Luiz Geraldo Mazza
O tema é obsessivo: a circunstância de o Paraná ter menos identidade cultural do que Rio Grande do Sul e Santa Catarina no Brasil meridional é para mim um dos fatores limitativos do nosso deslanche político. Se é verdade que temos um painel mais rico de contribuições brasileiras e internacionais, vale dizer as de caráter étnico, o que levou Wilson Martins ao seu O Brasil Diferente, chegando ao exagero radical de negar a herança lusitana conforme a visão de Gilberto Freire e de tantos outros (a interferência, o corte a que se refere o ensaísta se dá justamente da metade do século passado em diante) somos aquilo que Brasil Pinheiro Machado definiu incaracterísticos até na geografia.
Diariamente tropeçamos nessa necessidade de retomar raízes para evitar que a amnésia e a diluição civilizatória (a dispersão, a desagregação cosmopolita e dominante que perturba os processos de aculturação) apaguem de vez alguns dos nossos traços. Quem assistiu as Olimpíadas de Seul deve ter percebido que aquele povo assimilou a tecnologia sem abrir mão das suas características: junto com o espetáculo de raio laser e dos sinais de modernidade vimos o dado afirmativo da cultura autóctone nas danças, nos ritos e no folclore.
Além dos riscos permanentes surgiu um novo: o grupo empresarial RBS, do Rio Grande do Sul, da família Sirotsky, está, há muito tempo, interessado em chegar ao nosso mercado. Nada há que impeça, embora muita gente, que vê nos CTGs o risco de um pan-gauchismo, se mostre preocupada como se deu, lá pelos anos 30, a reação dos tradicionalistas curitibanos com a chegada de políticos de fora e essa idiossincrasia chegou a tais extremos que não percebiam que o interventor Manoel Ribas, embora vindo da cooperativa de Santa Maria por ordem do próprio Getúlio Vargas, era originário de Ponta Grossa.
Até que ponto os grupos que operam na área têm dado esse testemunho vivido de vinculação às raízes? A contribuição da RBS na reconstituição histórica de Santa Catarina é obra que aqui nem o governo faria. Aliás o governo, de um modo geral nessas questões, é nulo. Haja vista para um detalhe: Santa Catarina não apenas ganhou a guerra político-jurídica do Contestado como a vence e a sustenta no plano histórico. Apesar do excelente romance de Noel Nascimento Casa Verde, do filme de Sílvio Back A Guerra dos Pelados, e de alguns ensaios históricos e da maravilhosa coleção de telas de Vera Reichmann, que captou nas cores e nas cenas o tom messiânico da luta camponesa, perdemos de longe dos nossos vizinhos, tanto no dado estético-literário quanto no rigor da documentação histórica.
Em princípio é relevante que um grupo paranaense, no caso o que responde pela Globo no Paraná e que tem concessões de rádio e um grande jornal, mantenha o seu domínio na área. Como o ideal seria que nessa abertura de Lerner com a chegada do empresário externo se preservasse, quanto possível, organizações da terra, já que vai ser marcado como quem multinacionalizou e, a um só tempo, desparanizou.
Incrível é que esses dirigentes de Associação Comercial, FIEP, FAEP, não se ocupem, de forma sistemática, da questão e não somente no lado econômico, mas com forte abrangência do dado cultural. O próprio governador, empolgado com a transformação cosmopolita, parece desprezar a necessidade de uma reflexão menos superficial sobre o assunto.
BIZARRICE Quando da agressão verbal ao senador Requião pelo cartorário Júlio Jacob, a cena, aparentente apaziguadora, mas que deu o tom teatral, com visão de esquete, foi do Miguel Angel Gutierrez, figura popularíssima da Boca Maldita de Curitiba, ao apor na cabeça do desafeto do ex-governador, um cone de trânsito como se o coroasse. Teatro mambembe puro e em cima do Carnaval.
SPRAY Com as viagens mais seguidas ao interior, o governador Jaime Lerner está recuperando o tempo perdido, queimando etapas. No início da semana, por exemplo, foi a Campo Tenente quando na anterior havia estado no Sudoeste e Centro Norte.- O fundamental é que além de inaugurar obras (vilas rurais e os programas de desfavelização, escolas, etc) e baixar ordens de serviço faz reuniões microrregionais com lideranças. A oposição sofre um arrastão nos seus quadros de prefeitos, como se vê no PDT, onde grande parte continua com Lerner; no PSDB, no qual detém as mais importantes prefeituras, e no PMDB, em que é cada vez maior o número de adesões à tese da reeleição.- Assim o apelo publicitário de Álvaro Dias na base de Paraná por inteiro, se pegava até a campanha municipal agora está claramente desatualizado.- Apesar da definição, ainda que não tanto segura, do PMDB nacional, este partido corre o risco de desintegrar-se por não suportar ficar tanto tempo longe do governo, fator que justamente animou os que defenderam a tese da reeleição de FHC.-
FOLCLORE Numa eleição em Santa Catarina fizeram o comício comum dos dois candidatos. O primeiro falou que como o seu adversário havia chegado na região quando ela era coberta de florestas e como ele ali se estabeleceu, casou e manteve a família. Só que o meu adversário tem uma mulher aqui e outra no município vizinho. O adversário pegou a palavra, reafirmando que, de fato, como o seu opositor, chegou ali quando tudo era floresta e com ele ajudou a derrubá-la. Como ele ali se radicou, casou e teve filhos. De fato, disse, tinha duas mulheres, mas com o seu adversário se dava o pior: a esposa tinha dois maridos, tal qual a Dona Flor do Jorge Amado. Ganhou o bígamo. É muito cedo para a poliandria, a despeito da onda do mulherio.
CROMO A aranha tece na manhã, mas ao orvalho se deve a obra de arte, essa improvisada bijuteria de luz.





