Para muitos hoje é o divisor de águas do PMDB, agremiação que veio para dar tom de eternidade ao provisório MDB. A matriz nada tem a ver com o saco de gatos de hoje, pois era uma frente que abrigava tendências que iam do ultravioleta à direita ao infravermelho da esquerda no espectro ideológico, e ao meio toda gama de matizes.
O senador Roberto Requião vai mais longe e acha que é jogado em Brasília mais do que o destino do PMDB para constituir-se numa definição sobre o futuro do Brasil. Se Plínio Salgado, aquele que liderava os ‘‘galinhas verdes’’ do PRP integralista, o afirmasse, estava dentro das pulsões retóricas habituais. Se é verdade que o futuro do Brasil é decidido no dia a dia, o PMDB, há tempo, deixou de ser um referencial sério em termos doutrinários e parece vocacionado para o viver transitório. O PT tem mais chama e perspectiva.
Ao Lula interessa naturalmente que o PMDB tenha candidato próprio para ser o que foi o Brizola para ele naquele pleito vencido pelo Collor. Oportunismo não é pecado em se tratando de política. Os que olham a política pela via regional e querem a reeleição de Lerner até andam torcendo para que a tese da candidatura própria seja vitoriosa porque isso inviabilizaria o circo interno da frente de oposições e tornaria possível uma aproximação PFL e PSDB.
O conflito nada tem de doutrinário, embora esteja fazendo aflorar coisas absolutamente arcaicas e fossilizadas como do nacionalismo à ausência de algo articulado, pensado, sobre alternativas ao neoliberalismo e à globalização. Há ruído e não pensamento nas colocações feitas, ainda que ganhem respeito quando partem de uma figura como Barbosa Lima Sobrinho.
Vai ser uma insuportável maratona de lugares comuns: de um lado o pragmatismo sem pudor dos defensores da reeleição e de outro um neogetulismo requentado, mal alinhavado. O brilho apenas das galerias e do agito lá fora das brigadas do MR-8 em possível confronto com as falanges do Roriz dos subempregados e favelados, lúmpens e excluídos da periferia brasiliense. Teatro mambembe que todavia parecerá épico aos que dele participarem, na medida em que se acreditarem, uns e outros, os mensageiros do amanhã.
BIZARRICE Espiridião Feres era o presidente da Federação Paranaense de Futebol. Atleticano doente, ficava com aquela cara de Basil Rathbone, olheiras fundas, desfilando junto ao alambrado. Num dia não suportou ao discordar de marcação do juiz contra os interesses do seu time e arremessou, com a elegância de um atleta que projeta dardos, o seu guarda-chuva que ficou enterrado de bico lá na grama. De repente chove e ele se dirige nervoso ao gandula para que lhe devolva o guarda-chuva.
SPRAY Nesta terça-feira, os judiciários vão ter a decisão da ação que tenta levar o TJ a cumprir decisão do STF, que lhes concedeu a reposição salarial de cerca de 65% do ano de 1992.- Há um complicador porque o desembargador Luiz Perrotti votou pela extinção do feito, entendendo que havia ilegitimidade de parte porque o sindicato não tinha autorização expressa da Assembléia para ingressar com a ação.- Servidores estaduais ainda eufóricos com a liminar obrigando o governo a fazer os descontos sindicais em folha. Se o governo recorrer, vai ficar antipático.- Carga contra a Câmara Municipal de Curitiba em cartas apócrifas continua. Acusação genérica: antes o sindicato dos transportes suplementava o ganho dos vereadores, agora quem o faz é a prefeitura, via orçamentária.- Imprensa nacional volta a analisar a questão de gastos com a propaganda em todo o Brasil. Aqui se tenta, inutilmente, fazer ‘‘caixa preta’’ em torno do assunto.- O nosso Tribunal de Contas, às vezes, parece estar se especializando em arqueologia, suscitando problemas que já devia ter examinado, como o caso do Banco del Paraná, e o da Cavo na questão do lixo em Curitiba.- Quem for à Copa do Mundo pode fazer um cursinho de ‘‘francês para viagem’’ no Senac, de 17 de março a 15 de maio, das 18h às 20h.- Semana passada tomaram posse novos juízes de Direito de Iporã, Coronel Vivida e Centenário do Sul.- Paraná, primeiro em custo de cesta básica e terceiro em crianças em idade escolar no mercado de trabalho e em desempregados. Números que podem ser usados na campanha eleitoral.-
MEMÓRIA Requião disse que não acatará a convenção se ela for pela reeleição. Já naquela em que Quércia foi entronizado e sob o desafio, Requião também deixou de participar. Isso também aconteceu com Álvaro Dias quando disputou a convenção que consagrou Ulysses. Nos dois casos o personalismo mostra o quanto difere a estrutura partidária brasileira das de outros países. No último pleito para o governo estadual, Requião cuidou de sua campanha senatorial, mas foi acusado pelos tucanos de hoje de não mover uma palha por Álvaro Dias.
FOLCLORE O cabo eleitoral entra na casa de João Mansur (que iria perder para Leite Chaves na campanha senatorial entre Arena e MDB) e o vê diante da TV.
-Firme, Mansur?
-Não. Futibor.
CROMO Mesmo com os gerânios enlouquecidos e agigantados, os vegetais rodopiando como a lua, não dá para imaginar as paisagens de Van Gogh sob mais tensão do que aquela que o pintor transmitia.
AFORÍSTICO A crueldade de Carlos Lacerda faz falta na política nacional: quem faria uma imagem como aquela em cima do elegantíssimo e ministro Napoleão Alencastro Guimarães, de que tinha a postura de um senador romano e o cérebro de Primo Carnera? De Castelo Branco ele disse que era feio por fora e mais ainda por dentro.

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