Luiz Geraldo Mazza
O apelo à rua
A despeito de sua condição de primeiro intelectual a assumir a presidência e, por isso mesmo, desfrutar de uma aura por seu brilho acadêmico (que não é tanto em escala internacional como ele e seus áulicos imaginam), Fernando Henrique, que se dizia parlamentarista e transformou-se no presidencialista mais radical que até agora tivemos, parece um rei de França, especialmente o Luís XIV, ao sugerir que a rua é que o deseja ver reeleito. Ora, a última vez que um presidente fez esse tipo de apelo quebrou a cara ao convocar a população para vestir-se de verde e amarelo e ela saiu de luto e em luta contra um dos maiores mistificadores de nossa história, o outro Fernando.
Anteriormente tivemos uma queda de braço histórica quando a UNE, os pelegos do sindicalismo e os sargentos, entre outras corporações, quiseram forçar a barra pelas reformas de base de Jango, aliás diametralmente opostas as que são colocadas agora, e a resposta das marchas de traço religioso acabou garantindo o golpe militar, apoiado nessas manifestações mais numerosas do que aquelas.
O presidente sai da sua cautela ao partir para esse tipo de conclamação e passa a apostar na massificação, o que tanto césares romanos como Hitler e Mussolini conseguiram com indiscutível eficiência e em cima de valores como a honra nacional. É inegável que a maioria da população está satisfeita com FHC e especialmente o Plano Real (é um avanço importante este deter mais consenso do que o presidente) e também que defende a reeleição e até a aprova. O que não se concebe é que o presidente não tenha fair play para encarar o jogo sinuoso da política, que ele próprio estimula com o toma cá, dá lá, e não saiba encarar as naturais adversidades do processo.
Se é verdade que o apoio a FHC e à reeleição se torna inquestionável, urge considerar que essa aprovação não é entusiástica e nem exaltada, mas expressa de forma discreta, pois ainda não há elementos para colocar o nosso presidente na condição de homem providencial e salvador, deformações bem brasileiras. Parodiando Galileu se pode dizer, como se dá em Brecht, que povo que precisa de salvadores não merece ser salvo.
BIZARRICE A derrota do PMDB nas eleições municipais tirou os últimos fios de cabelo da careca do Romanelli. Rafael Greca, secretário de Planejamento, tirando sarro na CBN da ofensiva oposicionista para intrigá-lo com Lerner. E disse mais: foi ele quem sugeriu a transferência de poderes à Secretaria da Fazenda e que estavam irregularmente em sua pasta.
SPRAY De madrugada um policial atira em vigilantes, ao meio-dia um assaltante entra na Az de Espadas, que vende armas, e mata um empregado, Celso Bala. E apesar de tudo isso, que aconteceu na rotina de ontem, a Secretaria de Segurança ainda fatura aquela pesquisa que lhe dá 75% de eficiência. - Não bastasse tudo isso tivemos mais fugas de presos. Prender é mais difícil do que escapar. Isso a estatística, não virtual, o demonstra. - Estavam querendo fazer surf em cima de promoção da feira interamericana de livros e o governo reagiu, pois a iniciativa é sua. - Lerner tem uma idéia: a de fazer de Curitiba um pólo editorial e conta até com o teaser que o animaria - ninguém esquece do primeiro livro. - Por falar em editoras, o governo deveria reeditar, o quanto antes, a Geografia Física do Paraná do mestre Reinhard Maack e a sua obra, ainda inédita, sobre mineralogia da terra. - Está certa a Assomec em eleger Cássio Taniguchi presidente da entidade e não para homenageá-lo e sim para levá-lo ao desafio de saber mediar, como político e técnico e ex-secretário de Planejamento, os conflitos entre centro e periferia na região metropolitana. - Por extensão é necessário ir mais longe na redução dos desníveis regionais e que se agravarão, como tenho demonstrado, com a consolidação do pólo automotivo na Grã-Curitiba, tema hoje da responsabilidade do Rafael Greca. - Uma das causas das cheias no centro é o bloqueio de um dreno, um circuito ligado ao rio Belém, no quarteirão entre as ruas Barão do Rio Branco, Monsenhor Celso, José Loureiro e Pedro Ivo. Alguns engenheiros haviam previsto, quando dessas obras, que haveria o problema em cima do canal de desafogo do rio Ivo e que exigiu obras complementares tocadas pelo ex-prefeito, mas insuficientes para disciplinar as cargas. Indispensável, a essa altura, uma anatomia urgente do problema. -
FOLCLORE Muita bravata da oposição em torno da reeleição desmistificada na hora da votação: tanto que quando percebeu a derrota saiu do recinto. Aí para completar uma cena, que lembra os esquetes do CPC da UNE, com o ingresso na sala da comissão de alguém fantasiado de rei para caricaturar Fernando Henrique, imediatamente posto para fora pelos seguranças. Para um governo que prometeu fazer a sua claque para a pressão nas galerias, através do PSDB, o evento mostrou fragilidade do sistema, embora a vitória ocasional. Apelar para o circense na prática política à brasileira soa apenas como redundância.
CROMO Cortaram dois pinheiros centenários no Alto Cabral para construir um paliteiro de concreto: só falta agora, para mostrar civilidade e amor à ecologia, a construtora botar um painel com a gralha azul.
AFORÍSTICO Democracia é o governo das maiorias com respeito à minoria. A regra parece aplicar-se como uma luva na oficialização do Carnaval, sabidamente um culto de minorias, principalmente em Curitiba. Não na Bahia, em Olinda, em Recife. Aqui é uma exortação ao tédio que nem a ala dos profetas da escola de samba evangélica vai neutralizar.





