Luiz Geraldo Mazza
Silvo da panela de pressão
O povo em maioria é pela reeleição de FHC, mas de má vontade com políticos. Daí o perigo dessa identificação do homem providencial (isso sempre ocorreu no Brasil, de Getúlio a Jânio, de JK a Jango, independentemente da variabilidade de estilos) ao lado da rejeição aos políticos como categoria cultural.
Assim, a correção da primeira postura com o direito à reeleição, pois os postulantes - Lula, Quércia, Maluf, Sarney, Itamar e equivalentes - parecem defender a tese de que todos eles, mais do que ninguém, têm o direito de escolher o adversário, é seguida de uma repulsão que abrange o campo institucional, especialmente o parlamento que ora se esfalfa em exercícios de fisiologismo, troca de favores, valendo-se do momento político em torno da obstinada cruzada de FHC. O fato é que tanto o Legislativo como o Executivo ajudam, por suas ações, a criar o ceticismo generalizado.
Vejamos alguns dados esparsos: o jornalista Renato Schaitza verberou o fato de o prefeito da Lapa receber R$ 8 mil e os vereadores R$ 2.500. Realmente algo chocante e que em nada recomenda o nível cívico da cidade e dos seus políticos. Dava até para mudar a imprecação de Manoel Ribas: Lapa, terra de heróis, berço de aproveitadores!
Boa parte da crise que atinge esse nível de governo resulta desses abusos aos quais se seguem quadros funcionais inflados. E as prefeituras, quebradas, querem que o governo estadual, também no vermelho, as salve sem mexer em nada, como excesso de secretarias e departamentos. Na prefeitura, que aliás não deveria existir, de Pontal do Paraná, há prefeito com um vencimento de R$ 7 mil e vereadores de R$ 3 mil, segundo os informes.
Uma das mais vigorosas ações de resistência a esses abusos parte de padres de Araucária que mobilizaram a população contra os ganhos dos vereadores que recebem R$ 4.500 e que os resistentes querem baixar para R$ 1 mil. Abaixo-assinado com 4.600 assinaturas instruirá medida judicial.
É o silvo da panela de pressão. Um povo só apura a democracia e as suas instituições quando parte para esse tipo de luta. Ele é tão relevante quanto aquele que mobilizou a sociedade pelo impeachment de Collor.
BIZARRICEEm Guaratuba há duas poluições, a do mar que está criando casos de hepatite e a do ar que enlouquece os banhistas e lhes tira o direito ao repouso. Um caminhão em promoção da Rádio Cidade e Drogamed, em frente ao setor mais edificado da praia, deita e rola em decibéis. E num outro ponto da praia dois conjuntos de som, em promoção da Skol, atazanam os ouvidos. Numa temporada passada, a prefeitura montou alto-falantes em toda a extensão, o que levou gente inconformada ao exercício de tiro contra os equipamentos. Agora o jornalista Cândido Gomes Chagas, revoltado, acha que se a Drogamed tem o direito de fazer isso também ele deve se estender à casa de tolerância existente na cidade balneária que também tem alvará.
SPRAYGente ligada ao movimento comunitário (que faz mutirão para asfalto com empreiteiras) está achando caro o preço de R$ 35 o metro do antipó que Cássio Taniguchi toca no Plano 1.000. - Por falar em prefeitura, o último balancete enviado à Câmara Municipal, da gestão Greca, foi o de setembro, segundo o PT. - Outra, esta da Câmara Municipal: em dezembro, para um orçamento de R$ 31,54 milhões, foram despendidos R$ 41 milhões. Como se vê uma espécie de teoria dos vasos comunicantes entre o Executivo e o Legislativo, pois o roto, afinal, não pode rir do remendado. E com isso um não fiscaliza o outro. - Desafiadora, no mínimo, a situação de Cássio Taniguchi como presidente da associação dos municípios metropolitanos. Afinal é sabido o conflito centro-periferia que envolve essas áreas e Curitiba, como Capital, tal qual se dá nas demais regiões metropolitanas, tem vantagens técnicas, culturais e políticas. Curitiba está com seus espaços esgotados e não dispõe de reservas de áreas de expansão, daí porque urge a gestão compartilhada e integrada. - No encontro das prefeituras abrangidas pelo Comunidade Solidária, o prefeito de Mato Rico declarou que baixou a mortalidade infantil de mais de 40 mortos por mil nascidos vivos para 3. Ora se isso for verdade, seu município, por esse feito superior a indicadores suíços, vai se transformar em comunidade solitária, já que ninguém detém tal indicador em todo o Paraná, quiçá o Brasil. -
FOLCLOREA morte do senador Roberto Caxias da novela O Rei do Gado teve maior impacto do que as de sem-terras ocorridas no Pará e Paraná. O virtual se torna mais forte que o real. O mais curioso é que senadores reais andavam mais preocupados com o fato de o Roberto Caxias pipocar diante da Chiquita do que por sua ingenuidade militante. Como ele chegou junto com a Chiquita os senadores, que lhe faziam restrições, passaram a aceitá-lo. Tanto na novela como na vida, não se sabe quantos mártires serão precisos para que haja, de uma vez, a reforma agrária. Uma constatação: quem se lembra do Teixeirinha e da mortandade de Campo Bonito, no que deu aqueles processos? À época todo mundo queria aparecer: Comissão de Direitos Humanos, OAB - e depois todos desapareceram. No caso da realidade virtual da novela, o senadores petistas, a Benedita e o Suplicy, pegaram uma pontinha prestando homenagem ao Roberto Caxias e ontem, na Folha de S.Paulo, outro, que se liga em espetáculo, o senador Darci Ribeiro, escreveu a sua coluna sobre o seu colega da ficção.
CROMOSe em cada ostra houvesse uma pérola, não se diria certamente ao político que caiu em desgraça que estava condenado ao ostracismo.
AFORÍSTICONunca diga desta água não beberei. É bíblico e verdadeiro: vide os senadores do PT orgulhosos de serem figurantes de uma novela da Globo. Fusão do real com o imaginário só é bonita em casos como o do filme de Woody Allen Rosa púrpura do Cairo.





