Pode ser que Jaime Lerner consiga para o nosso Estado o título de campeão de vôlei feminino com o Rexona do Bernardinho, mas seguramente em seu governo pouco fará para tirar do Paraná a tatuagem perversa de terceiro lugar no país em crianças em idade escolar e no mercado de trabalho. Pode alegar que houve recuperação: afinal éramos a medalha de prata nessa competição negativa em que só Piauí nos superava. Evoluímos ao pular do segundo para o terceiro lugar, o que não deixa de ser um feito: saímos da prata para o bronze.
O governo, que aliás usou os números anteriores para qualificar-se contra o predomínio do PMDB de Requião, e do qual Álvaro Dias se originava, na campanha eleitoral há de querer sofismar, como é do seu estilo, em cima da qualidade dessas pesquisas. Fica estranho, no entanto, no momento em que há a marcha contra o trabalho infantil, em grande parte escravo, o que se dá aqui também, a siderurgia de fantasias do governo anuncie que retirou 40 mil crianças da rua e as encaminhou para as escolas. Quem contou, quem recenseou?
O regime do triunfalismo, que eregiu essa empulhação da Curitiba-modelo, tem continuidade na manipulação estatística e de repente não sabemos se um número, como o divulgado da queda em 40% dos índices de mortalidade infantil, é para valer ou resultado das artes de algum feiticeiro e prestidigitador. Se há essa recuperação mesmo, moratória da expectativa de vida, deve-se considerar também que haverá, até por esse ganho, pressão na demanda escolar e de saúde pública, o que nem sempre existe no parâmetro necessário.
BIZARRICE Foi uma glória o baile Gala Gay do Rio, o maior do país: Nemécio Muller, cronista social, deu entrevista para a Rogéria com desenvoltura. Mas lá pela madrugada, às duas da matina de quarta-feira, me aparece um travestido que se declarou paranaense de Curitiba e emendou: ‘‘E saibam de uma coisa: Jaime Lerner ainda vai ser presidente da República do Brasil!’
Outros políticos do Paraná, que não escondem tal pretensão, tiraram sarro do episódio, mal disfarçando a dor de cotovelo. Metaforicamente desmunhecaram.
Socializemos o orvalho de purpurina que havia na madrugada.
SPRAYArley Lara, ex-presidente da Leasing, está ‘‘fulo’’ da vida: não tem nada a ver com as irregularidades dos tempos de Osvaldo Santos e foi afastado. Seu parente, Algaci Túlio, conhece muito bem o caráter do pessoal que adotou a medida, daí não espantar-se.- Álvaro Dias colocou o problema: o governo teria, segundo sua intuição, induzido a matéria da ‘‘Folha de S.Paulo’’, verdadeira, sem qualquer dúvida, sobre a apropriação política da Telepar.- Oposição ontem mergulhava em ata da Copel, abrindo-se (alguns acham que arrombando-se) para as parcerias.- ‘‘Impacto’’ está reproduzindo as matérias mais violentas contra o Palácio Iguaçu e seus inquilinos na ‘‘Gazeta do Paranᒒ. Com detalhe: a tiragem de agora (circulação dirigida e distribuição) é bem maior do que a original.- Esse tipo de publicação acaba prestando um serviço ao Paraná na medida em que põe a descoberto a fragilidade dos governos e da imprensa. Quem estimula esse clima é o governo, e isso vem desde Ney Braga. Quando Lupion ainda estava na política (tinha 49% das ações da ‘‘Gazeta do Povo’’, 100% de ‘‘O Dia’’ e da ‘‘Rádio Guairacᒒ) a oposição era normal porque os grupos estavam em confronto aberto.- Mineropar descobriu em Castro jazidas. O ‘ouro’ político do noticiário no município é a história da jovem Silvana que acusa Jocelito de estupro. Por sinal que, apesar de ser legítima a reação das senhoras de Ponta Grossa, há algumas delas adversárias políticas notórias do prefeito.- Curitiba e Ponta Grossa siamesas no reacionarismo: votaram em Plínio Salgado para presidente no pleito de 1958. A primeira se adaptou mais rapidamente aos adventícios, entre eles os migrantes e lúmpens que o PMDB adotou (facilitando invasões de terras como a da Ferrovila) como parceiros de aventura política, e a segunda foi mais resistente até a atração de marginais exercida pelo maior pólo de oleaginosas da América Latina.- A elite se isolou com candidatos da tradição como Plauto Miró e não teve cuca para votar no petista Péricles Holleben, ‘‘mal menor’’ ante Jocelito. O medo os afastou da civilidade.
FOLCLOREOut-doors de notória propaganda política na praia em amarelo e azul com os dizeres ‘‘Obrigado, Álvaro Dias. Agora o Paraná fala melhor.’’ são assinados pelos políticos ligados ao PSDB regional. A bronca diante do abuso não é por causa da manipulação eleitoral, mas pelo caráter enganoso da propaganda, o que constata qualquer dos mortais que tenha um celular. Os mais revoltados estavam pensando em retrucar anunciando em classificados que Álvaro Dias atenderia pessoalmente casos de celulares que não funcionassem... Seria um caso a mais de justiça poética.
CROMOUm anjo, teológico, criatura celeste como o dos afrescos clássicos, o corpo alvo sangrando numa invernada: como se lhe faria a necrópsia? Muito antes da moda atual em torno desses seres - e concretos, como se insinua - pensei nessa hipótese. No quadro uma flora diferenciada como a dos gerânios ardentes de Van Gogh, inclassificável, sob o ponto de vista botânico.
AFORÍSTICONão é só em termos de Universidade que perdemos de Santa Catarina. Apanhamos em renda per capita, indicadores sociais de um modo geral e especialmente em quadros políticos. A comparação é estarrecedora e já exportamos gente daqui para lá como o parnanguara Jorge Lacerda que morreu no mesmo avião em que estavam Nereu Ramos e Leoberto Leal.

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