O Brasil tem um calendário de fazer inveja a qualquer outro país nesse particular: o futebol, que ocupa as atenções o ano inteiro, as telenovelas, o Carnaval que também extrapola como se percebe no Nordeste (Olinda, Recife e Salvador, especialmente), praia, a curtição sexual, o mundo dos espetáculos, incluindo o da política, mais o jogo clandestino ou oficial - tudo, enfim, uma festa.
Neste ano há um ópio mais forte: a Copa do Mundo. É o momento de eucaristia cívica, em que se recupera o culto aos símbolos nacionais com o uso imoderado e até afrontoso para as normas do decreto que regula a liturgia da bandeira. Nos tempos de chumbo havia um setor à esquerda, primitiva quase sempre, por causa da sua relação congênita com o populismo, que achava delinquente torcer pelo Brasil quando aquela ‘‘alienação’’ só beneficiava a ditadura e mormente o poder militar-industrial dos Estados Unidos da América do Norte.
Quem se deleitaria com isso, por seu amor a esses climas, seria Nelson Rodrigues, que tentava fazer com a alma humana o que os espeleólogos fazem com as cavernas (vide ‘‘Vestido de Noiva’’). Dá para imaginar o drama do torcedor a sofrer, psicologicamente, tanto quanto a tortura física por amor a esse lado menos apolíneo, mais dionisíaco do modo de ser brasileiro, soltar-se e deixar-se levar pelos sentidos e é claro encarando o conflito dos engajados que pedem dedicação à causa até na hora da evacuação.
Assim, enquanto havia tortura e morte, os olhos azuis de Médice festejavam, como amante autêntico do esporte, a vitória da Copa que seria creditada à ditadura. Um dos equívocos dos engajados está na circunstância de que o povo não é aquilo que imaginam. Nas ‘‘Memórias do Cárcere’’ de Graciliano Ramos há a descrição dessa angústia do alinhado esperando que o povo na rua estivesse preparando a resistência. Na cabeça dessa gente não passa a idéia de que em plena Alemanha nazista, sob fogo inimigo, ou na Inglaterra bombardeada, o padeiro continuava atendendo a sua freguesia e a vida continuava...
O engajado pode, por isso mesmo, se tornar um chato, intolerável. Dá para imaginar o torturado, dividido, torcendo para que o Brasil fosse derrotado e com isso se ‘‘desalienasse’’ a sociedade (haja lugar comum e basbaquice), que passaria, conforme o tortuoso raciocínio a enxergar a realidade e, espanto dos espantos, a enxergar-se.
O que é tido como épico por uns e anedótico para outros integra o imaginário desses personagens. O ceticismo é um freio necessário para dosar exageros dessa ordem. Seríamos muito piores - dá para concluir - se fôssemos exigentes demais com a suposta racionalidade que raramente nos acompanha, convocados que estamos, no cotidiano, mais para a evasão do que para a monotonia do real.

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