Luiz Geraldo Mazza
Que há necessidade urgente de uma alternativa ao confessionalismo da moda representado, principalmente, no caso de países em desenvolvimento, pela onda neoliberal, nem se discute. As formulações porém acabam repetindo quase sempre a burrice dos russos diante tanto das reformas de Gorbachev como das posturas de Yeltsin, ou então um aberto retorno ao passado com referenciais ao getulismo e ao patrimonialismo e delírios como o da montagem de um Estado com ilhas de aristocracia corporativa (Petrobrás, Vale, Banco do Brasil etc).
A crítica ao neoliberalismo é possível e necessária porque, em nosso caso em especial, ele se traduz como darwinismo social puro, já que sua articulação nega relevância à precarização do trabalho com a mesma postura que os antigos adotavam quando se examinava a sociedade escravocrata na perspectiva ética. Mas o que se vê é lastimável como produção intelectual: quando não há aberto xingamento ou anátema, no caso dos padres de esquerda, percebe-se a ausência de um corpo de doutrina, articulado, um pouquinho mais consistente do que aquele que o cientista político Roberto Mangabeira Unger vem colocando.
Dizer, como propõem os xiitas do PT regional, sem compromisso mínimo com a realidade, como se dá com os nanicos, que se coloque o reverso da lógica capitalista é apenas uma expressão entusiasmada, um jogo verbal, nada mais, porque fundamentá-lo e sustentá-lo num corpo orgânico é a questão. Existe, sim, um meio de equilibrar os pólos dessa equação: o radicalismo cívico, isso é o aprofundamento das práticas democráticas, é o caminho para manter, sob fundamentos civilizados, o capitalismo.
Dá nesse particular para lembrar uma definição de Norberto Bobbio sobre poder e direito. Poder e direito são duas faces da mesma moeda. O poder cria o direito e este o controla. Um processo dialético equivalente ao que se pode formular aos dois pólos - capitalismo e democracia - num estado de permanente tensão para ir construindo, no processo, um regime de reconstrução.
Uma coisa é o que o país pode ser e outra o que é em função da emergência. A abertura ao capital cosmopolita, imposição globalizante, não é fatalidade, mas ausência de alternativas para os estrangulamentos das dívidas públicas e ainda da impossibilidade de a médio prazo criarmos poupança interna. O governo se torna palatável ao capital externo com o anúncio das suas reformas, medidas de enxugamento do aparato estatal e, sobretudo, as privatizações. O modelo está valendo para subdesenvolvidos e para o primeiro mundo no esforço europeu para mexer nos fundamentos do Welfare State, o que não se faz, é lógico, sem desajustes.
Questões como o poder nacional e a hegemonia do trabalho (a rigor jamais existiu nem nos regimes socialistas quanto mais por aqui, embora constasse do discurso getulista e janguista) entre fatores da produção estão fora de qualquer cogitação minimamente racionalizada. O que não significa que devamos saudar tanto a globalização como o neoliberalismo como um maná bíblico porque em países periféricos como o nosso, tenso com seus desequilíbrios regionais e desníveis sociais, o ajuste é mais doloroso pela tendência de mais exclusão.
A rebelião é também um caminho como o da pseudo-guerrilha do MST que não pode e nem deve ser desprezado, mesmo que soe primitivo. Há aí muita demagogia, mas é sinal de ruptura ao conformismo que já tomou conta, por exemplo, da área sindical, submetida à paranóia do desemprego.
BIZARRICE Toca o telefone na Secretaria de Planejamento. A secretária explica que o doutor Alberto não está, mas não deve demorar porque deixou o paletó na cadeira. Aí veio o repique: Ponha, por favor, o paletó no fone.
SPRAY Nas próximas pesquisas Lerner vai perceber o quanto vale a pena fazer deslocamentos no interior: os desta semana foram produtivos ao ponto de assustarem os oposicionistas.- Álvaro Dias, pelo jeito, fica na Telepar até a hora da privatização, um processo que teria a sua marca testamentária. E é claro os bônus daí decorrentes.- Comitê Municipal do PCB aprovou por 5 a 2 a refiliação de Vladmir França, presidente do Sind-Servidores.- Ontem houve a conferência do partido para analisar a sucessão. Maioria com Requião. Mas o que é, afinal, maioria no partidão, menor ainda do que o minúsculo PPS?- Já tem estudioso de fenomenos psicossociais preparando tese, também no Paraná, sobre o fenômeno Ratinho na televisão.- Vereadores que foram alvo da campanha do governo Requião pela TV Educativa (Ligações Perigosas) ganharam na Justiça direito à indenização.- Agora quem está acionando tanto o governo como o senador é a ex-vereadora Rosa Maria Chiamulera.
FOLCLOREElísio Marques, anarquista tempo integral, pergunta quantos artistas locais daqueles premiados pelo Troféu Gralha Azul aparecerão no VII Festival de Teatro de Curitiba? E conclui que a exceção à regra é a iratiense-novaiorquina Denise Stoklos, 25 anos de estrada, mas cujo valor reconhecido internacionalmente meio que esmaece ao assumir o papel de saltimbanco chapa- branca como nos Jogos da Natureza e, ainda agora, no Memorial de Curitiba, no lançamento do livro de poemas do Rafael Greca.
CROMO Maceió: no mar verde opala, entre corais, como olho no meio do oceano, um aquário de águas rasas nos recebe na descida da jangada. Bombinhas, no sul, é a micro-miniatura desse universo, em que peixes multicoloridos se divertem comendo em nossas mãos.
AFORÍSTO Que tal um clone do Cássio Taniguchi no Palácio Iguaçu?





