Para o grande empreendimento, tudo; para os do Paraná, sabugo! É exagerado, mas didático afirmá-lo: no momento em que mudamos o perfil de nossa economia aquilo que é caracteristicamente nosso vai para o saco. Alguém da Associação Comercial, da FIEP, dessas siglas portentosas do empresariado, já pensou no assunto e em profundidade? Pelo jeito não, pois o que se percebe de um modo geral é a anestesia do modelo globalizante, saudado, como se não se impondo à custa da quebradeira e do fim das nossas empresas.
O caso da Cocamar-Citrus se insere nessa linha de preocupação: iniciativa estratégica, ainda não suficientemente madura, a produção do suco cítrico era uma esperança para a região Noroeste, já tão abalada pela fatalidade geológica do arenito do Caiuá. Como os pomares poderiam desenvolver-se em propriedades pequenas, ao contrário do que se dá com a pecuária extensiva, e representavam um meio de proteger o solo e ainda por gerar uma atividade produtiva das mais modernas, saudava-se o fato como um ciclo libertador. Deve-se ainda considerar que São Paulo, com ardís, impediu que o Paraná pudesse desenvolver a citricultura com a farsa do cancro cítrico.
GRANDE ESCALA Numa sociedade capitalista e democrática, a grande escala da economia pode coexistir perfeitamente com a pequena escala e com a tecnologia apropriada ou alternativa. Tenho citado um fato inquestionável em referência à menor avenida do mundo, a Luis Xavier, de Curitiba, onde floresce a ‘‘Boca Maldita’’. Os dois prédios mais imponentes, expressão de esperança no futuro na época difícil em que foram assumidos (o Palácio Avenida, num canto da quadra, e o Edifício Garcez, na outra) hoje traduzem duas perdas: o Bamerindus, que está em mãos estrangeiras, e Hermes Macedo, que já foi a maior loja de departamentos da América Latina e que desapareceu.
Há mais por ali: no meio dos dois uma loja da quebrada (imprudentemente, diga-se, com o Banestado sofrendo prejuízo irrecuperável) Malas Ika, que tinha, como marca, expressão mais do que nacional. Há ainda a concordatária Mesbla, que substituiu o antigo Cine Ópera de Davi Carneiro, a combalida Alfaiataria Avenida. Agora, depois do Bamerindus, é a vez do Banestado. Na fila, como boi na hora do abate. O governador, que não teve autoridade e personalidade para negociar de forma menos perniciosa o impasse, acusa seus antecessores pela ‘‘quebra’’, ocultando que ajudou a fazê-lo também com as acrobacias de Osvaldo Santos na Leasing, e que continua a proteger como se fosse seu refém. Isso sem falar nas negociações de alto risco em cima dos títulos estaduais. Nada fez de sério e persistente para deter a degradação do banco. Ao contrário, comprometeu-o também com aventuras irresgatáveis, como a do empréstimo para os gaiatíssimos Jogos da Natureza.
O PARADOXO Não há um só paranaense que não esteja sensibilizado pela mudança em andamento na economia regional: fatores de agregação tecnológica e de intensificação de capital rompem com o casulo dos limites a que estávamos condicionados. Pergunta-se, no entanto: não era possível fazer isso com alguma salvaguarda para os interesses nacionais e regionais? O argumento de que se trata da fatalidade globalizante parece coisa inspirada, mas é da pasmaceira de um Sancho Pança, o que pega mal, ainda que ajustado ao físico, em alguém tido como criativo, como o nosso governador.
Lerner vai para a história, como já disse, como quem mais multinacionalizou e que mais desparanizou. Um exemplo é o do seu aliado de campanhas, empresário Sérgio Prosdócimo: a Refripar, sustentada em todas as etapas de sua evolução pelos bancos oficiais, pela poupança interna, acabou absorvida pela Electrolux, cujo empreendimento mais anunciado, o da nova fábrica em Fazenda Rio Grande, foi transferido porque as decisões vêm de fora para dentro.
Empresário que diante dessa situação ainda rí é possível que seu ritus seja mais do que uma sequela de derrame cerebral e não alegria. Também a euforia do nosso governador é mais neurológica do que autêntica. Ele quer fugir dos problemas políticos do Paraná, que trata com tantas trapalhadas, e para isso nada melhor do que um passeio em Rouen. E se trouxer novidades, elas podem, como as demais, representar mais perdas nacionais e paranaenses.
BIZARRICE Um médico proctologista de Curitiba se candidatou a deputado estadual. Bastou isso para que os gaiatos pusessem embaixo de sua propaganda: um dedo a serviço do povo. Não se elegeu, mas continuou atendendo o povo.
AXIOMA O Paraná só ganhava do Piauí nos indicadores sociais relativos a crianças fora de escola e já no mercado de trabalho. Lerner valeu-se desses dados para o seu discurso eleitoral. E agora, poeticamente, não pudemos segurar um ministério e o Piauí ganhou um que FHC teve que improvisar. Estamos por baixo. Não há autoestima que se sustente em tal quadro.
FOLCLORE Alguém lembrava na semana, quando da viagem do governador, daquela frase do Porfírio Dias sobre o ‘‘pobre’’ México: ‘‘Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos da América do Norte!’ Aí ouve a observação de que indo para Rouen, estaria ‘‘tão longe do Rafael Greca e do Aníbal Khury, mas tão perto do Carvalhinho’’.
ANÚNCIO Gente bacana do Paraná, dentre eles pessoal do primeiro escalão do governo e prefeitura da Capital, ficou devendo no Cassino Iguaçu, Argentina. A dívida de jogo é sagrada (para os pelotiqueiros, é claro) e os diretores da casa de tavolagem ameaçam botar o nome desse pessoal em notas públicas. Dívida vai de 20 mil a 100 mil dólares, segundo os cochichos. Não façam jogo, senhores.

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