O blefe impossível
A política é, por suas sinuosidades e dissimulações, algo muito parecido com o jogo de pôquer. No momento estamos percebendo claramente isso: tanto o governo como a suposta oposição, já que enquadrar o PMDB nessa linha é de um ridículo à toda prova, alegam que já ganharam a batalha da reeleição. Como o blefe só pode beneficiar um dos lados, espera-se que ele liquide dez vez com essa neurose que caminha em direção à paranóia.
O blefe de todos ao mesmo tempo é impossível, embora cada um jogue numa linha de interesse: o PMDB, chantageando abertamente a questão das eleições das mesas da Câmara e Senado, rompendo o acordo que tinha com o PFL em que esses partidos trocariam de posições, simplesmente, nas duas casas; o PSDB, tentando sugerir uma força que não tem; o PFL vendo a maneira de sugerir que ele mais do que qualquer outro é quem garante a governabilidade desde Tancredo para cá; o PPB, fingindo uma resistência, para dar nutrientes a Maluf e também garantir mais espaços cativos no governo. Um festival digno do herói sem caráter, Macunaíma, do imortal Mário de Andrade.
Oposição mesmo é exercida pelos nanicos à esquerda, que estão sem discurso e com um candidato estressado, destituídos de bússola e que mais uma vez nadam contra a correnteza da vontade popular, identificada mais com o Plano Real do que com qualquer outro anterior e personalizando em FHC, desde Itamar, o condutor do processo. Como a esquerda sempre, pelo menos no Brasil, esteve mimetizada, confundida, com o populismo, e que utilizava como bandeira-chave o refrão do custo de vida e dos salários defasados (isso muito antes do movimento da ‘panela vazia’ e sucedâneos, área de fácil combustão para a demagogia), a situação é difícil quando um pobre come galinha sem que um dos dois ou ambos estejam doentes.
Um cenário pobre como esse só pode favorecer o personalismo e especialmente o do presidente da República, a cada momento mais parecido, pela sua vaidade intelectual, a um monarca. A oposição, de um modo geral, sabe que a população em maioria quer a reeleição de FHC a quem tributa, até por força da mídia altamente mobilizada e como sempre condicionante e manipuladora, todos os méritos da estabilização. Sente-se no entanto manietada porque perdeu todas as referências doutrinárias, embora haja material crítico de sobra como o sinal recessivo, o desemprego e, sobretudo, a visão de futuro nada favorável que se pode extrair em função do descarte que se acentuará no capitalismo tardio que temos e que não conta com malhas mínimas de proteção social.
Junta-se, portanto, à caudal de fatores que favorecem FHC essa incompetência orgânica da oposição, essa impossibilidade de partir para a ação concreta e ficar na dependência de chicanices de aliados de ocasião. Não dará para esquecer que Lula, comovido, em meio ao agito emocional, via no incrível Paes de Andrade a imagem do Ulysses. E querendo elogiar acentuou uma analogia que é negativa para os dois, tanto para o ‘‘senhor diretas’’ como para o varão de Mombaça.
BIZARRICEO doutor Rosinha, justamente irritado com o caixeiro viajante da reeleição, que veio fazer palestra na Assembléia, o presidente da Radiobrás, Maurílio Ferreira Lima, sugeriu, com aquela visão conspiratória da história, que o FMI foi quem programou a reeleição de FHC. Gertrude Stein fez aquele verso-definição, carregado de essências: ‘‘Uma rosa é uma rosa é uma rosa’’. Dá para dizer ‘‘O doutor Rosinha é o doutor Rosinha é o doutor Rosinha.’’
SPRAYRetomado o tema de um porto privado no Pontal do Sul, valendo-se das condições excepcionais de profundidade e acesso próximo ao canal da Galheta. A dificuldade mais séria está na construção de estrada que corte caminho e em linha quase reta venha de Paranaguá em direção à Ponta do Poço. - Antonina saiu na frente com as duas iniciativas particulares, a da Flutrans, que tem equipamento ultramoderno e que utiliza escassa mão de obra, e a da família Leão na Pona do Félix. - O que se deu em Antonina, por ganhos até em produtividade, acaba levando os patrimonialistas a defenderem a manutenção do sistema viciado e parasitário de Paranaguá. Ocorre que um fiel de armazém da iniciativa privada recebe cerca de R$ 1.500 e um do Porto R$ 5.000. Quem raciocina no imediatismo das respostas comerciais, por exemplo o poder de compra do portuário, acaba entrando na fria de ficar a favor da inércia e do corporativismo. - Cristina Von Glen, coordenadora da Central de Transplantes, deu um depoimento sereno e claro sobre a inviabilidade da lei das doações do Senado: explica que a despeito da estatística de Curitiba, elevadíssima, até em confronto com países do Primeiro Mundo, há problemas de conservação desses órgãos e que apenas 35% são aproveitados. Nem sempre uma idéia generosa é bem proposta: classe médica reage e argumenta ainda que o sistema público do SUS não teria condições de dar respaldo à iniciativa por ausência óbvia de recursos.
FOLCLOREDirigentes do Colégio Bom Jesus, que fez cem anos em 1996, vão pedir a Rafael Greca na Secretaria do Meio Ambiente, lá no Barigui, que auxilie a instituição na pintura do prédio. No meio da conversa, Greca dá um grito bem alto: ‘‘Gata! Gata!’’ Dentro em pouco entra na sala, com o sorriso permanente, a primeira dama Margarita, atendendo ao chamado.
CROMOHavia na rua Paula Gomes uma senhora que não nos devolvia as bolas que caiam em seu jardim e à noite a imaginavámos como uma bruxa, punhal à mão, assassinando a pelota de couro ou de borracha. E como sangravam, mais do que as lágrimas dos que perdiam a bola. Não era vingança: mas quantas vidraças nós quebramos!

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