Por tudo o que se viu na CPI dos Precatórios, percebeu-se que os governos se valiam dos débitos judiciais, devidamente ajustados em orçamento, para gerar recursos por essa via tortuosa. Embora não haja como demonstrá-lo, o Paraná esteve a pique de entrar nessa, em função da situação dramática das finanças, fato aliás até hoje imperante e que se constitui no maior dos pontos de estrangulamento da gestão Lerner.
O Estado, ente de Direito Público, é tradicional caloteiro: vale-se do seu poder imperial para subjugar os credores de desapropriações, indenizações de variada natureza. O Judiciário, até por imposição da linha divisória entre poderes, que só em termos puros funciona conforme o diagrama de Montesquieu, age como lã entre vidros nessas questões porque está consciente da gravidade da conjuntura. Tanto que ele próprio não cumpre decisão judicial do STF, que beneficia seus servidores com direito a reposições acumuladas referentes ao exercício de 1992. A teoria na prática é outra, conforme Joelmir Beting.
Essa ‘‘mina’’ de dinheiro que os governos improvisaram em meio a uma crise sem precedentes era algo mais concreto do que o tesouro do pirata Zulmiro e muitos deitaram e rolaram, achando que a emergência justificava tanto técnica quanto moralmente a sua adoção. Aliás, o governo paranaense, conforme ficou demonstrado, é cioso demais com relação tanto à dívida interna quanto à externa. Políticos como Requião, que teve papel destacado na CPI, tentam, de toda a forma, ‘‘dramatizar’’ o quadro, o que é legítimo, desde que adotado um mínimo de prudências, o que pode, em última análise, levar à correção.
Há, no entanto, coisas assustadoras como essa medida da semana passada do BCN ao pretender o ‘‘impeachment’’ de Lerner na base do ‘‘grito’’ de um informe da existência de precatório da CR Almeida, da ordem de R$ 2,6 bilhões até hoje não honrados. Ocorre que o governo paranaense tem uma pendência com a União, que além de haver usado a estrada e não ter pago, chegou ao extremo de privatizá-la sem qualquer cerimônia. A empreiteira quer receber o seu e isso, aliás, é um bom argumento para eximí-la da responsabilidade de pagar R$ 52,5 milhões que deve ao INSS, e que poderia impedí-la de participar de licitações e ganhar essa árvore de Natal que é a BR-277 e com extensão até as praias.
Cada um se vira como pode e quem não pode se sacode, como assegura o velho e manjado dito popular. Os que se sacudiram usando de forma cavilosa os débitos judiciais para suprir sua falta de meios para investimentos receberam, é claro, a assistência de consultores como o Wagner Ramos da prefeitura paulista e que geria a Dívida Pública, isso sem falar nos ansiosos intermediários com suas roupas impecáveis, a pasta 007, ‘‘picaretas’’ posando de executivos.
O Paraná tem um bom perfil de dívida, mas internamente sua imagem de mau pagador cada vez mais se acentua em função da decolagem da crise. E da lista de credores, uma das mais proteladas é a dos precatórios. Houve época em que se acusava ‘‘furo’’ na ordem de presença, mas hoje um acordo com o Judiciário botou mais seriedade na questão. Assim mesmo atrasa e como! Daí não assustar o fato de volta e meia pingarem pedidos de intervenção federal que o governo responde com frieza olímpica, certo de que o tempo, mais do que o senhor da razão, é o seu grande aliado nas artes de empurrar com a barriga.
BIZARRICE No Estação Plaza Show, em dezembro passado, caiu um painel luminoso na cabeça de um adolescente que imediatamente foi atendido pela organização, aliás rápida nesses casos como nos de segurança. Na pré-inauguração apanharam mais de 40 ‘‘penetras’’ que ousaram transpor os alambrados, quase tão arriscados quanto a escala do Aconcágua . Na terça-feira da semana passada, Inglaterra, Palácio de Buckingan, em solenidade em que estava presente a Rainha Elizabeth, um alto-relevo de gesso despencou do teto e atingiu um convidado. Tanto o lazer como o protocolo solene estão expostos à mesma coisa. O mais comum dos registros, porque diário, é do Edifício Tijucas em Curitiba, em que moradores lançam objetos e urina sobre os transeuntes da avenida Luís Xavier.
SPRAY Como a campanha eleitoral promete ser de uma sordidez exemplar, está subindo e muito o valor dos autores de documentos apócrifos, cartas anônimas e especialistas em fazer montagens de certidões.- Já nem todos os setores técnicos e profissionais de uma campanha estarão supervalorizados porque os casos de Collor, CPI do Orçamento e o dos Precatórios criaram retraimento natural nos habituais financiadores, como empreiteiros e outros campos da clientela e isso tornará o investimento curto.- Aquela inflação para equipes de televisão e marqueteiros, a maioria improvisada, não haverá com o derrame de dólares que ainda foi perceptível até mesmo nas eleições municipais.- Também aí o poder estadual leva vantagem porque ainda tem horizonte como o da concessão das rodovias, isso sem falar naqueles que gravitam em torno das empresas estatais como a Copel, Sanepar, Codapar (gestão financeira do Paraná 12 Meses, por exemplo).- Já a oposição, à exceção de Álvaro Dias, que é bem aceito, teria as maiores dificuldades para fazer o seu ‘‘livro-ouro’’ das contribuições.-
Paranóia em torno de edifícios inseguros levou muita gente, semana passada, a pedir assistência de bombeiros por nada. Uma das mais complicadas foi a da Escola de Belas Artes.
FOLCLORE Curitiba nos anos 50, com o escândalo dos menores, descobriu que as mocinhas da classe média ‘‘davam’’ e reagiu com um espanto que não teria diante de um ET. O advogado dos aliciadores fazia com que as indiciadas pusessem nomes da alta roda entre os frequentadores. Uma autoridade pública foi chamada nos depoimentos de ‘‘linguinha de ouro’’ e a onda rendeu alguns desquites. Curitiba vitoriana descobria o sexo, a droga e o rock.

mockup