Luiz Geraldo Mazza
Falávamos ontem da fragilidade sindical expressa nesse caso específico dos professores no qual o corte das consignações em folha de pagamento ameaça a APP. E trata-se de uma das mais arregimentadas categorias, do setor público a mais articulada como vem comprovando com greves e operações tartaruga desde os anos sessenta. Se perder o sangue e o plasma desse desconto em folha acaba na UTI. É medida de última ratio por seu traço violento e covarde como pelo que tem de dissolvente, desagregador, de relações orgânicas.
Mas quando o professor deixa os alunos sem aulas - e isso virou moda no país e há pouco tempo perdeu força por fadiga do material, estresse - a chantagem é terrível, ainda que não tanto quando o sistema de transporte entra em greve e faz de todos os usuários reféns da operação. Como se trata de hostilidade extrema, beligerância clara, às vítimas há dois caminhos: o de buscar Justiça ou costurar a ação política. No Judiciário mesmo uma argumentação sofisticada que estabelecesse analogia desses descontos com os relativos à previdência e ao Imposto de Renda dificilmente emplacam. Não esquecer também que juízes, no auge de sua guerra com Requião, determinaram, com a maior tranquilidade, a transferência dos depósitos judiciais do Banestado para órgãos federais.
Tanto num caso como no outro a postura é radical e entra no campo mais da interdição ética do que na área jurídico-política. Não se trata do que não se pode fazer e sim do que não se deve fazer em vista de um relacionamento de caráter orgânico, impositivo. Em todo o conflito de classe é necessário deixar um espaço mínimo para a conciliação e isso deve ser preservado, seja numa greve, numa ocupação de repartição pública ou numa invasão.
O governo alega que atendeu pedido de deputados, humilhados com o fato de terem sido alvo de ovos, felizmente bons, o que não se pode dizer de boa parte dos parlamentares que, ao contrário dos produtos das galinhas, dificilmente são classificáveis em dúzias. Na verdade uma baixaria dos mestres, própria de vagabundos de beira de cais, porém comuns nos parlamentos como no norte-americano, onde numa discussão sobre salário mínimo manifestantes lançaram baratas no recinto. Uma atitude burra, selvagem e passional, trabalhada pela ideologia de que um serviço social autônomo, o chamado ParanáEducação, acabaria com a escola pública. A agressão deu origem a outra, radical e capaz de matar a APP se seus dirigentes não souberem agir.
Testa-se aí a capacidade de resposta dos professores e desmascara-se o poder público que ocultava essa dimensão autoritária. O governo, que normalmente é frouxo nas tensões como nas invasões de terras, que não cumpre mais de 60 ordens judiciais de despejo, que não pune fazendeiros que tiraram o capuz e posaram na tevê por pura bravata depois de retomarem na marra um acampamento de sem-terra, joga na base da covardia. É tão covarde que não assume o ato que praticou ao atribuí-lo a um pleito do Legislativo quando fica surdo às ordens do Judiciário.
Para o bem da democracia, e aprofundá-la como experiência, seria ideal que os professores contornassem a crise com seus próprios meios. A consignação será sempre uma espada de Dâmocles e só uma lição pedagógica dos professores, organizando seu próprio sistema de cobrança, humilharia o poder.
Nesses tempos de globalização fundamentalista e fascista, porque coloca a economia como valor-chave (o que os liberais condenavam no marxismo) da vida em sociedade, o trabalho perde expressão como fator de produção e é preciso uma reação também em escala universal. Essa luta será tecida pelos pequenos exemplos como esse que o Paraná pode dar.
BIZARRICE Lineu Tomaz, que foi no passado gladiador de Requião e hoje o combate, conta que na convenção nacional do PMDB de 1994 o Palácio Iguaçu bolou esquema para promover o governador paranaense que se opunha a Quércia, agora seu aliado. Lotaram dez ônibus com o pessoal da periferia e essa gente foi para o alojamento no Estádio Mané Garrincha, enquanto os bacanas foram para o Hotel Nacional de cinco estrelas. Um quercista do MR-8 viu a situação e a dedou à pobreza que estava sendo discriminada. Resultado: a patuléia foi até a piscina, onde a elite se banhava e tomava sol, e exigiu partilhar daquele paraíso. Cena para filme de Fellini: o povo da Ferrovila num hotel de granfos.
Lineu pergunta: quem pagou a baita conta do Hotel Nacional?
ARBÍTRIO Sérgio Maravalhas foi impedido de entrar na Assembléia Legislativa. Causa, segundo ele, está na campanha que desenvolveu contra a poluição sonora da Auto Viação Glória dos Gulin, na Boa Vista. Sugere que a ordem é de Aníbal Khury para agradar o maior empresário de transporte urbano da Capital. Pode até ser exagero, mas o que não tem sentido é impedir o acesso de alguém ao Legislativo, principalmente quando o pai do interessado trabalha na casa.
FOLCLORE Bastou aquele travesti no Gala Gay do Rio afirmar que Lerner será o presidente da República para que houvesse muita especulação sugerindo que se tratava de algum político da praça disfarçado. Orlando Carlini matou a charada ao lembrar que frescura acumulada só pode ser redundância.
CROMO A carroça e o cavalo, da periferia dos transportes saltou ao primeiro plano na movimentação das cargas dos catadores de lixo. Ainda assim é apenas o privilégio de uma minoria, de uma casta da pobreza, já que os outros lembram em tudo o homem do riquixá carregando pirâmides de papel.
AFORÍSTICO O menino estava morto: nas suas mãos, o Tamagochi ainda pulsava.





