Luiz Geraldo Mazza
No meio da pobreza política do Brasil é reconfortante acompanhar um feito como o das prévias do PT no Rio Grande do Sul: mais de 20 mil votantes, diferença de pouco mais de uma centena de votos em favor de Olívio Dutra contra Tarso Genro. É melancólico ver esse partido nacionalmente ou no caso paranaense se confrontado com o feito gaúcho. Os dois disputantes são melhores do que Lula, mais articulados, mais palatáveis e menos marcados pela aura da derrota, isso sem falar numa ausência de punch sem a qual não se conquista coisa alguma.
O Rio Grande tem sido uma ilha de identidade e determinação neste País. Não é preciso ir ao passado remoto dos feitos farroupilhas ou os mais recentes como a existência do núcleo parlamentarista e até aquela passagem do Brizola, quando estava inserido no momento histórico, resistindo ao golpe militar que tentava impedir a posse de Jango. É o que há de mais consequente na esquerda brasileira.
Obviamente isso não veio por geração espontânea. Havia pré-condições que não existem aqui e nem no Rio de Janeiro, onde a persistência de um grupo mais radical, surfado pelo Vladmir Palmeira que hibernou na UNE, ameaça a aliança que se pretende erigir nacionalmente. E foi o exercício do poder em prefeituras importantes, que deu ao PT aquilo que não conseguiu em São Paulo, quer com a gestão de Luíza Erundina, quer com a de outras cidades de porte, isso sem falar naquela suspeita do chega mais do Lula com o seu compadre, aquele que lhe cede a casa para morar. O denunciante neste caso acabou vítima de expurgo no velho estilo soviético, guardadas as proporções e a dimensão carnavalesca das coisas que aqui ocorrem.
Enquanto os gaúchos têm nomes para presidente da República e governo estadual aqui soa anedótico a referência de alguém para a prefeitura de Curitiba, apesar do inegável avanço que foi a vitória de Cheida em Londrina. Aqui o PT é linha auxiliar do PMDB requianista, de quem não se libertou ainda do cordão umbilical. Por sinal que as candidaturas de simulação de Nedson Micheleti e Milena Martinez provam que o nanismo e o espírito assembleísta, aquele que marca os aparelhos estudantís, o descompromisso com a realidade, a viagem onírica do jogo à brinca, estão presentes nessa aventura sem sentido.
Resta-nos olhar essa estrela ao sul como uma esperança. Se importamos de lá a sugestão dos CTGs, embora tenhamos parte nessa origem, não custa acreditar.
AXIOMA Qual a diferença entre o clima da festa de ontem no Clube Curitibano em torno dos 25 anos da Cidade Industrial e os encontros da Arena e depois do PMDB, especialmente quando João Elísio assumiu o governo? O bolo e o glacê são os mesmos e os que gravitam em torno deles também. Não há globalização que mexa neste status quo. Irremovível como pedra de prefeitura.
BIZARRICE Tive uma experiência diferente ontem: bati papo com os alunos do Jardim l, gente de quatro aninhos, entre os quais o meu neto, Luisinho, do Colégio Expoente. Este ficou meio encabulado, embora tivesse, dois dias antes, prometido sair da sua cadeira e me beijar, logo à minha chegada, para que o vovô não ficasse apavolado.
Como ficou acertado entre nós que o bom é brincar contei de uma pescaria que fiz com meu filho, Sérgio, pai do Luisinho, quando tinha cerca de 10 anos, num rio de lajeado de Santa Catarina. E num momento coloquei a água do rio, linfa pura, na boca e passei a brincar de chafariz. De repente, pela refração da luz, pintaram os arco-íris no pedaço. Dizem que há um tesouro na base do arco-íris e havia, pois lá estávamos eu e o Sérgio e meu amigo Getúlio de Castro que me acompanha há quarenta anos em pescarias. A amizade e o companheirismo são o mais rico dos tesouros.
SPRAY Enquanto o mar estiver brabo, não começam operações da draga holandesa incumbida de fazer o engordamento. Vai operar em três quilômetros de praia a partir de Matinhos e extrair 300 mil metros cúbicos de areia que farão o enchimento.- A técnica já foi empregada em Copacabana com resultados por 10 anos. As praias pagam pelo corsarismo imobiliário e iniciativas burras como a da construção no governo Álvaro Dias da avenida Atlântica que avançou sobre restingas e dunas.- Há boa fundamentação técnica, mas continuo entendendo que fenômenos iguais aos de toda a orla sul deveriam ser objeto de avaliação, diagnóstico e projetos integrados.- Não é legítimo, como se fez em governos anteriores, dar prioridade a Caiobá como se deu com o estudo (sério, mas parcial) dos técnicos portugueses, prejudicado pela colocação dos horrendos gabiões.- As regulações formais do juri acabaram dando a impressão de que a imprensa e os demais meios de comunicação ficaram a favor da defesa no caso das bruxas.-
HERMA Construa-se uma herma ao espírito corporativo da Assembléia que deu solidariedade, pela maioria dos deputados, antes de examinar denúncias contra Hermas Brandão. Agora vieram as de Ivaiporã e de Jardim Alegre e certamente teremos outras. Quer dizer: o açodamento do legislativo, que já ocorrera antes da manifestação da Comissão Especial, havia tirado condição de julgamento por visível suspeição.
FOLCLORE Os pianistas - José Borba e Valdomiro Meger - devem ser cassados e por uma razão essencial: são do Paraná e um entregou o outro. Aquele lavrador dos nossos símbolos, com o alfanje à mão, não é ruralista não, mas um paranaense preparado para cortar a cabeça do primeiro que pretenda aparecer. A frase é de Joffre Cabral e vale até hoje, embora a simbologia tenha mudado e um paranaense, Chico Brito de Lacerda, a esteja contestando no STF.
AFORÍSTICO Tudo se desculpa hoje: a globalização ou o El Ni¤o explicam.





