Um referendo abrangente
Querem ver o sistema assanhado e cosmopolita dançar miudinho? Basta incluir no referendo ou no plebiscito sobre a reeleição alguns desses autos de fé da moda, inquestionáveis, como a privatização ou a venda da Vale do Rio Doce e veremos o presidente FHC mais irritado do que quando sofreu a chantagem do PMDB em sua convenção.
O líder do PT no Senado, José Eduardo Dutra, tem proposta para que a matéria passe pelo crivo do Congresso, o que evidentemente não interessa ao governo no seu empenho em mostrar-se palatável à ‘‘modernidade’’ que ameaça nos transformar num entreposto. Com a Petrobrás o governo age com mais cautela, embora tenha esmagado a resistência dos petroleiros, o que poderia animá-lo a remover as restrições à competição e os espaços cativos da estatal, que aliás se pretende neste momento. A ironia nisso tudo é que o pai de FHC foi um dos líderes históricos da criação da Petrobrás ao lado dos generais Horta Barbosa, Carnaúba, Buxbaum, seus colegas de farda.
O ministro Kandir, quando tomou conhecimento das novas jazidas da Vale, no sul do Pará, que obrigariam minimamente o governo a uma revisão provisória de postura, se apressou em dizer que estabeleceria cláusula para que descobertas pagassem uma espécie de royaltie a uma fundação que, por sua vez, fomentaria o desenvolvimento, via iniciativa privada. Como diria o Heródoto Barbeiro, isso lembra logomaquia flácida para bovino dormitar, ou melhor, conversa mole para boi dormir.
Percebe-se na rapidez com que se dá respostas o ânimo de ficar bem com a clientela externa. A coisa é tão absurda que estatais de fora, abjuradas aqui dentro, ganham concessões, como se deu com a Light do Rio num leilão vencido por uma empresa pública do exterior e como ocorre no caso específico da vinda da Renault ao Paraná.
O governo nem pensa nessa hipótese, pois sabe que no Uruguai se deu justamente o inesperado: pesquisas davam como certo o apoio do plebiscito às privatizações e na hora do pega pra capar aconteceu o contrário. Para efeito de simulação seria divertido a acoplagem da reeleição com a venda da Vale. Um vale que o Palácio Alvorada não gostaria de pagar.
BIZARRICE O governo é frágil às fofocas, boatos e contrainformação. Vê-se agora na especulação desenfreada de mudanças no secretariado de Lerner. Uma vez Lupion declarou que não poderia estar dando respostas a leviandades que viessem da Boca Maldita. E foi nesse cenário que o governador Parigot de Souza, minado pelo câncer, debilitadíssimo, apareceu um dia como resposta de que não estava assinando os atos de governo. Em 64, quando a Boca era mais atuante, Anfrísio Siqueira, seu presidente, aterrorizava os SNI, DOPS e congêneres divulgando em xerox depoimentos na CGI (Comissão Geral de Investigações) e ‘‘trutas’’ do Tribunal de Contas.
SPRAY Um sanitarista declarou à Rádio Exclusiva que há um surto de hepatite tipo ‘‘A’’ em balneários como os de Camboriu e Guaratuba. Urge levar mais a sério a questão da contaminação pelos coliformes. - Cinco encapuzados invadiram, pela manhã, uma agência do Itaú, logo na abertura, e levaram o dinheiro, ainda que perseguidos por quatro viaturas da PM. Curitiba virou mini-Chicago. - Três bandidos roubaram à tarde um carro no terminal da Boa Vista, duzentos metros de um módulo policial. Mais uma Chicagada. - Férias de dois meses nas instituições que atendem excepcionais preocupam os pais que acham que um pouco de criatividade na escala de funcionários resolveria. - Violência na Giacomet-Marodin é estranha, por uma razão: o fato se dá às vésperas de uma ação do Incra em desapropriação parcial e quando os proprietários vinham suportando tudo com relativo ‘‘fair play’’. Mais um problema para uma secretaria saturada, a de Segurança, e que parece bem maior do que o de Santa Izabel do Ivaí, que botou o governo em crise, pois agora a estatística é de duas mortes e seis desaparecidos. - O corsarismo imobiliário, que ataca no litoral, valendo-se da fragilidade dos prefeitos ansiosos por faturar alvarás, vai ser combatido pela Fundação Atlântida, colocando política de usos do solo como prioridade. Invasão de áreas públicas e privadas e a venda irregular de áreas destinadas a praças e ruas estão entre os alvos a serem combatidos pela nova entidade. - Justiça vem concedendo liminares contra bancos para revisar dívidas de leasing, empréstimos e imóveis. O uso do Seproc para cadastrar clientes como inadimplentes está restringido. - Quando do funcionamento do Pladep, órgão de coordenação do planejamento econômico, que existiu do governo de Adolpho de Oliveira Franco em diante, o coronel Alípio Ayres de Carvalho, seu dirigente, sugeria a implantação de indústria naval no oeste, o que ocorre, neste momento, em escala reduzida em Foz do Iguaçu e que tende a expandir-se nos estaleiros de médio e pequeno porte em função da hidrovia Tietê-Paraná, ainda subutilizada. -
FOLCLORE Diz o Neném Prancha que penâlti é coisa tão importante que deveria ser cobrado pelo presidente do clube. Mas no interior paranaense, anos 50, o Tocafundo, que jogou no Palmeiras e no Atlético e Ferroviário daqui, botou na cabeça de um juiz, em jogo amistoso, em que atuava por equipe universitária, que a nova regra admitia a barreira na cobrança da penalidade. Uma outra incrível foi a do Ivan Gonçalves, goleiro atleticano, que, jogando em Paranaguá, assim que o juiz apitou ele se jogou com os pés no atacante do Rio Branco que ‘‘ia’’ bater o penâlti, dividindo a bola e mandando o adversário para escanteio.
CROMO A leptospirose negou que Curitiba fosse ecológica, mas não impediu que continuasse tendo muito eco e sendo muito pouco lógica.
AFORÍSTICO Por que não há feministas bonitas? Em toda pergunta quase sempre se descobre um preconceito, mas o fato é que a simetria entre beleza e virtude foi derrubada quando Jean Paul Belmondo, um ‘‘feio’’, virou ‘‘mocinho’’.

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