem didática.
BIZARRICE Boca Maldita, ontem, meio-dia: perto da roda do jogo de porrinha, palito para quem não sabe, dizia-se que a Inepar era o exemplo de que outras empresas paranaenses poderiam subsistir. Aí o Orlando Carlini, que disputa o título de mal-humorado com o Betini (Cai-Bem, de Cambará), argumentou: essa competição é tão igual quanto a de botar o Mike Tyson para enfrentar o Nego Pessoa (jornalista Carlos Alberto Pessoa, iratiense como o observador).
SPRAY Incompetência política de Lerner é proverbial: ele valoriza, com suas hesitações, os partidos que tentam barganhar mais do que valem.- O pior é que o seu staff fica à beira da convulsão com notícias vagas como a de que Álvaro Dias teria recuperado a disposição de competir, dita por Janene do PPB. Há ainda um informe Mandrake que levaria Lerner a usar a bombinha contra a asma: uma pesquisa que dá 31% pra Álvaro, 25% pra Lerner e 17% para Requião. O chute é livre, principalmente na canela, para obter secretarias e espaços.- Se a lei dos cassinos liberados não vier, Foz do Iguaçu vai padecer: hoje alguns shows feitos no Mabu daquela cidade, por exemplo, são promoções do Cassino de Puerto Iguazu. Como o hotel cinco estrelas da organização está em acabamento, dá para imaginar o impacto que virá com o seu pleno funcionamento.- Aliás, a organização até para preservar a clientela não faz cobranças na base da pesada como se sugeriu com o ocorrido com figuras do mundo chapa branca.- Há um dos secretários de Lerner que joga parada de 2 mil dólares na roleta. Se for feliz no amor, está frito.- Absolvições no STJ: uma delas em favor do empresário Joel Malucelli, naquela questão bancária.- Outra em favor do Júlio César Salomão, pelo menos num dos muitos processos. Ambos são de Morretes e Malucelli declarou-se habilitado à compra com outros grupos, é claro, do Banestado.- Por sinal que a demagogia em cima do banco e contra a privatização não vai dar os rendimentos esperados, politicamente. A ação da Funbep e dos aposentados é legítima porque pretende deixar clara a questão da preservação dos seus direitos.- Se fosse divulgada a relação dos inadimplentes, o que o sigilo não permite, veríamos que muitos da linha de frente ali aparecem.-
FOLCLORE Se há esquerda da direita e vice-versa, é fácil verificá-lo: Heidegger, filósofo fenomenologista, era a sinistra de Hitler. E Trotski era direita ou a esquerda de Stalin? Como diz o Anfrísio Siqueira, de onde você e em que ângulo você está.
CROMO Nesta semana, vejam a iniquidade e heresia, o comércio, que pretende ser o deus do momento, o bezerro de ouro do neoliberalismo, acredita piamente na sua ressurreição com a compulsão mercantil por presentes e chocolates.





