Luiz Geraldo Mazza
Pelas águas se conhece uma cidade. Afinal elas constituem o fundamento de vida, a linfa que dessedenta e que permite as abluções, que afasta a sujeira e que garante o lençol ao corar. Pois outro dia, com sua compulsão para o ornamento, o barroco e o rococó ao mesmo tempo, e por isso barrococó, Rafael Greca lançou seu livro de odes ao Iguaçu, hoje, como sabeis, uma cloaca máxima como diziam os romanos. É incrível como se idealiza o processo da cidade: transforma-se, como se tangida pela mão do rei Midas, o dejecto em diamante.
Iguaçu, rio-chave de Curitiba, em cujas nascentes aflorou a cidade (uns apontam a Vilinha no Atuba, mas o arqueólogo Igor Schimz sacou a tese de que poderia ter sido no Bacacheri, vejam só, o núcleo de ocupação primitivo), é bem a resposta à empulhação de que a Capital é ecológica. Lerner prometeu lá pelos anos 70, quando era mais imaginoso, devolver os lambaris do rabo vermelho ao rio Belém e isso quando implantava o Centro de Criatividade do São Lourenço. Não os tivemos nem de acrílico, matéria prima preferencial.
Na minha infância e adolescência me nutri das entranhas da cidade diante do mistério dos olhos dágua, tantos foram os que viajei: um, me lembro, em pleno campo do 5 de Maio na frente do estádio do Atlético; outro perto de onde está hoje o Centro Cívico, uma fonte de água mineral que o Aníbal Khury descobriu em prospecções perto do prédio da Assembléia e que hoje abastece a Casa.
Das águas o compromisso para a curtição com o glorioso e impávido Barigui, cuja toponimia nascia nos lábios trêmulos dos meninos encantados e se firmava no tempo: Volta Funda, lado direito da ponte, o mais procurado e animado pela magia do argumento incrível de que tinha um pinheiro, no fundo, em pé e no trajeto o Toco, que pelo nome dizia tudo, o de haver uma remanescente de árvore. Do lado esquerdo, a Princesinha, corredeira suave que parecia ter majestade real, mais adiante Carniça, certamente assim chamada por haverem flagrado um urubu a remover restos de animal rupestre, e mais na frente Panela, assim nominada por causa do formato. Nesse local, havia por lá um adulto chamado Sabiá que tinha a mania de cantar, imitando Vicente Celestino, e que a gurizada olhava com medo de ser um fancho, daí porque andavam em grupo. O Sabiá ia no alto de um toco de árvore e teatralizava como se fosse alguém que tivesse perdido o dinheiro no jogo (o Cassino Ahú era onde isso ocorria, outra água batismal) e se suicidava, lançando-se de mau jeito lá do alto na correnteza.
Mais do que o Amazonas ou o Yang-Tse-Kiang, para o nosso olhar lírico de quem brincava de Tarzan, o Barigui é outra evidência de que Curitiba está mais para escatológica do que para ecológica: até os anos 50 era possível nadar perto do Moinho do Weigert, hoje ocupado por instalações do grupo Trombini que montou, nos anos 80, um sistema de devolver ao curso do rio uma água melhor do que a captada, pois a despeito da existência do parque erguido por Lerner, a craqueira prevalece e continua e seus miasmas dão aos turistas uma visão em contraponto com a beleza do cenário, apesar do mau gosto daqueles pedalinhos em forma de cisnes, todos irmãos do Patinho Feio.
E essa água, com gosto, cheiro e cor, o que é uma contradição em termos para a definição, que toda a cidade bebe é a prova de que a química, mais do que a propaganda, é que torna possível seu uso.
Outro rio, muito ruim e tortuoso, da cidade é o da circulação, do tráfego e que é suficiente para demolir o mito de modelo. Não pode ser modelo urbano uma cidade que não cuida das suas águas e não mantém monitorada a circulação.
Se de um lado não é possível trazer de volta o lirismo, muito daquilo que o Dalton Trevisan cantou sobre o pregão das colonas de Santa Felicidade, dá para imaginar o que está para vir num ambiente sem controle das migrações e com uma gestão voltada para priorizar interesses de shoppings, super e hipermercados, de localização de escolas para lá de mercantilizadas, em detrimento da qualidade de vida e da memória histórica. O mais grave é que aquilo que mais agridem se transforma na mensagem que oferecem, hipocrisia sem tamanho. O que dizem não é o que fazem. Mas o povo, condicionado pela mídia, vê o que fazem como se fosse aquilo que dizem. Assim é Curitiba. Mas ela é o contrário da Esfinge, como já alertei: decifra os que pretendem devorá-la, o que muitas vezes é o ritual dos que a agridem, sugerindo que a defendem. Aquele extremado amor de mãe que asfixia o filho quando o abraça.
BIZARRICEPrefeito de Paranaguá aumentou em 21.357,77% as taxas de feirantes e um juiz derrubou, em liminar, a lei municipal pela qual o feirante pagaria a diária por uso do box de R$ 96,11 em lugar dos R$ 0,45 anteriores.
Síndrome litorânea. Vide o IPTU de Matinhos, Guaratuba e Pontal do Paraná.
SPRAYGrupo da RBS já estaria com uma tevê na praça. Depois dos CTGs só faltava essa.- O que vem de demagogia em cima do Banestado justificaria, desde logo, uma assepsia: se Lerner contar o que outros fizeram e estes o que a atual gestão fez, é caso de intervenção da cavalaria americana, aquela dos filmes do faroeste. Dinâmica de grupo é produtiva.- Só que o Toni Ramos vai ter que pular dessa para não comprometer a imagem, pois é tão paranaense quanto o Banestado.- Draga inicia logo engordamento em Matinhos.
FOLCLOREUm delegado fez piada com a observação do conselheiro João Féder sobre a diferença de preços em locações de carros: da mesma forma que num elevador cabem apenas dois Aníbal e dez Féder, não dá pra comparar veículo equipado da polícia com os da Sanepar.





