Ao deixar de lado as suas pulsões cosmopolitas, vontade de andar por Paris e arredores, e entregar-se de corpo e alma ao ato de pisar no barro e de comer o pó das estradas do interior, o brilho de campanário de Barra do Jacaré, Lerner se habilita a ganhar as eleições no primeiro turno. Com isso recupera a sua imagem, muita abalada pela forte exploração da campanha municipal de que só cuidava da Região Metropolitana, e que o levou a aquele desembarque em Londrina para garantir a vitória de Belinati sobre Hauly. Isso lhe custou, de certa forma, o ressentimento dos derrotados que lhe deram aquele tombo na sua desastrada tentativa de chegar ao ninho tucano.
O cacife do governador melhorou consideravelmente e por uma razão singela: a de que faz a sua recuperação em cima de obras ou de autorizações de serviço para atender demandas antigas de várias regiões do Estado. Isso se viu não apenas no fim da semana passada como ainda no ato de ontem na inauguração da fábrica de venezianas em Campo do Tenente. Para que se tenha uma idéia do que um empreendimento desses representa em polarização, basta lembrar que dentre os 714 que se alistaram como candidatos aos 70 empregos havia gente até de São Bento do Sul. Essa mobilidade ocorreu também em Pien com as obras da Tafisa. Se for possível irrigar todas as regiões do Paraná com novos investimentos, teremos um esforço de difusão espacial de bem-estar e ainda por cima a correção de desequilíbrios que pareciam se acentuar com a concentração, de traço excessivo, na Região Metropolitana e no eixo Curitiba-Ponta Grossa.
Além disso, o governo consolida apoios de prefeitos como os de Campo Mourão, liderança nova e ainda vinculado ao PSDB como Jairo Ginotto, de Maringá, que também adota linha igual. Ao romper com a inércia, ao inaugurar vilas rurais, programas de desfavelamento, instalar barracões industriais, tocar uma ação de fôlego como a dos anéis de integração pela iniciativa privada, Lerner melhora muito a sua credibilidade, a despeito dos inúmeros aspectos negativos do seu governo, dentre eles a mania do calote em função das finanças em crise.
Outro detalhe: qualquer risco à aliança de sustentação do governo FHC, como o racha decorrente da convenção de anteontem do PMDB, tende a favorecê-lo na medida em que tornará indispensável a aproximação do PFL com o PSDB, mesmo onde isso pareça impossível como na Bahia. A pesquisa ‘Vox Populi’ ainda não é argumento suficiente. Indispensável que se conheça a de outros institutos para que se faça estudo analógico entre indicadores e métodos desiguais.
BIZARRICE No Ginásio Paranaense havia surrealismo o tempo todo: o Cândido, bedel, dormia, a três por dois, no pátio e o Kit Abdala organizava uma toada, de traço africano, com o ruído crescente até despertar o funcionário; o professor Homero Batista de Barros lia um jornal todo furado com o que frestava os alunos que ‘‘colavam’’ na prova; o professor Macedo, de Desenho, atirava o apagador, régua, compasso, nos bagunceiros da sala. Que saudade!
SPRAY Negócio imobiliário da Fundacentro nas imediações do Centro Cívico estaria para ser anulado, a despeito de algumas resistências políticas.- Há confiança no funcionalismo, e dentre eles os professores, no sentido de que já em abril voltem as consignações do contracheque, o que tiraria sindicatos de um sufoco insuportável. A liminar do desembargador Dilmar Kessler está bem fundamentada.- Sindicato que abriga trabalhadores da empreiteira Siemaco comanda greve em Faxinal do Céu por causa de salários atrasados e dispensas de operários que fazem denúncia na DRT.- Situação social, como se percebe, está muito esgarçada. Há temor de perder emprego, daí a dificuldade de mobilizar para greve como se viu na dos professores da Universidade Federal do Paraná, que decidiram numa assembléia em que havia pouco mais de 40 participantes. Isso vai muito além da apatia para tornar-se a falta de esperanças.- Senac promove de 16 a 18 do corrente (19h às 22 h) um curso sobre descoberta de fraudes. Poderiam convocar para aulas práticas os expoentes da Leasing e a gangue de empresários que fajutaram o ICMS.- Alguns vereadores de Curitiba estão irados com as denúncias de Maria do Rocio Delgado, codinome empregado, que numa das cartas recentes (e aí reside a maior bronca) sugeriu que o extra que vinha do cartel dos transportes foi assumido pela prefeitura e não apenas por via orçamentária. Não há provas documentais, mas recortes de atos oficiais e acusações genéricas numa colagem aparentemente coerente. A Câmara quer ação policial para descobrir a origem da campanha.- Meios de Comunicação Social comprometidos acabam valorizando esses métodos e também o jornalismo chamado marrom, ainda que indesejado. A unanimidade no noticiário também é burra. E mais do que isso altamente suspeita.-
FOLCLORE O secretário de Segurança, Rubens Tanure, pode chegar à glória com um feito bastante singelo: a autoria do atentado sofrido pelo seu antecessor, Cândido Martins de Oliveira, hoje na Casa Civil. Afinal, atentar contra o titular da área é tão ou mais grave do que um ataque como o dos sem-terra contra a unidade da Polícia Militar em Pitanga.
CROMO No verde musgo das águas do Passeio Público um sinal precoce de morte: as algas roubam o oxigênio do açude, os peixes buscam o ar impossível e na parede um cartaz fala da Curitiba ecológica.
AFORÍSTICO Na convenção do PMDB houve quem lembrasse da ágora grega como se ali estivesse toda a cidadania e não uma parte (partido) dela, ainda por cima extremamente tensa e dividida.
GLOSA E como dizia aquele sábio: ‘‘Depois da tempestade vem o ciclone’’. Não se referia a convenções partidárias.

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