Nos dias que antecederam o carnaval a CUT tentou politizar a festa, na base do bom humor, sugerindo que sacudindo o povo derruba FHC. É um velho equívoco da esquerda primitiva, o do engajamento em todas as manifestações culturais como essa, que até convida as pessoas à alienação, ao torpor do escapismo, mas jamais a exercícios de suposta racionalidade.
Pessoalmente embarquei, nos anos sessenta, pouco antes do golpe, numa dessas quando todos os esforços eram explorados pela guerra fria, às vezes tão pretensiosa em suas supostas razões como essas, puramente alegóricas, da CUT. O advogado Linhares de Lacerda, militante da extrema direita, integrante do Partido Integralista de Plínio Salgado, entrou de corpo e alma na guerra psicológica e chegou a publicar um classificado nos jornais, anunciando que comprava armas. Para glosar o episódio, improvisei marchinha carnavalesca em cima do assunto: ‘‘Hipoteco meu teco-teco// a minha casa, o meu quintal// vou armar minha família// pra evitar que comunista// me subverta o carnaval.’
CHESTERTON SEMPRE Essa fragilidade - a de responder com humor aos desafios mais pesados que reclamam atitude mais bélica do que aforística - sempre foi uma medida de segmentos da esquerda, que mal dissimulava a impotência. Como a ‘festiva’ era olhada com maior seriedade, por causa de seus efeitos psicossociais, pela engrenagem do sistema e que agia em nome do mundo ocidental e cristão, vimos o sacrifício estúpido imposto a Geraldo Vandré por exemplo, tão ingênuo que cria na hipótese de que um refrão (quem sabe faz a hora não espera acontecer) muda a realidade, reverte um quadro hostil. Lembro das provocações do CPC da UNE (lá estavam o Carlos Estevam, doutrinador mor, Arnaldo Jabor, Vianinha, etc) em cima das chamadas classes dominantes e do imperialismo. Chegou um momento em que os burgueses chegavam a convidar esses grupos teatrais para divertir-se com agressões como numa espécie de catarse psicanalítica.
Certa ocasião, já sob o regime militar, lembro de um dia em que o Zé Keti se apresentou meio clandestino e com uma charge bem sacada contra as marchadeiras que deram o ponta pé inicial no golpe que os militares consolidariam. Guardei o refrão que era assim: ‘‘Você marchou com a democracia// agora chia, agora chia’’. Isso foi meio profético, já que na sequência muitas das marchadeiras (os desfiles fanáticos da marcha com a família e Deus pela liberdade) acabaram votando nas oposições, então representadas pelo MDB. Essa resposta a desafios, como vinha dizendo, lembra Chesterton.
ALIENAÇÃO E ENGAJAMENTOO carnaval, cada vez pior, e a política, idem. Não temos sequer hoje o consolo das marchinhas que enfocavam questões sociais como a do pedreiro Valdemar (‘‘Você conhece o pedreiro Valdemar?// Não conhece? pois eu vou lhe apresentar:// de madrugada toma o trem da circular//faz tanta casa e não tem casa pra morar//’) ou a do caracol sobre o problema da habitação: ‘‘Há muito tempo não tenho onde morar// se é chuva, apanho chuva// se é sol, apanho sol// Francamente pra viver nessa agonia// eu preferia ter nascido caracol.// Levava minha casa nas costas muito bem// não pagava aluguel, nem luvas a ninguém// Morava um dia aqui, no outro acolá// Leblon, Copacabana, Madureira ou Irajá!’
Ora, o carnaval é diluidor e não serve para mobilizar. O tom social dessas marchas era volátil em meio à curtição. A pretensão e arrogância dos homens que se julgam ‘‘vetor da história’’, como esses dos partidos nanicos, bloqueados contra o senso do ridículo, não percebem o que há de anedótico e pouco quixotesco quando numa plenária, decidem, por exemplo, condenar o ataque americano ao Iraque, como se isso tivesse qualquer influência na realidade.
Há de dizer-se que o ser humano está condenado a viver mais na fantasia, no imaginário, do que se possa avaliar e é aí que a sua racionalidade é posta à prova. É melhor essa constatação do que achar-se sério no WC, numa postura que lembra a do pensador clássico de Rodin, acreditando que até naquele momento, é indispensável pensar na humanidade e em sua reforma ou revolução. Nem a puxada da descarga é corte epistemológico suficiente.
FOLCLORE A propósito de ilusões engajadas, uma forte recordação dos anos 50 no final do curso de Direito na Federal: o casal Rosemberg, acusado de transferir aos russos segredos militares, estava para ser executado na cadeira elétrica nos Estados Unidos da América do Norte e fizemos uma assembléia do Centro Acadêmico para discutir o tema. Houve forte arregimentação à direita e à esquerda. Esta, a nossa, majoritária, pleiteava um telegrama pedindo a comutação da pena de Ethel e Julius, que ao nosso ver eram vítimas do macartismo ianque e não espiões, e a direita fazia tudo para boicotar a decisão, valendo-se até da sabotagem de apagar a luz do anfiteatro em que era realizada a assembléia e também da ‘‘técnica do cansaço’’ - a de revezar oradores na tribuna - para prolongar a decisão e afetar o ‘‘quórum’’.
Foi uma guerra: de madrugada, extenuados, festejámos a vitória inútil como se a liberdade do casal estivesse garantida. Se nem o apelo do Papa foi atendido, com todo o peso da sua autoridade, ainda assim, o nosso Exército Brancaleone achava que havia imposto mais uma derrota ao imperialismo. Chorávamos de emoção na madrugada fria. O descompromisso com a realidade imediata está tão perto da ingenuidade quanto da pureza.
CROMO Depois da exaustão da festa, o carnavalesco se traveste de cristão e vai à igreja para o ato de aposição de cinzas: o padre vê confete nos cabelos da cabeça abaixada e reverente. E na sua mente cristã aflora: ‘‘confete, pedacinho colorido de saudade...’

mockup