Luiz Geraldo Mazza
Boato, embrião da verdade
Foi o presidente da Boca Maldita, Anfrísio Siqueira, que disse que o boato pode ser o embrião da verdade. Tal qual a máxima de Goebbels segundo a qual a mentira repetida se transforma em verdade, os pescadores de águas turvas da política volta e meia fazem seus exercícios de contra-informação ou operações especulativas jogando verde para colher maduro.
Uma reforma do secretariado, que deveria ser mini, aparecia como maxi nas especulações e direcionava-se a onda contra o secretário da Fazenda, Miguel Salomão, sob o falacioso argumento de que arrecadava mal. Ora, como toda mentira tem as pernas curtas, o relatório, ainda não definitivo das contas de 1996, mostra um crescimento de 25,7% nas receitas em relação a 1995. Embora atingido pela lei Kandir, só em ICMS a arrecadação foi de R$ 2 bilhões e 156 milhões, com um ganho de 16% comparativamente ao ano anterior.
Há setores descontentes com as ações de apuração de fraude com o ICMS e que permitiram o desbaratamento de gangues, algumas delas com relacionamento forte com o poder formal e as elites. Outros, inconformados com a imperiosidade de uma ação austera no campo financeiro (aí entra o Banestado igualmente), não se ajustam ao clima que nega espaços para o oba-oba dos empréstimos que jamais eram pagos e que afinal acabavam maquiados com o furor da inflação. Tanto que foi flagrada uma operação ruinosa, abortada pelo governo, que pretendia favorecer o grupo Atalla.
Ainda na sexta-feira o setor financeiro teve a coragem de levar a leilão um lote de ações da Copel, num momento em que as cotações se fixavam em R$ 7,40, e peitou esse quadro exigindo um preço mínimo de R$ 9. É que em novembro a cotação estava a R$ 9,90 e em dezembro caíra para R$ 7,41. A operação foi
bem-sucedida com a venda articulada com as bolsas do Rio e São Paulo e participantes do exterior e a maior parte das ações chegou a ser adquirida ao preço unitário de R$ 11,70, com o que o governo arrecadou, no trabalho de coordenadoria da Corretora Banestado, R$ 93 milhões, que serão investidos em infra-estrutura.
A circunstância momentânea de o Estado passar por um ajuste na transição entre inflação e um regime de moeda estável afetou o modelo de gestão financeira, agravado por um desequilíbrio nas despesas de custeio (76,8% da receita líquida destinada a pessoal e encargos) e a capacidade de investir chegou a 12,4% da receita (R$ 486 milhões 668 mil), o que para a conjuntura é mais do que razoável.
Da mesma forma que seria um absurdo, como se pretendia nas especulações, que Lubomir Ficinski deixasse a Secretaria de Desenvolvimento Urbano, logo ele que é consultor do Banco Mundial, hoje licenciado, e que se habilitou na área por seu trabalho no antigo PRAM. Teríamos um non sense se uma figura de expressão internacional, a despeito da sua timidez e modéstia, como Miguel Salomão, fosse substituído. Salomão veio para a Fazenda quando implantava, a serviço do Fundo Monetário Internacional, o Banco Central de Angola. Para os políticos primários essas credenciais são desprezíveis, principalmente, como se dá nesses dois casos, quando os titulares se recusam a fazer o cortejamento do assistencialismo, incompatível com o momento brasileiro.
BIZARRICEQuando FHC perdeu a linha ameaçando o PMDB, não foram poucos os que lembraram das suas precipitações anteriores como aquela em que disse a Boris Casoy não acreditar em Deus (para quem pede votos e é sociólogo se trata de falha inaceitável, beirando a arrogância) e a outra em que sentou na cadeira de prefeito de São Paulo, certo de que venceria Jânio. Essa de apelar ao grito das ruas lembra o ato de sentar antes do tempo - diz o Pedro Longo, do PMDB.
SPRAYParticipação do Paraná no ICMS da região sul saltou de 32,59% em 95 para 33,18% em 96. ICMS da terra é 5,5% do total nacional e de 5,9% no PIB. Segundo Salomão, isso se dá porque a energia elétrica e os derivados de petróleo aqui produzidos geram ICMS no Estado de destino. - A execução dos grandes devedores é complicada, lenta por método. Uma das causas do descontentamento contra o secretário da Fazenda resulta precisamente da redução da inadimplência em mais de 30%, cancelamento de créditos falsos (R$ 76 milhões) e R$ 84 milhões em autos de infração, auditorias em centenas de estabelecimentos e em nada menos de 70 mil contribuintes. FHC fala em voz das ruas e essa é o resmungo dos sonegadores inconformados. - Com a unidade de comando que se estabeleceu a partir da transferência, erradamente deferidas, de atribuições da Fazenda ao Planejamento o monitoramento vai se aperfeiçoar.-





