A oposição, na ausência de proposta alternativa à globalização e ao rumo da economia, promete justamente o que não pode fazer: desfazer acordos e pactos, como se o ato de governar não fosse uma continuidade. Acordos como os feitos com os investimentos (R$ 14 bi), que tirarão o Paraná da condição de economia periférica e de complementariedade à de São Paulo, e mais o que se celebrará entre Banestado e Banco Central, não podem ser rompidos unilateralmente como sugere a bravata emocional de Brizola que prometia, logo após sua eleição a presidente, acabar com a Rede Globo.
Está nítido que há intenção, nos dois casos, de desqualificar o governo com uma promessa absurda, ainda que haja aspectos críticos nessas questões e que poderiam, até documentalmente, comprometer Lerner, seja no aspecto leonino das concessões feitas para atrair montadoras até o detalhamento dos grupos ligados ao situacionismo que se beneficiariam como sócios não apenas nas indústrias em sí como nas satélites. Também na questão específica do Banestado uma varredura superficial arrolaria facilmente casos de passividade (escândalos da Leasing, imprudência na compra de títulos estaduais e ausência de garra nas negociações com as autoridades monetárias) e negociações perniciosas com devedores que pagam menos de um quarto do seu débito para fugir ao crédito em liquidação.
Mas se na questão do perfil de desenvolvimento adotado dá material abundante, como se viu ainda ontem com a ameaça de fechamento da fábrica Citrus, uma das esperanças de redenção do Noroeste, na do Banestado tudo o que cada um dos lados fizer redundará em prejuízo da instituição porque o lamaçal irá afetar, ainda mais, a imagem da empresa num momento delicado em que precisa fazer uma captação no mercado acima da sua rotina, em que pese a injeção de recursos programada. Apesar de os dois lados se dizerem defensores do banco, estarão agindo no melhor estilo Jim Jones. Um pouco de racionalidade não faria mal a ninguém, ainda que se saiba que eleições se abastecem do emocional.
BIZARRICE Um observador, presente ao lançamento da ‘‘Gazeta Mercantil Paranᒒ, notou que o senador Requião estava na platéia e que isso levaria Lerner a gaguejar. ‘‘Não acredito’’ - respondeu - ‘‘pois seria redundância. Ele gagueja sempre.’ Não gaguejou, mas suou nas mãos.
MEMÓRIA Há depoimentos curiosos sobre o golpe ( revolução, segundo Dreifus, o brasilianista uruguaio) ontem celebrado: Marcos Pinheiro Machado, por exemplo, viu tudo na condição de radioamador a pedido do Hélcio Borel du Vernay, que era oficial de gabinete de Ney Braga. Do rastreamento feito, que agora não é mais segredo, Marcos revela que o tenentista, general da reserva Cordeiro de Farias, obteve informes de movimento de unidades em Bagé para neutralizar Brizola, mobilização de fuzileiros em Florianópolis e uma cilada que armaram contra Castelo Branco. Um dado interessante: seu pai, historiador liberal e ex-interventor, Brasil Pinheiro Machado, o desaconselhou à colaboração.
SPRAY Acionistas, correntistas e trabalhadores do Banestado merecem uma ampla explicação sobre o saneamento e o futuro da organização. O governo perdea batalha da comunicação em todos os campos e nesse lhe será fatal.- Mercado é sensível demais para que o governo, autosuficiente como sempre, se acredite tão onipotente que dispensaria explicações.- Um dos detalhes relevantes é o dos casos pendentes de delitos e chunchos do passado e de agora (Leasing, por exemplo, de quem Lerner continua prisioneiro como num teatro de títeres). O saneamento será parcial se não chegar nessas questões.- O coronel Sérgio Malucelli, superintendente do Setcepar (transportadores de cargas), presidiu o encontro do Hotel Rayon, anteontem, que tratou do pedágio. Na hora ficou calado, mas depois no almoço chiou que os parâmetros das tarifas eram abusivos e colidiam com o sacrifício da desoneração fiscal (Lei Kandir). Como vi na sua situação algo parecido com Prometeu acorrentado, o jornalista Bernardo Bittencourt lembrou que ele cuidasse do fígado nas bebidas destiladas porque isso poderia ser pior do que as bicadas do urubu da mitologia.- Não há uma só pessoa que combata o pedágio pelo reconhecimento de que inexiste alternativa para a expansão e manutenção da malha viária, mas com aquele encontro ficou demonstrado que a solução veio de cima para baixo sem debate e a planilha foi imposta.- Neste caso como no do Banestado a batalha da comunicação pode ser o ‘‘calcanhar de Aquiles’’ do governo.- A apatia dos mestres universitários, na impossibilidade de mobilizar-se para a greve, é a marca melancólica da época de fragilização do trabalho agravada pelo quadro pré-recessivo.- Haja frescura neste governo: agora vão realizar em Guaíra jogos indígenas. Índios vivem o drama da decadência e da pobreza e o remédio do governo é lúdico. Gozador.
FOLCLORE 1Há um lugar, em que brevemente Jaime Lerner estará, em que as pesquisas não dão um só voto para Álvaro e Requião: Rouen, na França.
FOLCLORE 2Hoje, 1º de abril, ouça o governo (estadual, municipal, federal) que ele sempre tem a maior novidade e que rima com verdade.
CROMO Nada se cria, tudo se transforma: um belo anúncio institucional dos 305 anos de Curitiba decalcava um filme de Lamourisse, ‘‘O Balão Vermelho’’, e que dispensa texto como o teatro de Denise Stocklos. Como sempre o original comove muito mais e é mais verdadeiro.
AFORÍSTICO Deputados de oposição dizem que Aníbal Khury quebrou um juramento ao admitir a privatização do Banestado. Eles querem o caos, o ecossistema que lhes serve. Aníbal entendeu que entre o Juízo Final e o juízo afinal (e é o caso da privatização dos bancos estaduais) há forte diferença.

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