Luiz Geraldo Mazza
Houve tempo em que se dizia, a cada situação tensa, na qual se envolviam os movimentos sociais, que se desejava produzir um cadáver. Nas disputas de terras está havendo de tal forma a banalização da violência de lado a lado que as mortes e cenas de torturas são olhadas com normalidade, como se fossem a coisa mais natural do mundo.
A cada avanço dos sem-terra há a represália dos fazendeiros mais radicais, o que se repetiu agora na Fazenda Boa Sorte, em Marilena, sempre no Noroeste, com a morte de Sebastião Camargo Filho, que pelos relatos periciais teria sido objeto de execução porque o tiro foi dado a um palmo de distância. Seguiu-se o ritual da vingança com os sem-terra reocupando a fazenda Água da Prata, tal qual se dera naquele outro incidente em que os rangers encapuzados, o que afinal se repetiu agora, destruíram um acampamento alegórico e botaram banca chegando ao cúmulo de posarem para a televisão sem que o governo movesse uma só palha para enquadrá-los e processá-los. O MST reocupou a área em meio àquela marcha a Curitiba.
Como se vê, não apenas o governo como de certo modo os contendores não dão a mínima para a lei e fingem civilidade nas mesas de negociações. Essa postura, vesga e delinquente, vem de longo tempo de impunidades como a da Fazenda Can Can, desocupada no governo Requião somente na iminência da intervenção federal determinada pelo Superior Tribunal de Justiça e passa pela maior das tragédias recentes, a de Campo Bonito, onde morreram três PMs e o líder Teixerinha.
A lentidão da Justiça, do INCRA, da autoridade policial acaba alimentando o radicalismo dos sem-terra e da Ku-Klux-Klan, que tenta ser o braço mais forte dos fazendeiros diante do MST, facção vinculada ao PT. A notícia, dada ontem pelo governador, de que o secretário de Segurança vai para a Casa Civil, tem em tudo a aparência, mesmo que não seja intencional, de uma justificativa para os sem-terra, tal qual aconteceu quando se empenhou para liberar os presos no temor de uma baderna no Centro Cívico como aquela do governo Richa. É essa insistência em buscar caminhos tortuosos, fugir à realidade, empurrar com a barriga, que fazem o governo paranaense responsável pelo pior que vai acontecer. Diante da última bravata do MST, digna do Jim Jones para o PT, de que fará ocupações para ajudar Lula, o governador deveria ser mais claro e largar mão do seu hábito de buscar a acomodação.
BIZARRICE Domingo, na Boca Maldita, o deputado Romanelli contava que na sua cidade, a de Matão em São Paulo, Requião era o preferido para a convenção presidencial. O José Carlos Mendes, ao lado, fez a observação lembrando que se tratava da terra da laranja. Romanelli, traído por um ato falho, replicou dizendo que ele não era laranja. Enfim, conversa pouco crítica e muito cítrica.
SPRAY No restaurante Colibri um grupo de alvaristas, entre os quais o bancário Valter Senhorinho, mais devotos sem votos do PSDB, fazia reflexões ontem. Um comitê vai ser montado no Centro Cívico e como já existem o do Requião e do Lerner na mesma área (Palácio Iguaçu, liberado pela lei eleitoral) ficam todos nivelados e perto de sua aspiração.- Revista Direção faturou R$ 180 mil, um absurdo, por matéria escandalosamente. O dono da publicação era, em São Paulo, representante da Móveis Guelmann. Um paulista aliado e que satisfaz a vaidade narcisista do governo.- Gerentes da Leasing, mais pessoas que ocuparam postos de comando na Secretaria de Fazenda em governos anteriores, estão entre os participantes da operação com os 500 automóveis.- O governo Lerner agiu contra os responsáveis pelos desmandos daquela área, mas preservou o diretor da área e o promoveu a secretário de Estado na pasta do Esporte. Há 26 notícias crimes providenciadas, o que não reduz a surpresa ante a proteção.- Área técnica do banco está dividida em torno do assunto. Todavia, pelo jeito vai ter que aceitar o pagamento em precatórios, posto que nem todos que serão ouvidos concordem.- Descobertas dos chunchos com ICMS (até agora só parte da gangue está presa e nada aconteceu para nenhum empresário, apesar do notório envolvimento) e esses da Leasing se deram quando Miguel Salomão estava na pasta da Fazenda.- Governador perdeu a linha com fotógrafos em Foz do Iguaçu, alegando que mostrariam a faixa de protestos dos professores ao fundo. Se fosse um merchandising oficial aí estaria tudo bem.-
FOLCLORE Propaganda do ICMS do governo pode ser usada integralmente pela oposição na campanha eleitoral: aquelas corridas sem sucesso atrás de bandidos e mais os incêndios que não são atendidos não por falta de combustível e de água devem ser completadas com as crianças que morrem em hospitais porque os sonegadores não recolhem impostos. A oposição pode fazer uso dos quadros e dizer o que falta não é o ICMS, mas, sim, governo. E que diferença entre esses anúncios com os da Prefeitura de Curitiba, otimistas e positivos, como os que reverteram a resistência da população ao IPTU.
CROMO Entre uma rosa amarela// um cravo branco e um jasmim// encontrei a Florisbela// entre as flores de um jardim// implorei os beijos dela// ela nem olhou pra mim// afinal as Florisbelas// todas elas são assim// E vendo que nada arranjava// eu dei o fora por fim// a Florisbela, quando viu que eu me afastava// correu atrás de mim// afinal as Florisbelas// todas elas são assim// Vejam se era possível numa festa rebuscada, como a dos carnavais passados, onde predominava a metáfora, incluir a camisinha como ícone. A galanteria e a finura vinham precisamente dos eufemismos elegantes.
AFORÍSTICO Requião e Quércia em causa comum pela candidatura própria do PMDB: nada se cria, tudo se transforma, uma salada a Lavoisier.





