É impossível, como tenho dito, um pôquer em que todos blefem ao mesmo tempo. No entanto, a política, por ser arte próxima da prestidigitação, costuma nos surpreender, seguidamente, com esse ‘‘non sense’’. E é o que veremos nesta semana relativamente à convenção do PMDB com o imperador de Mombaça, Paes de Andrade, tentando encarnar a resistência e atribuir-se um grau de pureza em suas intenções, ganhando a dimensão de símbolo como um Ulysses, figura que ficou sempre ao largo de qualquer análise mais profunda como se estivesse próximo tanto do original mítico, o herói da Odisséia ou o de Joyce.
Aqui no Paraná já ficou nítido que as coisas não serão tão simples como acreditavam os adeptos da candidatura própria. Ao reassumir a presidência do diretório regional, o ex-governador Mário Pereira declarou-se engajado na linha da reeleição de FHC. Obviamente se Mário pouco agrega, também o Milton Buabssi, bom devoto mas nem tanto de voto, assim se apresenta. Especulou-se, vejam só, que até o Joaquim Roriz, candidato a governador em Brasília, teria convencido parte dos convencionais paranaenses à tese continuísta.
Colunistas em maioria combatem a reeleição, mas não avaliam que as opções existentes são mais perversas, em que pese esse ar régio de Luiz XIV do nosso presidente que ainda, a despeito de tudo, é o menos ruim e o mal menor, como acontece também com Lerner nas eleições regionais.
O impulso oposicionista, a vontade de mudar o jogo, hoje já não conta com a aura que botou o PMDB no poder com a chantagem do Plano Cruzado. Esses poucos anos de democracia ensinaram que uma das suas fragilidades tem sido a de haver um sentimento oposicionista que opera no plano ideal e que é incapaz de ajustá-lo à praxis, ao terra a terra. Por isso a fragilização das esquerdas que sempre operaram no plano de utopias e que abominavam o conceito de que a política é, antes de tudo, a arte do possível para aproximar os seus intentos do horizonte do desejável.
As figuras da política brasileira e paranaense são tão manjadas que lembram o café requentado e não vale a pena, num balanço honesto e abrangente dessa questão, botar em risco o que houve de avanço, ainda quando as panaquices tanto de Lerner quanto de FHC aborrecem. Imaginá-los, porém, substituídos pela linha de pretendentes que aí estão é seguramente um atraso. A calhordice de argumentar que as multinacionais querem FHC é uma gloriosa idiotice que só caberia no Brasil nacionaleiro e patrimonialista dos anos 50 e da usina de ideologia do ISEB. A guerra fria acabou e raciocinar em cima de uma visão conspiratória do mundo e da história é atraso intolerável.
BIZARRICE PMDB e PSDB diante do espelho lembram o exercício de Doutor Jekill e Mister Hyde. A imagem refletida é o PFL.
SPRAY Ciro Gomes, uma espécie de Álvaro Dias pós-graduado, estará hoje no Paraná para divulgar a sua proposta presidencial de ‘‘Brasil Real e Justo’’ como postulante do PPS, o partidão com filtro.- Esse ‘‘Real e Justo’’ lembra a pobreza do PMDB quando derrubou Lerner na Prefeitura com slogan de ‘‘Curitiba bela e justa’’. É insuportável qualquer forma de criatividade desse padrão.- Com ele deve vir o senador Roberto Freire, Marlon Brando da terceira idade, mas inegavelmente uma figura bem articulada que Richa considerava o melhor dos constituintes de 88.- Ciro fica três dias no Paraná para mostrar a via alternativa. E aqui com a juventude, o rosto de mocinho e a verbalização pode virar um Afif Domingos mais à esquerda, rosa-choque.- Não esquecer que o Afif levou a melhor em Curitiba e Ciro Gomes tem o perfil que o pessoal daqui curte.- Há muita inveja dos seus dotes intelectuais como aqueles que o consideram o resultado de um Roberto Mangabeira Unger ventríloquo. Fez um livro a duas mãos com o cientista político sobre alternativa ao neoliberalismo da moda e quando expõe os assuntos demonstra dominá-los.- Está correndo em jornais franceses uma carta (também na Internet) denunciando o caso Renault. Bem concisa e em língua francesa. Sai na Internet ‘‘http://www.impacto, simplenet.com’’. Guerrilha pura. Já houve 240 consultas.- Desembargador Dilmar Kessler relata o mandado de segurança do Sind-Servidores para derrubar o corte das consignações no contracheque dos barnabés. Processo autuado anteontem no TJ.- Investigações da CPI dos Precatórios não terminaram: Maluf, Pitta e Wagner condenados em São Paulo e aqui em Curitiba na apreciação sobre os feitos da Leasing alguns ‘‘laranjas’’, envolvidos naquele caso, voltam a ser referidos.- Campo do Tenente muda a partir do dia 9 com a fábrica de persianas ‘‘Hoollyflex’’, que vai gerar 70 empregos. Numa convocação apareceram mais de 700 candidatos, entre eles gente de São Bento do Sul. Depois dessa a cidade pode mudar de nome para Campo do Major ou do Coronel.-
FOLCLORE Servidores do Judiciário são combativos: a reposição salarial das perdas de 1992, ganhas no STF e não cumpridas pelo TJ, está sob exame da 3ª Câmara Cível e ontem não teve decisão porque Jesus Sarrão pediu vista. Segundo o anarquista Elísio Marques agora os judiciários ficam no aguardo da ajuda, lato senso, de Jesus Cristo e, estricto senso, do voto de Jesus Sarrão.
CROMO Do céu escuro pinga um floco luminescente que se atomiza numa tela do Cláudio Seto: é a contemplação zen por cento.
AFORÍSTICO Uma comitiva de poloneses visitando Guaratuba no Carnaval é a abertura para novidades: quem sabe o pierogue de camarão ou de siri.

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