O apelo à rua
A despeito de sua condição de primeiro intelectual a assumir a presidência e, por isso mesmo, desfrutar de uma aura por seu brilho acadêmico (que não é tanto em escala internacional como ele e seus áulicos imaginam), Fernando Henrique, que se dizia parlamentarista e transformou-se no presidencialista mais radical que até agora tivemos, parece um rei de França, especialmente o Luís XIV, ao sugerir que a ‘‘rua’’ é que o deseja ver reeleito. Ora, a última vez que um presidente fez esse tipo de apelo ‘‘quebrou a cara’’ ao convocar a população para vestir-se de verde e amarelo e ela saiu de luto e em luta contra um dos maiores mistificadores de nossa história, o outro Fernando.
Anteriormente tivemos uma queda de braço histórica quando a UNE, os pelegos do sindicalismo e os sargentos, entre outras corporações, quiseram forçar a barra pelas reformas de base de Jango, aliás diametralmente opostas as que são colocadas agora, e a resposta das marchas de traço religioso acabou garantindo o golpe militar, apoiado nessas manifestações mais numerosas do que aquelas.
O presidente sai da sua cautela ao partir para esse tipo de conclamação e passa a apostar na massificação, o que tanto césares romanos como Hitler e Mussolini conseguiram com indiscutível eficiência e em cima de valores como a honra nacional. É inegável que a maioria da população está satisfeita com FHC e especialmente o Plano Real (é um avanço importante este deter mais consenso do que o presidente) e também que defende a reeleição e até a aprova. O que não se concebe é que o presidente não tenha ‘‘fair play’’ para encarar o jogo sinuoso da política, que ele próprio estimula com o ‘toma cá, dá lá’, e não saiba encarar as naturais adversidades do processo.
Se é verdade que o apoio a FHC e à reeleição se torna inquestionável, urge considerar que essa aprovação não é entusiástica e nem exaltada, mas expressa de forma discreta, pois ainda não há elementos para colocar o nosso presidente na condição de ‘‘homem providencial’’ e salvador, deformações bem brasileiras. Parodiando Galileu se pode dizer, como se dá em Brecht, que povo que precisa de salvadores não merece ser salvo.
BIZARRICE ‘‘A derrota do PMDB nas eleições municipais tirou os últimos fios de cabelo da careca do Romanelli.’’ Rafael Greca, secretário de Planejamento, tirando sarro na CBN da ofensiva oposicionista para intrigá-lo com Lerner. E disse mais: foi ele quem sugeriu a transferência de poderes à Secretaria da Fazenda e que estavam irregularmente em sua pasta.
SPRAY De madrugada um policial atira em vigilantes, ao meio-dia um assaltante entra na Az de Espadas, que vende armas, e mata um empregado, Celso Bala. E apesar de tudo isso, que aconteceu na rotina de ontem, a Secretaria de Segurança ainda fatura aquela pesquisa que lhe dá 75% de eficiência. - Não bastasse tudo isso tivemos mais fugas de presos. Prender é mais difícil do que escapar. Isso a estatística, não virtual, o demonstra. - Estavam querendo fazer ‘‘surf’’ em cima de promoção da feira interamericana de livros e o governo reagiu, pois a iniciativa é sua. - Lerner tem uma idéia: a de fazer de Curitiba um pólo editorial e conta até com o ‘‘teaser’’ que o animaria - ‘‘ninguém esquece do primeiro livro’’. - Por falar em editoras, o governo deveria reeditar, o quanto antes, a ‘‘Geografia Física do Paranᒒ do mestre Reinhard Maack e a sua obra, ainda inédita, sobre mineralogia da terra. - Está certa a Assomec em eleger Cássio Taniguchi presidente da entidade e não para homenageá-lo e sim para levá-lo ao desafio de saber mediar, como político e técnico e ex-secretário de Planejamento, os conflitos entre ‘‘centro’’ e ‘‘periferia’’ na região metropolitana. - Por extensão é necessário ir mais longe na redução dos desníveis regionais e que se agravarão, como tenho demonstrado, com a consolidação do pólo automotivo na Grã-Curitiba, tema hoje da responsabilidade do Rafael Greca. - Uma das causas das cheias no centro é o bloqueio de um dreno, um circuito ligado ao rio Belém, no quarteirão entre as ruas Barão do Rio Branco, Monsenhor Celso, José Loureiro e Pedro Ivo. Alguns engenheiros haviam previsto, quando dessas obras, que haveria o problema em cima do canal de desafogo do rio Ivo e que exigiu obras complementares tocadas pelo ex-prefeito, mas insuficientes para disciplinar as cargas. Indispensável, a essa altura, uma anatomia urgente do problema. -
FOLCLORE Muita bravata da oposição em torno da reeleição desmistificada na hora da votação: tanto que quando percebeu a derrota saiu do recinto. Aí para completar uma cena, que lembra os esquetes do CPC da UNE, com o ingresso na sala da comissão de alguém fantasiado de rei para caricaturar Fernando Henrique, imediatamente posto para fora pelos seguranças. Para um governo que prometeu fazer a sua claque para a pressão nas galerias, através do PSDB, o evento mostrou fragilidade do sistema, embora a vitória ocasional. Apelar para o circense na prática política à brasileira soa apenas como redundância.
CROMO Cortaram dois pinheiros centenários no Alto Cabral para construir um ‘‘paliteiro’’ de concreto: só falta agora, para mostrar civilidade e amor à ecologia, a construtora botar um painel com a gralha azul.
AFORÍSTICO Democracia é o governo das maiorias com respeito à minoria. A regra parece aplicar-se como uma luva na oficialização do Carnaval, sabidamente um culto de minorias, principalmente em Curitiba. Não na Bahia, em Olinda, em Recife. Aqui é uma exortação ao tédio que nem a ala dos profetas da escola de samba evangélica vai neutralizar.

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