A maioria da população brasileira aprova os sem-terra e deseja a reforma agrária, mas igualmente repele as invasões. É o que pesquisas como a do Ibope revelam sobre o assunto. Há ainda, na cabeça de certos setores da população, a ingenuidade de olharem as ações do MST como se fosse uma guerrilha. Como efeito, ela supera a todas, dentre as recentes do País, malogradas em função do primarismo dos seus arrebatados participantes como as do Araguaia e Caparaó. É visível que como fio condutor da reforma agrária, quase de corpo fechado na hora da violência com os políticos (e isso vai de FHC a governadores como Jaime Lerner) impedindo o cumprimento de decisões judiciais para evitar o risco de desgastes eleitorais, ela é eficiente e faz do MST um movimento de maior capilaridade do que o de Chiapas, no México.
E da mesma forma que a Globo, com a série ‘‘Anos Rebeldes’’, levou os jovens à derrubada de Collor, o MST ganhou indulgências plenárias com a novela ‘‘O Rei do Gado’’, onde até o líder Rainha virou Regino. Mas o Ibope é claro: 80% são favoráveis à reforma agrária, 83% consideram o direito de propriedade essencial à vida em sociedade, e 59% repudiam as invasões. Outro detalhe: 52% acham que o MST é ligado ao PT. Isso está acoplado como o mitológico Centauro, metade homem, metade cavalo.
Se é verdade que sem pressão não se encara o problema da terra, já que temos uma sociedade com as raízes no mundo feudal (bastando lembrar que Jango foi combatido mais pelos acertos como o da sindicalização rural, tocado pelo paranaense Amauri Silva, do que pelos erros como o de estimular, pela omissão, a quebra da hierarquia militar), não dá para tolerar essa gincana mórbida em que se transformou o ritual do MST, cadenciado pelas bravatas dos líderes ante os quais o governo, para posar de ‘‘progressista’’, cala e consente.
O Paraná, unidade federativa que vinha mostrando com o esgotamento de suas fronteiras agrícolas a escassez de espaços, transformou-se num dos núcleos de maior violência como os situados no Noroeste, área que se destinou à pecuária extensiva até por uma fatalidade geológica, o arenito Caiuá. Quando das lutas pela terra, anos 50 (Porecatu), vimos muitas vezes a área de Querência do Norte, nos tempos do lendário ‘‘Doutor Bronquinha’’, ser alvo de fortes tensões até meados dos anos 60.
Como são escassas as possibilidades de vitória de Lula, com o qual se identifica o MST, mas exigindo em contrapartida maior engajamento, percebe-se que teremos um pleito no Brasil parecido com o dos países que enfrentam focos de guerrilha e que tentam sempre desmoralizar as eleições. Não basta, como tem acontecido, isolar esses agrupamentos, mas enfrentá-los na mesma medida: quando respeitarem a lei comum podem dar livre curso às suas manifestações; quando a extrapolarem, não há outro caminho que não o do confronto.
Fingir que o que se faz é legal, transformar guerrilha numa aparente gincana, por mais hábil que seja o mimetismo, não depura a provocação a ser repelida.
BIZARRICE Critérios da CUT e do PT são diferenciados, posto que sejam irmãos siameses: para tocar uma greve não é preciso ‘‘quórum’’, bastando que o grupo mais arregimentado consiga maioria; já, para a eleição, a exigência é de tal forma impositiva que não admite rodeios.
SPRAY Cerco da Funai em Curitiba prova que índio quer apito.- Lerner, em mais um apelo à criatividade, vai realizar os Jogos Indígenas. Provas poderiam ser: arco e flecha, uso da zarabatana para arremesso de dardos venenosos contra ladrões de terras de silvícolas, o que mexeria com políticos; passeio em cipó à moda de Tarzan como precursor do ‘‘ligeirinho’’. Se Rafael Greca, ainda fosse prefeito, imaginaram o auê que faria?- E quais são os caloteiros do cassino de Puerto Iguazu, na Argentina, que correm o risco de ter seus nomes publicados como em casos de protestos de títulos? Sabe-se que são do governo estadual e da prefeitura da Capital.- Paraná vai querer habilitar-se à fiscalização dos combustíveis. No passado, quem tirava de letra esse assunto era o IBPT (Instituto de Biologia e Pesquisas Tecnológicas), hoje Tecpar. Chegou ao rebuscamento de produzir um aparelho que detectava a quantidade de diesel e querosene na gasolina e permitia o flagrante na hora. Era algo como fluorógrafo.- Oportunismo de deputados e candidatos que visam utilizar o Banestado em sua sortida para manipular emocionalmente a categoria vai ser punido rigorosamente pela classe bancária, que não tolera mais ser usada como massa de manobra, e na semeadura de falsas esperanças e de falsas angústias.-
ESTEPETÊ Prévias do PT provaram sua reconhecida avitaminose: gaúchos levaram mais de 20 mil pessoas à participação; aqui se o quórum (6.801) for atingido, será na ‘‘estica’’, independentemente do voto do vereador Stica. E isso reafirma a dificuldade de o partido fugir a uma dependência de Requião como puxador de votos e esperança de manter a atual representação, pelo menos, já que tudo indica que corre o risco de atrofiar.
Como é assim um estepe do PMDB, pode ser chamado de estepetê, o que nada tem de mal se considerarmos que são de idêntica origem. Lula é a favor do estepe. Tanto que disse que não poderiam ser candidatos a governador pelo partido pessoas que, se acidentadas na rua, fossem enterradas como indigentes.
É mais fácil a burguesia engolir o barbudo, do que este acertar escolhas. E normalmente Lula não dá uma dentro: queria o Plínio de Arruda Sampaio quando a vitoriosa foi a Luísa Erundina, e queria o Mercadante contra Erundina para o governo de São Paulo. Tudo, como sempre, em nome da moderação.

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